Vi, já não sei onde e por puro acaso, uma referência a uma encomenda de castanhas à "Bota um cibo".
Resolvi experimentar porque gosto de castanhas e porque gosto de ir testando a modernização dos produtores de alimentos e fibras.
Bom serviço, rápido, emails atentos com respostas concretas às minhas perguntas, umas castanhas decentes e um preço decente, não fora o preço das entregas e a forma como isso é tratado no site das vendas.
Por exemplo, para a quantidade que comprei, dois quilos, o custo de envio praticamente duplica o preço, embora uma encomenda de cinco quilos já permita que o custo de transporte suba relativamente menos o preço por quilo, de modo a ficar em linha com o preço do supermercado, o que só se percebe no fim da encomenda porque não é considerado pelos produtores como uma questão comercial relevante para a tomada de decisão do consumidor final.
O que me leva a um assunto recorrente nas minhas considerações sobre a produção de alimentos e fibras, a logística e os custos da rarefacção da actividade económica em largas partes do país.
Já quando estive envolvido em tentativas para valorizar a carne de cabrito de rebanhos em zona de lobo, procurando trabalhar com a alta cozinha que estava disposta a pagar um preço mais alto ao produtor, as questões regulamentares do abate de animais - desenhadas para o grande consumo e tratadas como tal nos regulamentos comunitários, mas aplicadas às cadeias curtas por decisão estritamente nacional de transposição do regulamento comunitário - eram relevantes mas, acima destas, estavam questões logísticas em zonas cuja baixa densidade económica, tornando demasiado cara qualquer deslocação de pessoas e bens.
Em relação às pessoas, há muitos anos que falo do transporte a pedido como uma boa solução, bem podiam gastar o dinheiro do PRR nisso, em vez de andar a financiar a produção de habitação nas zonas mais ricas do país, para onde existem soluções de mercado, se o Estado se convencer de que o mercado são as pessoas.
Mas em relação às mercadorias, sobretudo a uma rede que permita fazer o encontro entre a produção que se distingue pela diferenciação e o nicho de consumidores que a pode viabilizar aceitando pagar ligeiramente mais, reconhecendo a qualidade e os serviços difusos de interesse geral que gera, confesso que não tenho ideias tão claras.
Com certeza há avanços importantes, comi ontem uma boas castanhas compradas dois dias antes em Vinhais, sem sair da minha cadeira em Lisboa, mas como respondiam os produtores quando perguntei por alternativas mais baratas usando os sistemas de camionagem, teriam de ir a Bragança porque camionetas em Vinhais, enfim, não servem para esse efeito, e lá se ia a eventual diferença no preço do envio da encomenda.
Claro que se pode pensar na lógica da economia da partilha, numa aplicação como a UberEats ou a Bolt, mas desenhada para ser uma aplicação social: todos os dias há pessoas a circular entre Vinhais e Bragança que, sem qualquer pagamento, aceitariam de bom grado dar uma ajuda nesse transporte de pequenas encomendas, o problema é que o desenvolvimento de uma ferramenta dessas, eficiente, sustentável e que sirva o objectivo de reduzir custos de transporte de pequenas encomendas, aumentando a competitividade das vendas directas à distância, não é com certeza a prioridade de nenhum dos pequenos produtores que talvez beneficiassem dos resultados.
Mesmo recorrendo a crowdfunding para levantar os recursos necessários ao desenvolvimento da ferramenta (com os ganhos inerentes de notoriedade), a verdade é que produzir castanhas é uma actividade, vender castanhas é outra actividade, aumentar a eficiência da logística associada é outra actividade, financiar o desenvolvimento e inovação é outra actividade, sendo muito pouco provável que alguém seja muito bom em todas essas actividades diferentes.
Era preciso que houvesse mais gente a produzir riqueza, para que a probabilidade de haver uns que são bons a produzir castanhas e outros que são bons a garantir a eficiência da logística permitisse o encontro dos dois e o desenvolvimento de soluções que beneficiem todos.
Por mim, o PRR bem podia ser gasto a procurar resolver (e quando falhasse, azar, parece-me um risco razoável) os becos sem saída com que sistematicamente os agentes económicos do mundo rural acabam por ser confrontados, em vez de se enterrar na macrocefalia da resolução dos problemas das grandes aglomerações de pessoas, exactamente o sítio onde há mais gente, criatividade, dinheiro, conhecimento, ligações sociais, isto é, mais mercado com capacidade para responder aos problemas das pessoas comuns, sem necessidade de intervenção do dinheiro dos contribuintes.
