sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Opções sobre o futuro

A propósito do meu último post, um amigo meu escreveu:


"de nada serve adaptarmos-nos a um cenário de aumento global de 1.5ºC se caminhamos para um cenário de 4ºC. ... questionas a utilidade da redução das emissões de gases com efeito de estufa para reduzir a magnitude das alterações climáticas ... o que está em cima da mesa não é a centralização, que implica um governo centralizado que não existe, mas a necessária globalização das ações. Isto é, a necessidade de acordar metas e mecanismos globais de mitigação para evitar o chamado "free rider effect". ... a discussão da adaptação é, fundamentalmente, uma discussão de base territorial (regional, ainda que possam ser invocadas questões de justiça que implicariam o envolvimento de entidades supranacionais na resolução de problemas regionais), enquanto que a mitigação requer, necessariamente, uma abordagem global ou, pelo menos, ao nível dos 5 blocos económicos que representam 70% das emissões. ... O cenário de 4ºC tornará muitas partes do planeta inviáveis para a vida humana salvo que as comunidades locais sejam mantidas (com custos de qualidade de vida importantes) à base de investimentos de engenharia e gastos energéticos colossais. Como não parece ser realista ter "Dubais" e Abu Dabis" cobrindo os vastos territórios africanos e asiáticos onde se prevêem perdas de habitabilidade, estamos a falar, mais provavelmente, de calamidades e deslocações massivas de populações humanas."


Nem de propósito, Luís Lavoura, nos comentários ao post, insiste na tese de que Miguel Miranda tem razão quando atribui os mortos nas cheias da Líbia (entre 10 e 15 mil, há perto de cinco mil mortes confirmadas, mais uns 10 desaparecidos) a alterações climáticas, contestando a minha ideia de que essa elevada mortalidade decorrente, pelo menos parcialmente, da ruptura das barragens, se deve mais a opções de uso do solo que a alterações climáticas.


Estes dois comentários permitem-me aprofundar a ideia base que tenho vindo a repetir sobre este assunto: é muito mais provável que milhões de pessoas a gerir ameaças concretas e palpáveis tenham melhores resultados que "uma abordagem global ou, pelo menos, ao nível dos 5 blocos económicos que representam 70% das emissões", com o objectivo de evitar um cenário de aumento de 4º de temperatura.


Começo por esclarecer que isto não corresponde a nenhuma relativização ou desvalorização das vantagens em reduzir emissões, mas apenas à convicção de que é muito mais provável que a redução de emissões resulte mais de decisões individuais livres, incluindo nas escolhas eleitorais dos governos e respectivas políticas, que de abordagens globais, seja elas induzidas por "multilateralismo voluntário", por imposição judicial, como pretende o recente processo no tribunal dos direitos humanos, ou por mecanismos internacionais coercivos.


Os fogos são um bom exemplo para ilustrar a minha tese (que é apenas isso, uma tese, uma convicção, se quisermos, um "educated guess", não é nenhuma verdade, científica ou revelada).


Sistematicamente, quer em artigos menos científicos, quer em coisas mais académicas, quer ainda em produção científica, referem-se alterações ao padrão de fogo em consequência de alterações climáticas, com o argumento de que mais calor, mais secura e uma distribuição diferente das chuvas é mais favorável ao desenvolvimento de fogos mais intensos e extensos (Miguel Miranda, no ensaio que deu origem a estes dois posts, refere também os fogos neste sentido).


O padrão de fogo resulta, essencialmente, da combinação de quantidade e estrutura de combustíveis com condições meteorológicas favoráveis à progressão do fogo (sobretudo, secura e vento).


A alteração do padrão climático não influencia apenas a meteorologia mais favorável ao fogo, influencia as circunstâncias de desenvolvimento da vegetação, logo, climas mais quentes e secos, podendo dar origem a condições meteorológicas mais favoráveis ao fogo, podem ter um efeito raramente referido que é a alteração da produtividade primária, reduzindo a acumulação e alterando a estrutura dos combustíveis, portanto não é nada linear que o cenário climático que dá origem a condições meteorológicas mais favoráveis, ou mais frequentemente favoráveis ao fogo, resulte na alteração do padrão de fogo prevista, dado o efeito eventualmente contrário no crescimento da vegetação.


