segunda-feira, 11 de julho de 2022

Da responsabilidade

“Quando a pandemia nos atingiu todos sabíamos que podíamos contar com o melhor dos profissionais de saúde. Mas sabíamos que a primeira forma de evitar era a máscara, o distanciamento, para nos protegermos. Aqui é a mesma coisa”


Por uma vez, estou de acordo com António Costa: "aqui é a mesma coisa".


Só não estou de acordo com a parte que antecede o "aqui é a mesma coisa" porque há um diferença substancial sobre a gestão de uma epidemia e a gestão do fogo: nós podemos gerir o contexto do fogo, ao contrário do que acontece em relação ao contexto de uma epidemia.


Embora quer uma epidemia, quer o fogo, sejam filhos dos seus contextos, embora uma epidemia e o fogo dependam de acontecimentos pontuais (pontuais no sentido de ocorrerem em tempo e espaço muito limitados, não no sentido da sua frequência, que é enorme) a que num caso chamamos contágio e no outro ignição, a epidemia tem o seu contexto nas características das populações que afecta e dos agentes patogénicos que lhe estão na base, potenciados pela meteorologia, e o fogo tem o seu contexto na quantidade e estrutura dos combustíveis finos que existem no território, também potenciado pela meteorologia.


A nossa capacidade para alterar o contexto de uma epidemia é muito limitada, mas a nossa capacidade para alterar o contexto do fogo é bastante grande, difícil e cara, mas grande.


António Costa já fez a sua opção: como na pandemia correu bem a estratégia de disparar para todo o lado quando estava entalado, para demonstrar que se fez tudo o que era possível, e quando corria mal responsabilizavam-se os malandros que não cumpriam regras e faziam coisas horriveis como celebrar o Natal, o melhor é adoptar o mesmo procedimento neste caso.


Já ninguém tem a menor preocupação com a defesa da floresta contra os incêndios, já toda a gente está alinhada com a estratégia da defesa contra os incêndios da floresta, e António Costa pode agora dedicar-se à defesa da sua reputação política contra eventuais problemas causados pelo fogo.


Não é natural que seja este ano que aconteça um novo Pedrogão porque há muita área ardida recentemente, e são precisos 12 a 15 anos para que o risco esteja perto do máximo, mas se por acaso acontecer, António Costa já tem a resposta engatilhada: as pessoas foram irresponsáveis e não seguiram as indicações das autoridades.


"Portugal sem fogos depende de todos", uma ideia criminosa que parecia ter passado à história, está de regresso com toda a força para disfarçar cinco anos de tretas na gestão do contexto do fogo: atrasos no fogo de gestão, arrastar de pés no pagamento de serviços de ecossistema, matrioscas de planos para disfarçar inoperância na gestão de combustíveis, faixas de gestão de combustíveis a que ninguém liga nenhuma, por se reconhecerem inúteis, e milhões, milhões, deitados sobre um problema, com o resultado classico dessa opção: quando se deita dinheiro para cima de um problema, uma das coisas desaparece, mas raramente é o problema.


O que, infelizmente, vai reforçar a hipótese de uma tragédia por volta de 2030.

10 comentários:


  1. "Portugal sem fogos depende de todos" está de regresso com toda a força


    Sim, porque estamos no verão. Nesta altura do ano (verão) não vale a pena estarmos a discutir se fizemos muito ou pouco, durante o inverno, em termos de gestão de combustíveis. Nesta altura do ano só nos resta pedir às pessoas para não fazerem (voluntária ou involuntariamente) fogo.

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  2. Não é natural que seja este ano que aconteça um novo Pedrogão


    É curioso que se fale tanto de Pedrógão Grande e tão pouco dos fogos que varreram todo o centro do país a 14 de outubro de 2017, causando quase tantos mortos como o fogo de Pedrógão Grande.
    Especialmente chocantes porque a população já tinha conhecimento dos mortos de Pedrógão Grande, que tinham ocorrido três meses antes, e portanto já estava avisada, e apesar disso não se precaveu. Especialmente chocantes porque, enquanto o fogo de Pedrógão Grande foi causado por uma ignição natural (trovoada seca), os fogos de outubro foram em grande número postos por mão humana. Especialmente chocantes porque, enquanto em Pedrógão Grande as pessoas se meteram nos carros, em pânico, para tentar fugir ao fogo, em outrubro as pessoas continuaram a andar calmamente nos seus carros apesar de já saberem, pelas notícias, que havia fogos terríveis por todo o lado.

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  3. É isso, já estão identificados os "culpados" e a carneirada já assimilou o discurso oficial. 

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  4. Falou muito bem, ontem, na TV, Sr. Arquiteto!

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  5. Depois existem os pirómanos e descuidados neoliberais de direita.
    Dr. Costa e o Governo fazem o que é humanamente possível,  e têm obra para apresentar.


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  6. É bom lembrar que há zonas que não ardem a sério desde 2003 (Beira Baixa, Alto Alentejo), 2004 (serra do Caldeirão) ou 2005 e essas áreas já podem estar "maduras".

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  7. Henrique Pereira dos Santos,
    Aprecio as suas lutas. Aqui [C-F] e não só. Compreendendo-o [por vezes com algumas dificuldades] e concordando sem esforço — desde que a compreensão vença.

    Eu,
    ►  após uns 29.000 dias e estando a meio do octogésimo ano de vida,
    ►  sou profundamente crente na estupidez humana,
    ►  sou profundamente crente na laia [tipo, género, espécie] reles desta malta que é minha conterrânea.

    Meu Pai ensinou-me a distinguir "o trigo do joio" na busca permanente da Verdade. Para mim, Henrique Pereira dos Santos, a sua eira está joeirada — está limpa.


    Concordo com [e elogio] toda a transmissão [nestes anos] de tudo aquilo que sabe.





    Cumprimenta, com estima

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  8. Sim, mas, de maneira geral, são áreas com paisagens mais fragmentadas. Mas é possível, sim

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  9. Não é bem assim, o incêndio de Nisa em 2003 queimou cerca de 40 mil hectares, salvo erro, sendo um dos maiores em área de que há registo, e aquele concelho tem vastas extensões florestais e de mato. O do Caldeirão de 2004 também foi enorme e a paisagem ali também é muito pouco fragmentada.

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  10. Sim, Gonçalo, 40 mil hectares é um quinto de 200 mil hectares.
    Daí eu dizer que a probabilidade de repetir o que aconteceu em 2017 ser pequena (é possível, mas é pequena).

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