quinta-feira, 2 de março de 2023

Da violência verbal

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Há já algum tempo que somos confrontados com notícias do cancelamento ou reedição de livros com termos que possam ferir susceptibilidades dos leitores incautos. Hoje no programa Contra-Corrente da Rádio Observador era esse o tema: soubemos que, para além de duas BDs do Tio Patinhas censuradas pela Disney por conta da “diversidade e inclusão”, as aventuras de 007 de Ian Fleming irão ser reeditadas para se eliminarem termos ofensivos, assim como se prepara uma nova edição da obra de literatura juvenil Roald Dahl (autor da "Fantástica Fábrica de Chocolate"), devidamente censurada de acordo com os cânones do politicamente correcto e não ofender os leitores sensíveis. Já nada nos deveria chocar.


Que o mundo em que vivemos neste lado do planeta cada vez mais se parece com um manicómio, não será novidade para ninguém, mas mesmo cansados de tanto espanto talvez continue a valer a pena espantarmo-nos. Por exemplo: já repararam como aquela moda dos filmes negros norte-americanos com diálogos cheios de vernáculo de teor sexual, ao pior estilo das prisões penitenciárias, extravasou as fronteiras e se vem alargando ao cinema e televisão mainstream? No meio desta onda puritana com tanta gente tão sensível e ninguém reclama das séries e filmes onde por estes dias a linguagem falada está ao nível mais rasteiro e agressivo, seja pela boca dum príncipe ou duma meretriz? Obviamente nada tenho contra o calão e também nada me chocam os mais duros palavrões, desde que no devido contexto - possuem propriedades libertadoras quando usados com parcimónia. Ora, as palavras têm significados; por mais que se vulgarizem os palavrões, eles possuem um significado, expressam uma acção, com um potencial de chamar a atenção pelo “escândalo”. Se essa terminologia, tremendamente agressiva for usada com insistência, o seu efeito semântico perde-se, a não ser que o fim pretendido seja a expressão de uma identidade grupal – “eu falo assim porque é assim que se fala no meu grupo, com quem eu me identifico e onde eu pertenço”. Será isso que acontece com os grupos de jovens adolescentes ou em certos meios portuenses: estou convencido que muitos tripeiros recorrem àquela terminologia sem lhe atribuir qualquer significado. No entanto convém não esquecer que as palavras comportam significados e que servem para nos entendermos uns aos outros, para o bem e para o mal. Gritar uma blasfémia quando espetamos o dedo pequeno do pé na ombreira da porta é a legítima expressão de um compreensível estado de espírito. Ora, se se repetir recorrentemente a blasfémia, que expressão se irá usar numa situação de choque ou de dor?


Preocupa-me que a agenda puritana e literalista de controlo da linguagem tenha origem nos mesmos que pretendem normalizar a obscenidade e o vernáculo. É um caminho de empobrecimento, um retrocesso ao mais básico da humanidade, onde deixa de ter importância o bem ou o mal, muito menos o feio e o belo, ou a complexidade trágica da humanidade. Ficam só sentimentos voláteis e sensações de circunstância.


Ao eliminar-se a sofisticação e a classe chegaremos finalmente à almejada sociedade sem classes. Deve ser isso.

13 comentários:

  1. Porque é que acha que as civilizações colapsam, começam por estas MERDAS.

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  2. Os EUA estão a viver uma verdadeira guerra civil. A censura nas universidades, a agenda woke, a teoria critica da raça aplicada a tudo e todos, a igualdade de género e o movimento trans , a loucura da transição de género com uma industria voraz de mutilação genital etc. Querem destruir e estão a conseguir dividir as pessoas em função da raça,  do género,  da opinião política....e esta loucura começa agora a chegar à Europa.

