terça-feira, 5 de julho de 2022

Se

O título do post não é nenhuma homenagem do Rudyard Kipling, é mesmo para deixar muito, muito claro, que vou falar de cenários que não podem ser levados demasiado a sério para lá de três dias (quando começou a conversa dos cenários de evolução da covid, eu terei escrito que modelos matemáticos era coisa em que eu não confiava para tomar decisões com elevados impactos e dificeis reversões, uma das minhas irmãs, que tem uma visão diametralmente oposta da minha em relação à covid, argumentou que eu confiava em modelos, o que não gostava era daqueles que contrariavam o que eu penso, mas a minha radical desconfiança de previsões meteorológicas a mais de três dias demonstra que essa alegação não tem muita base factual).


A verificarem-se os cenários meteorológicos que circulam por aí para o mês de Julho - insisto, previsões meteorológicas a mais de três dias devem ser lidas com muita cautela - a partir do dia 8 de Julho, mas mais consistentemente, a partir de 10 de Julho, há partes do país que ficarão em elevadíssimo risco de incêndio, quer porque há dias de vento Leste forte e seco - esqueçam as temperaturas, o que verdadeiramente nos deve preocupar nos fogos é a secura e a velocidade do vento -, quer porque há muita disponibilidade de combustível com elevada secura induzida atmosfericamente (pelo rigor percebe-se que estou a citar quem sabe do assunto, Paulo Fernandes, a quem informalmente pedi para me confirmar, ou não, a plausibilidade dos cenários conhecidos).


Noutras partes do país, em especial no Noroeste, talvez não seja tanto assim, quer por causa das condições meteorológicas, quer, repare-se na elegância da expressão usada por Paulo Fernandes, por causa da memória de chuva recente nos combustíveis (o Paulo só comentou cenários até ao dia 12, considera que tudo o que sejam cenários meteorológicos a mais que isto não vale o esforço de interpretação, se bem percebi).


A verificarem-se esses cenários, a existência de fogos complicados - quão complicados é mais difícil de saber - é praticamente uma certeza, a multiplicação de ignições também (não porque haja mais ignições, mas porque as condições de desenvolvimento das que existam favore a sua detecção e registo pelo sistema) e o lero-lero jornalístico e de responsáveis sobre qualquer coisa imponderável (os incendiários, as mudanças bruscas de vento, os acessos dificeis, a dispersão das construções, enfim, toda a gente sabe o jargão que se usa nos teatros de operações para justificar a projecção das forças de bombeiros e afins) será tão inevitável como os incêndios.


Eu só queria deixar aqui claro, agora, correndo o risco de me cobrir de ridículo se nada destas previsões meteorológicas se verificar, três coisas:


1) o fogo é uma inevitabilidade, e um filho do seu contexto, por ser um processo ecológico endógeno, fundamental para a evolução dos sistemas naturais;


2) gerir o fogo é gerir o seu contexto, o que no nosso caso significa gerir os combustíveis finos, o que no nosso caso (eu sei que me estou a repetir) significa encontrar meios para pagar a gestão necessária e que o mercado não remunera convenientemente;


3) pelo menos desde os fogos de 2003 (mais, até, desde 2005, entre 2003 e 2005 o que se verificou foi um braço de ferro entre protecção civil e gestão florestal, que a protecção civil ganhou por KO) que os responsáveis políticos responsabilizam os proprietários por não quererem gastar mais dinheiro na gestão que o que conseguem receber em resultado dessa gestão, e o que quer que venha a suceder tem, na origem das responsabilidades políticas e sociais que se queiram discutir, essa barbaridade.

14 comentários:

  1. Pois, e em certas partes do país não sei se vai haver água suficiente para apagar as chamas.

    ResponderEliminar

  2. uma das minhas irmãs [...] tem uma visão diametralmente oposta da minha em relação à covid


    Tem-me parecido notar que, em média, as mulheres são muito mais conservadoras em relação à covid do que os homens.


    Ainda recentemente estive numa conferência em que as pessoas que usavam máscara (que não era obrigatória) eram quase todas mulheres.

    ResponderEliminar
  3. Não te preocupes com isso: os fogos florestais não se gerem com água.