Ainda assim, estamos aqui no domínio da técnica e da ciência, basta melhorar os modelos para incluir variáveis que frequentemente são desvalorizadas.


Só que há uma questão bem mais relevante: o padrão de clima favorece um crescimento natural da vegetação, mas não diz nada sobre as opções de gestão da vegetação feitas pelas pessoas e comunidades. E o que sabemos sobre o fogo é claríssimo na identificação da gestão dos combustíveis finos como sendo o factor chave da gestão do fogo.


Não vou entrar nas alegações de alguns cientistas de que o modelo de publicação científico tem vindo a enviesar a produção científica no sentido de empolar o papel das alterações climáticas e desvalorizar outros factores, ao facilitar a publicação de artigos que confirmam as ideias dos revisores e dificultar a publicação dos restantes, mas vale a pena avaliar em que medida discutir os fogos predominantemente à luz das alterações climáticas induz desvios ineficientes nas políticas de gestão do fogo.


A partir do momento em que é fácil a qualquer responsável, político, técnico ou científico, justificar os efeitos socialmente negativos de um fogo recorrendo a alterações climáticas, está encontrado um espantalho que o desresponsabiliza de qualquer acção concreta pela qual seja responsável, porque não está na sua mão gerir o clima.


Tudo o que está na sua mão, e que se relaciona com gestão de combustíveis finos, adopção de políticas de prevenção e combate, protecção de pessoas e bens, passa para um segundo plano, desviando responsabilidades próprias e concretas para uma entidade metafísica - o mundo, a sociedade, eles, os que mandam no mundo - através da atribuição dos efeitos do fogo às alterações climáticas (que até podem influenciar a questão, evidentemente).


O caso das cheias da Líbia é uma declinação deste exemplo: há um histórico de ruptura de barragens no mundo, com mortalidades muito abaixo das cinco mil pessoas, mas a tragédia da Líbia só agora parece estar a ser analisada à luz das responsabilidades concretas de cada um dos políticos que podem ser responsabilizados, porque durante mais de um mês tivemos uma barragem contínua de utilização dessa tragédia no reforço da conversa sobre os efeitos das alterações climáticas.


Note-se que mesmo que tenha havido um precipitação absolutamente excepcional (acima da cheia milenária, por exemplo), e que tenha sido essa cheia anteriormente inadmissível a responsável pela ruptura das barragens (coisa que nunca sucedeu nos exemplos históricos, algumas, sobretudo de terra, podem ter ruído com excessos de precipitação, mas ou por erro de projecto ou de construção, coisas pelas quais é possível responsabilizar pessoas ou entidades concretas), a mortalidade excepcional dessa ruptura não depende da magnitude das alterações climáticas, mas das opções de gestão do território e das infraestruturas, incluindo da gestão dos planos de emergência associados à ruptura de barragens, que devem existir sempre, com sistemas de aviso e evacuação perfeitamente definidos, com melhor modelação da onda de cheia, etc., tudo questões pelas quais é possível responsabilizar pessoas, instituições e políticas, ao contrário da abstração da magnitude das alterações climáticas.


E é por isto, porque as acções "de base territorial" ou, se preferirmos, de escala humana, permitem que cada pessoa influencie o seu futuro dentro da sua liberdade que estou convencido de que serão muito mais eficientes e viáveis que as acções que obrigam a mecanismos colectivos que não responsabilizam ninguém em concreto.


E também porque quaisquer opções que sejam tomadas, sejam elas quais forem e à escala que forem, têm prejudicados e beneficiários e nunca foi boa ideia atribuir a uns poucos o poder de prejudicar uns e beneficiar outros, sem que os directamente envolvidos possam limitar esse poder.

