quarta-feira, 14 de junho de 2023

A metáfora da TAP

David Neeleman escreve hoje no Observador, tratando uma série de governantes de mentirosos para baixo.


Diz mais coisas e, mais relevante, aponta para uma série de factos.


Se tem razão ou não no que diz, não sei, tendo a acreditar mais em Neeleman que em António Costa e afins, mas reconheço que isso não passa de uma fé.


Em qualquer caso, compreendo que se Neeleman tiver razão em grande parte do que diz, está explicado o problema do governo com a TAP (não é que não estivesse antes).


O governo, para ajudar a garantir o apoio do PC e do BE, com toda a legitimidade política porque sempre disse que o ia fazer, reverteu a privatização da TAP.


António Costa, tanto quanto consigo perceber, não é um lunático que negue a realidade, bem pelo contrário, é uma pessoa bem lúcida e muito atento à realidade.


Mas tem uma característica que o torna um temível adversário político, embora um medíocre estadista: o poder não lhe interessa para alterar a realidade (se a alterar para melhor, óptimo, mas é um benefício marginal), o que lhe interessa é a realidade que lhe permite manter o poder.


A sua atenção para com a realidade não decorre da necessidade de a conhecer bem para poder intervir nela, mas da necessidade de a conhecer bem para organizar os factos em narrativas que sirvam o seu poder.


Resumindo, no caso da TAP, era-lhe mais ou menos indiferente se a TAP era estatal ou privada (como se demonstra pela tranquilidade com que agora fala da privatização), do que precisava era de reverter a privatização para ter apoio interno no PS e externo do PC e do BE.


Para isso, tinha de organizar os factos numa narrativa que lhe permitisse fazer isso: 1) dizer mal do accionista privado que fosse mais fácil diminuir aos olhos da opinião pública (o estrangeiro capitalista, ganancioso e golpista); 2) Dizer mal do processo de privatização responsabilizando Passos Coelho por tudo, incluindo pela obrigação de privatização que estava no acordo assinado por Sócrates e o PS; 3) Exagerar a importância da empresa; 4) Assustar os trabalhadores com o fim da empresa, enfim, essas trivialidades.


Como não tinha dinheiro, deixou ao accionista a substância das coisas, ao mesmo tempo que, decorrente da narrativa, enchia aquilo de verbos de encher que não mandavam nada mas lhe permitiam dizer que tinha revertido a privatização.


Quando a coisa correu mal, por causa da medidas tomadas durante a pandemia, mas sobretudo porque os tais verbos de encher acharam que conseguiam mesmo gerir companhias aéresas, Costa teve de se atravessar com dinheiro, procurando desesperadamente manter a narrativa que se ia esboroando lentamente, à medida que a realidade impunha uma nova privatização.


O problema da comissão de inquérito é a possibilidade de destruir a narrativa laboriosamente construída, pondo a nu a irracionalidade da decisão de reverter a privatização e o erro político brutal que António Costa resolveu assumir para facilitar o seu acesso ao poder, com custos para os contribuintes que ultrapassam largamente o que os eleitores aceitam sem pestanejar.


Ou melhor, o problema da comissão de inquérito é ser apenas uma janela escancarada sobre os bastidores do poder de António Costa: uma luta constante para organizar a realidade em narrativas que sejam úteis à manutenção do poder, independentemente do sentido de Estado de grande parte das decisões que o governo vai tomando.


O problema não é a TAP, o problema é a TAP ser uma metáfora de todo o consulado de António Costa: medidas populistas para garantir o poder, justificadas com narrativas em que os factos se organizam da forma conveniente, sem grande consideração pelos efeitos negativos na vida das pessoas e das instituições.


Deus tenha piedade dos herdeiros de Costa, que a minha bondade não chega a tanto. 

10 comentários:


  1. Inpunemente, um sistema que entrega, constitucionalmente, o poder Executivo, Lesgislativo e mesmo facções do Legislativo literalmente a um só personagem.

    Curiosa a posição da comunicação social tradicional, o 4º poder: sabem mas têm que pagar facturas e ter muito cuidado com o 3º poder.