Mas como é aí que estão os eleitores, não tenho a menor esperança de que não seja aí que os recursos que o Estado retira aos contribuintes sejam gastos, com a agravante de, com isso, aumentar a ineficiência da resposta dos mercados (não, não estou a falar de lítio e hidrogénio, mas é uma boa ilustração de como dinheiro dos contribuintes a mais gera ineficiência).
ResponderEliminarO PRR não é um fundo de capital de risco! Tem que mostrar resultados concretos a quem o financiou, não pode ser esbanjado em tentativas frustes.
ResponderEliminartodos os dias há pessoas a circular entre Vinhais e Bragança que, sem qualquer pagamento, aceitariam de bom grado dar uma ajuda
Acha?
Talvez as pessoas nessa região tenham uma mentalidade diferente, mas eu, conhecendo a mentalidade muito familiar do povo português, diria que as pessoas de bom grado dão uma ajuda a um familiar ou amigo, mas dificilmente colaborarão com outra pessoa qualquer.
Não percebo como funcionaria essa coisa do "transporte a pedido" nem como é que se impediria isso de se transformar numa forma de alguns taxistas roubarem dinheiro ao Estado mediante viagens inúteis.
ResponderEliminarAs análises e ideias do HPS fazem mais pelo país "interior" do que qualquer ministério da "coesão" territorial.
ResponderEliminarFelicito-o pelo seu texto. Aqui estão mais algumas das suas propostas inteligentes, inovadoras e criativas. E simples. Se aplicadas, muitas responderiam aos anseios e necessidades das populações das regiões do interior, as mais deprimidas económica e socialmente. Com efeito, se se introduzissem formas de encurtar as distâncias(!) _ a sua solução da «economia de partilha» podia ser uma delas _ corrigiam-se algumas assimetrias incompreensíveis do país. Além de que, com soluções menos dispendiosas para o produtor e para o consumidor (reduzir-se os custos de transporte) haveria, sem dúvida, mais gente incentivada a produzir riqueza no país.
Mas por que raio há tanta incompetência nos governantes e só existe o «país-que-importa»? Porque se instalou tão grande indiferença por aquele «resto que é só paisagem»?
Suponho que deves ser o único português absolutamente convencido de que o PRR não vai ser esbanjado
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ResponderEliminara «economia de partilha»
A economia da partilha é uma coisa muito gira, mas só existe a uma escala muito pequena.
Veja-se a AirB&B. Na origem era de facto uma partilha gira - um tipo emprestar um colchão insuflável para outro tipo dormir na sua sala de estar. Atualmente, é apenas uma forma de arrendar propriedades. Não há partilha absolutamente nenhuma, há apenas um negócio normalíssimo.
A Uber é a mesma coisa - não há pessoas a partilhar viagens, há taxistas profissionais.
Transportar coisas de Vinhais a Bragança de forma profissional dificilmente servirá para alguém ganhar a vida. Se não for de forma profissional, só funcionará muito ocasionalmente, por favor.
Os indianos que andam pela cidade de Lisboa a entregar coisas não o fazem por partilharem as suas bicicletas; fazem-no porque são profissionais daquilo.
Quando a campanha de sensibilização dos aldeãos por causa dos incêndios é feita com financiamento do PRR, está tudo dito
ResponderEliminarA regulamentação que o Estado impôs taxificou a Uber, mas isso resultou da opção do Estado.
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ResponderEliminarConsequências da baixa confiança entre portugueses numa cultura e sistema politico baseado na inveja que favorece essa baixa confiança, além do mau funcionamento da justiça e do sistema deseducativo.
ResponderEliminarO que significa "taxificar"?
Eu no dia-a-dia vejo montes de gente (quase todos estrangeiros) a usar ubers, mas tanto quanto me parece aquilo é em tudo semelhante a táxis e não tem absolutamente nada de partilha. Os condutores estão ali a ganhar a sua vida como se fossem taxistas. Não estão a partilhar nada, estão a prestar um serviço em troca de dinheiro.
"Como na prática a Uber ou a Bolt não são em Portugal um expoente da economia da partilha – ninguém aloca carros que já estão comprados, ou cujo custo já existia (“custo afundado”) –, e os encargos são elevados, num mercado onde a concorrência se faz, muito, no preço, o serviço tem vindo a degradar-se – os carros são cada vez piores, e já não é raro encontrar motoristas que na sua condução em nada diferem dos taxistas-fangios que habitualmente combatem nas ruas da cidade de Lisboa (com a agravante de que muitas vezes não conhecem as ruas, e frequentemente se recusam a fazer as viagens que lhe são alocadas pela plataforma, cancelando-as). Os serviços de transporte associados a plataformas estão condenados, neste quadro regulamentar e cultural, a oferecer um serviço tendencialmente mau e onde os ganhos mínimos vão parar aos mesmos do costume – aos “empresários do sector”."
