sábado, 4 de março de 2023

A Montis

Neste dia 23 de Março a Montis, uma associação de conservação de que sou um dos fundadores, fará oficialmente nove anos.


Como todos os agrupamentos de mais de uma pessoa (e mesmo sendo só um Pessoa), tem tido encontros e desencontros entre as pessoas que se vão cruzando na associação, mas tem cumprido o seu papel.


Nestes nove anos vai na quarta direcção (ou seja, os prazos estatutários são cumpridos), vai no terceiro presidente (nas duas primeiras fui eu, depois o Pedro Oliveira e actualmente Teresa Gamito), cumprindo as normas estatutárias que impedem a exercício de mais de dois mandados consecutivos no mesmo orgão social (o Pedro Oliveira fazia parte da segunda direcção da associação).


Desde o princípio que algumas coisas ficaram muito bem definidas - sem prejuízo de se saber que as associações são como as guerras, sabe-se como começam, não se sabe como acabam - entre elas a necessidade de ser uma associação de sócios e para os sócios, o que implica confiança e consequentemente transparência, a necessidade de focar a sua acção na gestão concreta de património natural, em detrimento de intervenção nas políticas, a necessidade de valorizar economicamente a biodiversidade (o que manifestamente tem sido o mais difícil) e a necessidade de garantir a independência financeira que assegura a independência.


Nove anos depois estou muito contente com os resultados até agora.


Pretendíamos em dez anos ter 750 sócios, para garantir 15 mil euros de quotas (na altura as quotas eram vinte euros anuais, hoje são 25, ainda assim dos mais bem aplicados 25 euros de entre os milhares que gasto todos os anos), por forma a pagar um secretariado mínimo que permitisse manter uma preocupação central que os estatutos também acolhem: nenhum membro eleito dos orgãos sociais pode ser, ao mesmo tempo, funcionário da associação. Em rigor, não pode receber dinheiro da associação que não seja ressarcimento de despesas efectivamente incorridas e pequenos pagamentos que anualmente não ultrapassem três ordenados mínimos (acho eu, não fui verificar os estatutos, é o limite que tenho de memória) que têm de ser reportados formalmente à Assembleia Geral.


Estamos longe, depois de um período de rápido crescimento dos sócios, estamos estagnados por volta dos 400, com muitas entradas e saídas (as saídas de sócios que não pagam as quotas são praticamente automáticas, portanto não temos extensas listas de sócios que não pagam quotas, como é habitual nas associações em Portugal), e este é, a par com as acções de valorização económica da biodiversidade, o maior falhanço destes nove anos, na minha opinião.


Quanto ao resto dos indicadores, estamos muito para lá do que pensámos inicialmente.


Gerimos por volta de 300 hectares de terras marginais, dos quais uns 16 ha são propriedade da Montis e os outros têm acordos de longo prazo, temos um orçamento anual bastante superior aos tais 15 mil euros (neste momento não sei bem qual é a dimensão do orçamento, mas é seguramente umas três vezes superior, diria eu sem olhar para os números que serão apresentados na próxima Assembleia Geral), temos dois funcionários e meio (já foram mais, quando gerimos um projecto maior, mas a associação não se financia primordialmente em projectos, seria relativamente simples, mas tem implicações negativas na orientação da associação, por a obrigar a executar o que os financiadores dos projectos querem, e não tanto o que os sócios querem) e, apesar da nossa má comunicação, conseguimos ir sendo vistos e reconhecidos.


E demonstrámos, entretanto, que o crowdsourcing, como agora se diz (que inclui o crowdfunding, o voluntariado e outros mecanismos de participação das pessoas comuns na vida das organizações) é viável em Portugal, e tem um enorme potencial, que o fogo e os pastoreio são instrumentos de gestão da biodiversidade viáveis, que a regeneração dos solos (neste caso, há um grande número de organizações que partem deste princípio, há anos, embora com opções diferentes na forma de lá chegar) é o fundamento da recuperação dos sistemas naturais e acho que contribuímos para que se olhasse para a gestão dos territórios marginais e abandonados com outros olhos.


Finalmente temos este ano a possibilidade de receber 0,5% do IRS de quem o queira indicar na sua declaração do IRS e estamos numa fase de consolidação, depois dos dois primeiros mandatos sempre a acelerar o crescimento, criando desequilíbrios relevantes que felizmente foram bem geridos pela direcção anterior, que entregou uma associação com as contas muito mais serenas que aquela que eu próprio deixei ao presidente seguinte.


O que verdadeiramente me deixa satisfeito é que conseguimos, até agora, ser uma associação dos sócios e pouco dependente do Estado, seja dos financiamentos do Estado central, seja do apoio das autarquias locais, que existem, felizmente, mas de forma equilibrada e sem pôr em causa a independência das opções de gestão que vão sendo feitas.


É pouco, eu sei, este deveria ser o padrão das organizações da sociedade civil, mas não o é, em Portugal, em que quase tudo gira à volta do Estado e dos seus meandros de decisão.


Provavelmente, para mim, esta associação é das coisas mais bem conseguidas em que estive envolvido na minha vida de gestor de património natural, que é o que realmente tem sido a minha vida profissional.


Não deixa de ser irónico que a coisa que mais satisfação profissional me dá tenha sido toda desenvolvida voluntariamente.

3 comentários:

  1. Devo dizer que entreguei à Montis uma propriedade (embora muito pequena) para ela gerir e observo, com muita satisfação, que essa propriedade se encontra em muito bom estado, no qual eu jamais teria conseguido pô-la.

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  2. Fico muito satisfeito com este comentário e estou particularmente à vontade em relação ao assunto porque nunca fui à propriedade em causa (a sua entrega já coincidiu com um período em que é mais raro ter disponibilidade para a ir para o campo), ou seja, não tenho responsabilidade nem influência nenhuma no que está lá a ser feito.

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  3. Eu sei que o Henrique não tem responsabilidade.
    Mas, quando tiver oportunidade, diga a quem de direito que eu visitei a propriedade em fevereiro e o que vi foi, a propriedade está muito limpa (tem muitas folhas no chão, mas não tem acácias nem silvas nem mato) e as árvores têm um aspeto muito bem podado.

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