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Também eu estou cansado do tema dos abusos na Igreja Católica, o último sítio da terra onde estas perversões se admitiam que acontecessem. Já aqui o disse por diversas vezes: ao longo da vida como crente participei de diversas actividades e movimentos, conheci diferentes paróquias, onde tive a sorte de conhecer extraordinários padres e leigos anónimos, alguns dos quais vieram a revelar-se os meus maiores heróis, invulgares exemplos de vida e doação desapegada aos outros na forma de serviço e persistente oração (uma coisa não é possível sem a outra, garantem-me). Jamais detectei alguma coisa que me parecesse menos própria.
Antes de outra qualquer pertença, a Igreja Católica tornou-se o meu principal reduto. Nessa perspectiva eduquei os meus filhos, porque são a coisa mais importante da minha vida. Isso explica a dor imensa que sinto pelo mal que uns quantos tarados travestidos de cordeiros tenham infligido a pessoas vulneráveis, desde logo crianças. Tudo isto dificilmente me entra na cabeça, e sinto uma enorme vergonha alheia por esses energúmenos, a quem só Deus na sua infinita misericórdia terá capacidade de perdoar, se disso alguma vez se tenham arrependido e emendado. Acredito na Justiça Divina e no Inferno. Evidentemente que a cidade legitimamente exige outra.
Dito isto, não me conformo com o expectável aproveitamento que esta tragédia por estes dias permite a todos aqueles para quem a Igreja não tem qualquer significado ou dela alimentam ressentimentos insondáveis. Diga o que a Igreja disser, faça o que a Igreja fizer, por estes dias estamos reduzidos à chacota e ao descrédito, no mais despudorado desprezo pela realidade: a Igreja é incomensuravelmente maior em bondade do que os pecados de uns quantos traidores, uma diminuta minoria. Para piorar as coisas, muito por conta da sua organização horizontal e autoridade descentralizada numa rede de comunidades – uma fórmula intrinsecamente democrática (inclusiva) edificada ao longo de dois mil anos e que faz inveja ao poder político - jamais conseguirá produzir um discurso unânime, fechado. Não só porque o interlocutor de mediação, a Comunicação Social, nisso não esteja interessada, hipotecada que está na procura de escândalo – como se não bastasse um só caso de pedofilia no seu seio – que alimente as audiências ou satisfaça o secreto desejo de muitos dos seus actores da sua desautorização como ultimo baluarte do contrapoder ao niilismo materialista. Nada disto interessa à nossa imprensa que é espelho da descristianização vigente, vergada ao populismo e ditames da moda, por vocação e necessidade económica. Igreja jamais poderá capitular nesse campo: a família natural e fecunda é constituída por homem e mulher, a vida humana é sagrada da concepção até à morte natural. Aqui vem sendo surpreendente para mim o papel adoptado pelo Observador, projecto jornalístico que um dia nos pareceu reger-se por uma política editorial mais exigente e séria – que sentido fazem os comentários jocosos do Miguel Pinheiro e do Paulo Ferreira a respeito deste tema nas manhãs da rádio? O mesmo que convidarem a economista Susana Peralta a comentá-lo na rubrica da tarde “Directo ao Assunto” na mesma rádio. Uma enorme desilusão.
Mas nada disto disfarça a luta intestina que emerge do seio da Igreja Católica, provinda das suas franjas marginais, à esquerda e á direita (para usar designações simplistas), que em modo duma mal disfarçada guerra civil, se esquecem da prioridade que devia presidir as suas acções e discursos, o da salvação das almas pela unidade de todos os católicos em torno da mensagem redentora de Jesus Cristo. Compreende-se: é inevitável que toda a forma de Poder atraia lutas de poder, quer sejam vindas de fora quer sejam geradas por dentro. A Igreja tem uma longa experiência, fracturas e cicatrizes por conta desse deslumbramento mundano. Não é de surpreender que as reacções ao relatório da CI revelem o despertar ou o reeditar dessas lutas de influência sectária.
Bom seria que todos se unissem à volta do Papa Francisco, o chão comum em que devemos fincar os pés, porque as divisões internas são tão perniciosas quanto os inimigos externos. Por isso, atrevo-me a pedir encarecidamente aos protagonistas de um lado e do outro que poupem os fiéis a mais humilhações. O legado salvífico da igreja de Pedro é demasiado valioso para se conspurcar em guerras de passa culpas e acusações espúrias. A urgente purificação da Igreja não deve deixar ninguém de fora. Como nos revela esta reflexão de Adriano VI em 1523 *, ao tempo da cisão protestante:
“Nós reconhecemos livremente que Deus permitiu esta perseguição da Igreja por causa dos pecados dos homens, particularmente dos sacerdotes e prelados. A mão de Deus, de facto, não se retirou e ela pode salvar-nos. Mas o pecado separa-nos d’Ele e impede-O de salvar-nos.
Toda a Sagrada Escritura ensina-nos que os erros do povo têm a sua fonte nos erros do clero... Sabemos que, desde há muitos anos, também na Santa Sé foram cometidas muitas coisa abomináveis: tráfico de coisas sagradas e transgressões dos mandamentos em tal medida que tudo se tornou um escândalo. Não nos podemos espantar que a doença tenha descido da cabeça ao corpo, dos papas aos prelados. Todos nós, prelados e eclesiásticos, desviámo-nos do caminho da justiça. (...)