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  2. O problema não é a TAP, o problema é esta política de guerrilha que só serve para achincalhar as instituições. 
    A TAP tem dois núcleos fortes . Um é o voo com sindicatos de direita, e o outro é a manutenção com sindicatos de esquerda. 
    Um não pode passar sem o outro, daí a convivência pacífica. Não é por acaso que o Frasquilho foi escolhido para chairman da TAP sem perceber nada de aviação. E também não é por acaso que a privatização da companhia foi feita com o governo já fora de funções. 
    O governo pode ser mau, não discuto, mas olhe que a oposição também não lhe fica atrás antes pelo contrário. 

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  3. O voo com sindicatos de direita, não. Sindicatos pragmáticos e exìmiamente capazes porque ricos e poderosos, passe a redundância. Especialmente o dos pilotos que consegue ser altamente coeso e habilmente discreto.
    Cumpts.

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  4. Isso é apenas a espuma dos dias.


    Costa será 'exposto' e desmascarado e perderá o poder com estrondo, numa versão optimista, lá para...2024 ou 2025.


    Isto é, igualará em longevidade no cargo o 1º-ministro mais bem-sucedido em democracia. Isto na tal versão optimista.



    A não ser que alguém esperasse uma 'fidelada' (morrer de velho no trono, depois de 50 ou mais anos de poder), isto significa que sairá quando, enfim, estiver farto, pouco mais ou menos.


    E o PS pagará por este desmascaramento o mesmo que pagou por ter um 1º-ministro que faliu o país e fugiu para Paris, até ser preso por corupção - nada (excepto uma pequena pausa para que os outros arrumem a casa e eles retomem fôlego).


    O nosso problema como país é infinitamente mais profundo.

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  5. como político é uma nulidade sem vergonha a quem o país interessa poucochinho ou nada, desde que se mantenha no poder para dar a mama aos servidores e tentar um lugar fora desta pocilga
    abriu com a caça ao coelho a quem atribuiu com todo o racismo a mixomatose da direita

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  6. Um texto perfeito, que diz tudo. A quem tem de me aturar, disse, em 2016, que a reversão da privatização da TAP seria a decisão mais financeiramente ruinosa de um governo português deste 1975. Naturalmente, o Covid deu uma enorme ajuda, mas acertei. Apesar do óbvio gritante desse facto (e da previsibilidade do mesmo, se até um nabo como eu lá chegou), hoje, um sociopata "carismático" que ainda nos vai governar (mais um, portanto), vai à AR insistir que foi uma grande ideia, que correu tão bem que ele até conseguiu que a TAP desse lucro.

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  7. Abençoada CPI onde vi pela primeira vez funcionar verdadeiramente a Democracia! Foi dos exercícios mais democráticos e   a que se assistiu: o escrutínio livre e transparente dos actos da governação. Tivemos uma ocasião única de ter "uma janela escancarada sobre os bastidores do poder de António Costa". 

     é o servilismo de alguns órgãos de Comunicação Social que timidamente fazem umas alusões muito tíbias ao (mau) funcionamento do governo.
     Espanta-me essa ausência de apreciação e de  julgamento de certa Imprensa face aos embustes e malabarismos do dr. Costa a quem tudo perdoam, desde a arrogância, à sua falta de carácter, de Princípios e de verticalidade. (Não fosse ele de esquerda e seria levado ao patíbulo e sido trucidado!)

    Incapazes de tomar uma posição crítica sobre este homem sem Ideias, sem uma linha de Pensamento sobre o futuro, sem um desígnio, nem sobre o que deseja  para o país. 
    Com uma ostensiva falta de qualidades para liderar e governar, há 8 anos que notamos as suas limitações e o ouvimos a apregoar umas coisas "como calha", ao sabor "da aragem" e depois, impunemente, descaradamente, a fazer o seu contrário, quando sente o rabo a arder (passe a expressão). Um imbatível contorcionista ao melhor estilo Groucho Marx, sem que ninguém lhe peça contas de nada.
      

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  8. https://biclaranja.blogs.sapo.pt/excerto-de-lisboa-do-passado-1253756

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  9. Em primeiro lugar, David Neeleman comprou a TAP com dinheiro dele (a um preço muito mais alto que a avaliação técnica da companhia diria).
    Depois, capitalizou-a com dinheiro da Airbus.
    Assim sendo, como explica a sua afirmação de que comprou a TAP com dinheiro da TAP?

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