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  3.  Por mais impopulares  que  possam soar estas minhas palavras, creio  firmemente que também é disto ( e tudo o que "isto" implica em termos civilizacionais de matriz ocidental ) que se trata na "Guerra da Ucrânia"  .
    JSP

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  4. Exactamente, caro leitor! De notar que a cultura do cancelamento nos meios académicos e literários dos EUA chega a tal refinamento (leia-se, estupidez) em que uma escritora com pele branca, que escreveu um livro s/a escravatura nos EUA, em que personificava a figura de uma mulher negra escravizada nos campos de algodão, foi repudiada e praticamente cancelada na sua vida académica porque, adivinhe, ... tinha  um papel incoerente c/a sua pele! A senhora, certamente na sua boa fé, a denunciar um facto histórico deplorável, acabou por se demitir da universidade onde leccionava. É nisto que se transformou o país que pretende dar lições ao mundo s/democracia.

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  5. Essa "moda" terá chegado a Portugal (que recebe tudo com atraso, mesmo na era digital) mas já é norma nos USA e em alguns países anglófonos, como Canadá, Austrália e UK.

    A BBC por exemplo, cancelou (literalmente) há uns anos um episódio da série IT Crowd pelo facto de ser transfóbica. Hollywood é o que sabe, há anos e anos, com a sua check-list do PC (não confundir com o nosso PC), sendo que uma das correntes é o remake de clássicos com alterações à história, em termos de argumento e género e raça dos personagens.
    Entretanto os latinos já não são latinos, mas sim latinx, tal como os gordos não o são, embora não haja nada de errado com isso, são saudáveis como qualquer outro indivíduo.
    Aqui pelo rectângulo a malta foi olhando para o fenónemo entre o ignorar (afinal, não é nada a ver connosco) e o apoiar (os tais progressistas de esquerda), mas quando a pimenta chegou à língua do luso, ficou tudo lixado. Foi a Keyla a exigir trans-equidade, já se ouvem zunzuns de "editar" o Eça, e como se sabe, a classe intelectual portuguesa ADORA progresso, mas desde que não lhes toque. Daí já andarem os Nogueiras, tantas vezes defensores dos direitos e garantias dos não-privilegiados, em acções proactivas de defesa da liberdade de expressão.
    Estes grupos são perfeitos puritanos, na linha dos maluquinhos evangélicos dos anos 80 lá pelas Américas que queriam eliminar da TV e cinema tudo o que fosse depravado; só que em vez de cancelarem o F*** e o uso de drogas e sexo, cancelam o gordo e palavras e acções que "ferem os sentimentos". Ganharam espaço não porque sejam muitos, mas porque fazem barulho e a maioria, a verdadeira, preferiu ignorar e deixá-los berrar quais crianças birrentas até conseguirem o que querem. Não passam de um grupinho de privilegiados, que se passam por oprimidos, e cujo objectivo é criar um exército de imbecis.

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  6. Entendo o que quer dizer (só falta um nome a identificar seu coment) pois afinal a guerra é terrivel e os russos serão dos mais bárbaros a fazê-la, logo a maioria que vê todos os dias os telejornais não deixa de apoiar o dito Ocidente em tudo o que diga (por meio de seus representantes) mesmo que do outro lado (no caso Putin ou outros russos) se digam algumas verdades. Sim, porque até o maior criminoso pode dizer verdades, já que não estamos num mundo a preto e branco. Estou a ver bem o filme? 

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  7. «sociedade sem classes». Nem mesmo a 3a classe.

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  8. O fundamental está na chegada das mulheres às decisões. O mundo muda, as ideias marcam.........

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  9. Assino por baixo o post de JoãoTávora, assim como o seu comentário.
    Como começou a queda do Império Romano? 
    E depois ainda há outra coisa que me tem custado imenso a aceitar, mas tenho de admitir _com muita pena minha_ que há coisas em que Putin não deixa de ter razão em relação ao declínio de "costumes" do Ocidente.

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  10. Se gostas do Putin porque não emigras para a Rússia? Filho da Putin, não fazes cá falta.

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  11. O Marquês de Pombal cancelou os Távoras.

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  12. Há casos extremos em que é justificável o grande palavão que se esconde no título : - acerca da conferência de imprensa dos bispos, sobre irem analisar as análises que lhes foram apresentadas pelas "Nossas Respeitáveis Autoridades"...

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  13. O autor deste post está a referir-se (se li  bem) a uma nova edição de uma obra de literatura, portanto as palavras em questão têm de ser lidas nesse contexto. 

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