ResponderEliminarRodrigo Adão da Fonseca num artigo que te faria muito proveito ler "A “taxifização” da Uber e da Bolt"
ResponderEliminarEu a mim não me faz muito proveito ler sobre táxis e ubers, porque é coisa que nunca utilizo, nem uma nem a outra.
De qualquer forma, repito, a "economia da partilha" é um nome que atira areia para os olhos, não há partilha nenhuma, o que há é serviços prestados em troca de dinheiro, como quaisquer outros. E a AirBnB é um exemplo, aquilo é em tudo similar ao arrendamento de casas por pequenos períodos, que já se fazia em Portugal, especialmente em zonas de férias como o Algarve, muito antes de haver AirBnB.
Perguntas o que é taxificar, indico-te um artigo que explica isso muito bem, respondes-me que não te faz proveito nenhum porque não usas taxis.
ResponderEliminarVai ver se chove.
Vá lá, um parecer de excelente constitucionalista, que também é, sobre esta trapalhada. Salte daí um comentário ao artigo 113 ou 131 da constituição, ou outro qualquer, devidamente fundamentado num paper de Harvard (ou da Lusíada).
ResponderEliminarQue as castanhas lhe tivessem garantido a satisfação.
ResponderEliminarCertamente tive azar em 2 Kg de castanhas a 4,49€/Kg não aproveitei 0,5Kg. Grosso modo ficaram a 20€/kg.
ResponderEliminarAs ideias apresentadas seriam muito boas, não fosse as leis existentes.
Sou agricultor, que embora reformado tenho atividade aberta, pois ainda produzo determinado produto que vendo para determinados pontos do país.
Sempre que os clientes me compram pequenas quantidades, não é económico ir fazer a entrega, mas como meu filho visita os mesmos clientes, onde entrega e recolhe seus produtos... pode fazer as minhas entregas.
Só que legalmente, não o pode fazer, pois pagaria uma pesada multa.
O local de partida e de chegada dos produtos é o mesmo e chegámos a ir, cada um com um carro fazer a entrega.
Nesta altura, para ultrapassar a situação, eu faço uma fatura dos meus produtos a meu filho, que depois os fatura aos destinatários!
Sempre que ouço falar em medidas para aumento do emprego, penso logo qual será, a nova burocracia que vai ser implementada!
Eu fui ver o artigo, mas não o pude ler porque era de acesso pago.
ResponderEliminarPerguntei o que significava "taxificar" porque me pareceu vir de "tax" (imposto, em inglês) e não percebi o que tinha a ver com isso.
Se o Henrique me quiser explicar algo explique, não remeta para artigos de acesso pago. E, já agora, escreva em português de gente.
Eu quando vivi na Alemanha, num tempo em que nem internet havia, participei em verdadeira economia de partilha de viagens de automóvel, e ela nada tinha a ver com a Uber, que não passa de um vulgar serviço de táxis.
ResponderEliminarSe estiverem interessados, procurem Mitfahrzentrale, talvez ainda exista.
Uber não é um serviço de partilha. E os seus métodos sociais são... duvidosos. Mas enfim.
ResponderEliminarQuanto ao tema, a grande questão em Portugal é escala. Onde resido queixo-me de que não há vimho português, há espanhol, francês, e muito chileno e sul africano . O dono da loja responde que quer comprar, mas nunca tem disponível o número de caixas que acha mínimo para manter as suas margens (que inclui o transporte).
Os produtores teriam de se organizar em mega cooperativas, e criar cadeias logísticas profissionais e com desempenho maximizado ao cêntimo.
Eu querer explicar, até quero, mas é uma actividade inútil para quem não quer compreender.
ResponderEliminarEstá-se a falar de Uber, eu uso um neologismo "Taxificar", que evidentemente, para mim, remete para a actividade em discussão e a sua progressiva semelhança com o serviço tradicional de táxi, e tu achas que estou a falar de impostosm usando um anglicismo qualquer com Tax (cujo significado nem sequer percebo qual seria), que nem de perto nem de longe tem qualquer relação com o que está em discussão.
E concluis que a responsabilidade é minha porque o que escrevo não tem em atenção os absurdos em que te perdes, partindo eu do princípio que as pessoas que lêem o que escrevo querem perceber, e não apenas confrontar, usando as regras básicas da lógica formal.
Concordo,e provavelmente a médio e longo prazo (senão já) os resultados mais nefastos vão ser em outra areas que não a economia.
ResponderEliminarOntem comprei meio quilo ao mesmo preço(supermercado azul-amarelo alemão) e em trinta castanhas comi 20 com gosto,cinco sem gosto e outras cinco foram pró lixo. Já não foi mau pois não?
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