    ResponderEliminar

  4. os fogos florestais não se gerem com água


    Como assim?! Em Portugal (noutros países talvez não, mas aqui falo de Portugal), a forma de gerir os fogos florestais é tentar o mais possível apagá-los, e a forma como se tenta fazer isso é quase sempre atirando água para cima deles.


    O meu receio é que não haja suficiente água para atirar. Ou então que haja, mas que no fim de apagar os fogos já não reste água para bebermos.

    ResponderEliminar
  5. Tu és de física, portanto faz umas continhas sobre a energia irradiada numa frente de fogo e vê o que acontece à água que lhe atiras para cima.

    ResponderEliminar

  6. Aí está. O de Leça em troca de palavras com Pereira dos Santos; ambos se conhecem bem. Mais frase, menos frase, o diagnóstico faz-se.
    De modo reles, o gajo do Delito de Opinião teve, anos a fio, uma rubrica chamada a Lavourada da Semana. Nunca a apreciei mas o de Leça merecia-a.
    Cumprimento o Pereira dos Santos.

    ResponderEliminar
  7. "O fogo é um bom criado e um mau amo"; falta tanto para percebermos esta frase...

    ResponderEliminar

  8. "Os fogos não se apagam, gerem-se"
    J. Socrates, Phd student



    "A culpa dos fogos florestais é do Governo da Troika e da Direita Neoliberal"
    Anonimo patriota de esquerda


    "Desconheço a velocidade de propagação do fogo, falem com o motorista do carro dos bombeiros"
    Ed Cabrita, em busca de oportunidade de trabalho

    ResponderEliminar
  9. Por acaso é algo que gostava de ver provada era a eficiência da água dos helicópteros num incendio.

    ResponderEliminar

  10. A fiabilidade das previsões meteorológicas decai exponencialmente com o tempo e tende assimptoticamente para zero. 
     
    Muito resumidamente e sem pretensão de grande rigor, as previsões meteorológicas são actualmente produzidas através 


    Para a resolução numérica do sistema, o domínio contínuo, neste caso a atmosfera, tem que ser discretizado usando-


    Partindo de condições iniciais reais e supostamente correctas no instante t0, o cálculo numérico promove a 




    PS -  Os modelos epidemiológicos, constituídos por um sistema de equações diferenciais ordinárias (cerca de 4 

    https://www.windy.com/. No que se refere a modelos epidemiológicos, onde tudo são conjecturas, nem vale a pena acrescentar mais nada.

    ResponderEliminar
  11. Sendo tudo isso verdade, e por isso referi no post a elevada incerteza sobre as previsões de que ia falar, há, apesar de tudo, alguma informação adicional quando todos os modelos tendem para previsões semelhantes.
    Há incerteza, claro, mas não é o mesmo que eu olhar para o Céu e achar que amanhã vai estar calor.

    ResponderEliminar
  12. estudei matemáticas dita superiores. nunca levei a sério previsões.
    a culpa é sempre do porteiro, nunca do politiqueiros que se vejo, não ouço.
    no início dos anos 50 pertenci em Coimbra a duas claques com dificuldade em compreender o que nos impingiam : 'ceguinhos' e 'vai faltar a água'

    ResponderEliminar
  13. No que toca ao Covid, ainda bem que se ficou pela visão, se tivesse algum poder decisão ... a população portuguesa estaria reduzida a metade ... e claro riquissima porque enquanto alguns interrompiam a normalidade da vida, nós teriamos continuado como se nada houvesse.

    ResponderEliminar
  14. (https://observador.pt/2022/07/11/em-semana-de-risco-maximo-costa-faz-paralelismo-com-a-pandemia-e-avisa-nao-ha-incendios-se-a-maozinha-humana-nao-provocar/?utm_term=Autofeed&utm_medium=Social&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR0saXrGPf4r_gk25FlWNLkUVHyr3Qq8XDgHWkGFgL4e2ttRRqCWoHiZ5TM#Echobox=1657544009)

    ResponderEliminar

A responsabilidade política de Fernando Alexandre

 Houve quem visse na minha recusa total da ideia infantil que Fernando Alexandre optou pela sua ambição contra o interesse dos alunos uma te...