Cada um de nós deve honrar a Deus e humilhar-se perante Ele.
Cada um de nós deve examinar-se e ver em que pecado caiu.
E deve examinar-se muito mais severamente de quanto não o será por Deus no dia da Sua ira.
Consideramo-nos tanto mais comprometidos a fazê-lo porquanto o mundo inteiro tem sede de reforma”.
* Transcrição roubada ao meu querido amigo Pe. Pedro Quintela, daqui
Imagem: ruínas da Basílica Patriarcal de Dom João V depois do Terramoto
PS - A quem possa interessar, aconselho vivamente a leitura desta pequena entrevista a Felícia Cabrita, a primeira jornalista a denunciar os casos de pedofilia na Casa Pia, em 2002. Ainda há gente com coragem.
Concordo no essencial com o João Távora e destaco esta sua afirmação: "
ResponderEliminarCaro João Távora,
ResponderEliminarPermita-me, que não o conheço se não enquanto anónimo leitor (certamente um entre muitos), agradecer este e os últimos textos que vem publicando na sua confessada identidade católica, escritos com caridade, serenamente, discernindo com clareza as características do nosso tempo, com sentido crítico, e sobretudo com verdade. Com verdade do que se diz e, pressente-se, escrito por quem crê no que escreve. Boa comunicação porque verdadeira.
Ao ler textos como os seus vejo que, felizmente, há muitos que, por caminhos tão diversos, vêm formulando o mesmo tipo de interrogações
Embora assolados decerto pelas mesmas dúvidas, partilhan a mesma esperança fundamental e desejam viver no mesmo compromisso. Ler os seus textos é, portanto, um consolo numa época turbulenta como esta.
Agradeço-lhe a sua predisposição e coragem para tomar a palavra de modo tão claro, justo e desempoeirado.
Um leitor assíduo
ResponderEliminara família natural e fecunda é constituída por homem e mulher, a vida humana é sagrada da concepção até à morte natural
O João Távora parece não ver a realidade à sua volta: grande parte das famílias atualmente não é fecunda, e grande parte das mortes atualmente não é natural.
ResponderEliminarJoão Távora,
já escrevi, preto no branco, acerca das suas dificuldades em comunicar.
Neste post redime-se. Não será fácil de ler nem de seguir, mas é fácil de viver e de sentir a lealdade e a honestidade.
Abraço de longa estima
ResponderEliminarO erro dos bispos
Havia já que separar os crimes cometidos por pessoas individuais dos encobrimentos que, se sistemáticos, responsabilizam a Igreja como instituição. Isso já era complicado, pois antes de Bento XVI a lei canónica, tal como a civil, não obrigava à denúncia, deixando a cada bispo a decisão de denunciar ou não.
A Conferência Episcopal, é com tristeza que o digo, veio complicar o que já o era. Mandatou uma Comissão Independente sem balizar o seu desempenho. Percebeu-se agora que a CI apresentou um relatório de abusos e uma lista de nomes, sem ligação directa entre uma e outra, sem sequer identificar, da lista, os que estavam falecidos, os que por outros motivos já não exerciam ou os que já estavam processados canónica e/ou civilmente.
É opinião pessoal, mas a trapalhada era expectável de uma comissão em que avultam Laborinho Lúcio e Daniel Sampaio. Basta ouvir as declarações, complicadas do primeiro, dúbias e até contraditórias do segundo, sem ninguém da comissão a explicar este facto simples: porque é que, no relatório, em cada abuso relatado não foi referido o nome do presumível abusador.
Depois, se o relatório era uma encomenda da Conferência, seria expectável que fosse entregue a quem o encomendou e que até poderia pedir esclarecimentos adicionais antes da divulgação pública. Mas, ao invés, tivemos um espectáculo mediático na Gulbenkian que só me fez lembrar o juiz Ivo Rosa a ler por mais de duas horas em frente às câmaras uma sentença, depois reconhecida com de erros e fragilidades.
Mais uma vez, isto é opinião, mas foi o que seria expectável de Pedro Strecht que, em anteriores ocasiões, já mostrara grande apetência pela notoriedade mediática.
Erraram os senhores bispos. Pouco assisados e nada prudentes na constituição da CI e contraditórios no método. Se, como parece ser a orgânica eclesial, a jurisdição é de cada diocese, não faz sentido uma CI nacional para depois virem dizer que os processos seguiriam nas dioceses, provocando a reacção mediática que se seguiu e a disparatada classificação em bispos bons e bispos maus.
E, o pior de tudo, é que não vejo, não vejo mesmo em que é que este circo ruidoso mas pindérico, beneficiou as vítimas, a principal preocupação.
Publicado (editado e sem título) na caixa de comentários do Observador.
Os abusos na Igreja não dizem muito, abusadores há em todo o lado, os padres não são homens (ou Homens) diferentes dos outros. O que cansa é a protecção aos abusadores.
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