13 comentários:





  1. Não. Tanto quanto me parece, os mortos nas cheias da Líbia devem-se fundamentalmente, não a alterações climáticas, mas a descuido humano (na manutenção das barragens, e no seu não esvaziamento atempado).


    E em parte devem-se a uma tempestade de grande dimensão, imprevisível, a qual não sabemos se virá a ser recorrente com as alterações climáticas, ou não.


    Aqui há uns anos houve um problema similar em Portugal, no Baixo Mondego, que ficou todo submerso, com enormes prejuízos (mas sem grande perda de vidas nem de habitações). O facto é que as barragens conferem "uma falsa sensação de segurança", como diria a inestimável Freitas. Durante muitos decénios elas funcionam perfeitamente, mas volta e meia vem uma tempestade anormalmente forte que as ultrapassa completamente.

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  2. deixei o setor 2º mas não mudei de ideias. tenho sérias dúvidas sobre estes assuntos em função do crédito dos autores.
    quando me iniciei na investigação científica há 20 anos recebi como 1º conselho «só é possível tirar conclusões alterando uma variável de cada vez»
    a dita ciência deixou de ser isenta porque depende da ideologia política

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  3. Então se estás de acordo com o que escrevi, incluindo uma citação que atribuis a Graça Freitas e que eu usei no texto, qual é mesmo o teu objectivo em chagar o juízo de toda a gente, inventando divergências onde não existem, sequer?

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  4. Henrique relativamente a esta parte "










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  5. balio parece-me que existe uma política de ter as barragens sempre na cota máxima (quando a precipitação o permite), de modo a manter sempre uma reserva "estratégica" de água para a agricultura e para o que mais for preciso; o corolário inevitável é que assim que vem uma tempestade mais ou menos intensa, as comportas têm de ser escancaradas.

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  6. Caro Henrique Pereira dos Santos
    "(...) das opções de gestão do território e das infraestruturas, incluindo da gestão dos planos de emergência associados à ruptura de barragens, que devem existir sempre, com sistemas de aviso e evacuação perfeitamente definidos, com melhor modelação da onda de cheia, etc. (...)" Curiosa afirmação. Isto existe mesmo em Portugal? Onde estão os planos de mergência em caso de ruptura de barragens? O DL 2/2019, de 11 de Janeiro, é um pouco vago nessa matéria e o portal da Protecção Civil é pouco mais que um sítio dedicado a passear importâncias e a definir teorias.
    Por outro lado, fico com muitas dúvidas de que seja possível avisar a população em tempo útil caso qualquer uma das maiores barragens em Portugal rebente. Consideremos o pior cenário possível em Castelo do Bode (albufeira na capacidade máxima, saturação excessiva do solo e caudal máximo dos afluentes depois de vários dias de chuva intensa ao longo da bacia do Zêzere e do Baixo Tejo, preia-mar e colapso total da estrutura; p.ex. devido a um violento terremoto). Supondo que a água seguiria pelo leito actual (o que não é certo, porque quando a barragem está na sua capacidade máxima a "crista da onda" está a cota superior aos cumes da foz do Nabão), calculo que a "onda" chegasse a Constância em seis minutos e meio. É de esperar que ao chegar à lezíria (Arripiado) a "onda" perdesse alguma velocidade, mas ainda assim a Golegã seria "engolida" pela "onda" menos de 15 minutos após o colapso da barragem. A partir daí é mais difícil prever a evolução da "onda". Porém, é previsível que a "onda" atingisse o Parque das Nações menos de 55 minutos após a ruptura da barragem. Como se avisa em tempo útil todo o imenso povo que fica no caminho da "onda"? Almeirim, Muge, Marinhais, Salvaterra, Benavente, só para referir as localidades mais importantes. Mesmo o "meu" Montijo não está livre, apesar da protecção do cume de São Francisco e da imensa planície de aluvião de Vila Franca. E não é de excluir a possibilidade, devido à tipologia do terreno, de grande parte da "onda" desaguar em Setúbal, galgando os terrenos a cota baixa de Rio Frio, numa linha mais ou menos recta entre o Infantado, o Poceirão e a foz da ribeira da Marateca. Teremos mesmo planos de emergência capazes de acudir a uma crise destas? Depois do que aconteceu em 2017, duvido.
    Um colega uma vez disse-me que eu tinha uma imaginação delirante, pois mesmo que os cálculos estejam certos, tal cenário jamais acontecerá. Talvez não, mas penso que daria um bom filme...
    Boas pedaladas.

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  7. Não faço a menor ideia de como se desata esse nó, mas pretender que ele se desata por cooperação voluntária multilateral, por mecanismos internacionais coercivos ou pelas decisões quotidianas de milhões de pessoas tem o mesmo grau de certeza: nenhum.
    Eu limito-me a dizer que acredito mais na última hipótese que nas outras (repara que independentemente de todos os constrangimentos que referes em relação à liberdade dos chineses, o facto é que todos os dias milhões de pessoas tomam decisões com base na informação transmitida pelos preços, digam os governos o que disserem, façam os governos o que fizerem).

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  8. Não estou a dizer que isso existe em Portugal, estou a dizer que isso deveria existir em todo o lado.
    Não conheço as suas contas, parece-me que está a partir do princípio de que a ruptura ou colapso de uma barragem é um fenómeno instantâneo como se a parede da barragem num repente se evaporasse, o que se pode admitir, mas não tem precedente histórico.
    Seis minutos e meio de aviso dão para salvar muita gente da morte.

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  9. Mecanismos internacionais coercivos só funcionam sobre os fracos, e quando o impacto sobre nós for perto de nulo.
    Decisões quotidianas... pois, tudo se resume ao que queremos abdicar. Convém no entanto dizer que algumas decisões pessoais estão condicionadas por factores externos, como o ciclo de vida dos produtos.

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  10. Do alto da minha ignorância o "post" deixou-me duas dúvidas.
    Encontro algumas semelhanças nas ingovernabilidades líbia e libanesa. No Líbano ainda não foram responsabilizados os responsáveis por omissões várias, da explosão no porto de Beirute. Duvido que na Líbia seja diferente.
    Sempre ouvi dizer a pessoas mais velhas que se a barragem de Alcântara cedesse, todas as barragens do Tejo sofreriam um efeito dominó fatal. Vi em 1979 no Ribatejo, os efeitos de Alcântara ter descarregado o excesso de água. Foi uma história que nunca foi contada e houve graves responsabilidades de autoridades portuguesas. Ninguém, que saiba, foi incomodado apesar de terem sido, ao que creio, os maiores prejuízos causados por cheias no Ribatejo.

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  11. Claro. Mas a realidade é que no ocidente as escolhas das pessoas estão a conduzir a uma redução de emissões. Na China as escolhas das pessoas (que não sei se são muito livres ou pouco livres, nunca estive na China) estão a conduzir a um aumento enorme de emissões. Daí a minha questão (embora reconheça que em certa medida ela é retórica).

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  12. Não entendo muito bem essas contas, mas o cenário parece-me excessivo. Não estou a ver uma onda resultante da eventual ruptura de Castelo de Bode conseguir viajar até Lisboa e muito menos até Setúbal (para conseguir passar do Tejo ao Sado seria necessário vencer cotas de 30 metros e a onda nunca teria essa dimensão). Convém termos presente que a barragem que rebentou na Líbia estava a 1 km da cidade, ou seja, praticamente em cima da mesma; a onda varreu as zonas ribeirinhas e afectou alguns bairros laterais, mas rapidamente perdeu força e por isso não arrasou a cidade toda.

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  13. Grande parte das emissões na China são resultado de opções dos consumidores ocidentais.
    Como se resolve, eu não sei, mas duvido que seja com acordos internacionais que esqueçam a natureza humana e, com certeza, a natureza dos mercados que dela decorre.

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