terça-feira, 12 de julho de 2022

Falta representação política à Liberdade

O festival do Meco, ou a concentração motard de Faro são os exemplos mais visíveis, mas são apenas dois problemas de entre os milhares que foram criados com a proibição de circulação em espaços florestais.


Não me interpretem mal: eu não desvalorizo a necessidade de lidar de forma muito, muito prudente com os próximos dias, do ponto de vista do risco meteorológico, se queremos evitar tragédias humanas.


Não vou retomar aqui a minha argumentação de que o comportamento mais negligente de todos tem sido o dos vários governos que têm tratado do problema da gestão dos combustíveis finos em Portugal, que o mesmo é dizer, o problema da falta de gestão adequada de quase dois terços do território português, de uma forma inconcebível.


O que me interessa discutir é a forma como uma restrição a uma liberdade constitucionalmente garantida - a liberdade de circulação - é restringida por decisões administrativas cuja fundamentação é, no mínimo, obscura.


O argumento do governo, que é sério e deve ser levado a sério, é o de que a única coisa que pode influenciar a diminuição do risco de uma tragédia humana resultante de incêndios é a diminuição das ignições.


O fundamento para esta argumentação é o de que havendo condições de muito elevado risco de incêndio nos próximos dias, o que é verdade, e sendo o combate largamente ineficaz para influenciar a evolução de um fogo declarado nas condições extremas que se vão verificar, o que também é verdade, quanto mais incêndios houver mais dispersão de meios haverá, o que é verdade e, consequentemente, menor será a capacidade do sistema de protecção civil salvar vidas através da identificação antecipada do risco futuro (o que pode ser feito a partir do momento em que se sabe o ponto de ignição, se conhece o terreno e as condições meteorológicas, permintindo prever de que forma o fogo vai evoluir, identificando o que está na sua rota de progressão, com algumas horas de antecedência) e através da organização de operações estruturadas de evacuação.


Logo, a lógica é diminuir, por todos os meios, incluindo os coercivos, a possibilidade de ignições, restringindo a actividade humana (estão previstas trovoadas aqui e ali, que podem dar origem a ignições naturais, mas a esmagadora maioria das ignições resultam da actividade humana).


Note-se o paralelismo com os confinamentos: fica tudo em casa para proteger os serviços de saúde, está tudo proibido de frequentar espaços florestais para proteger a eficácia dos serviços de protecção civil.


Note-se que em qualquer dos dois casos existem relações de Pareto entre contágio e necessidade de cuidados de saúde, num caso, e ignições e dimensão dos problemas causados pelo fogo, mas não quero discutir as implicações disto, apenas referir que a fundamentação técnica para os raciocínios anteriores está longe de estar estabelecida.


No dois casos, a generalidade das pessoas aceitam restrições às liberdades individuais por, no outro prato da balança, estarem mortes potenciais que são bastante plausíveis, ou seja, estamos perante o clássico dilema da opção entre segurança e liberdade.


Ainda assim, para dar força legal aos confinamentos, foi preciso declarar o Estado de Emergência, agora o Estado já assume que tem legitimidade para restringir direitos constitucionais através de decisões administrativas, mesmo sem declaração do Estado de Emergência, resultando em milhares de restrições para terceiros, sem que o Estado equacione, sequer, indemnizar os organizadores do festival do Meco ou da concentração Motard. Ou das comemorações dos 80 anos de arquitectura paisagista, para dar um exemplo menos mediático.


E, no entanto, seria possível organizar quer uma concentração motard, quer um festival, dando garantias de ter em atenção a circunstância meteorológica excepcional.


Mais, seria possível transformar essas realizações em imensas acções de sensibilização para comportamentos responsáveis em relação ao fogo, para o papel ecológico que o fogo desempenha e para a sua relação com a gestão do mundo rural e dos combustíveis finos, contribuindo para uma maior consciência social dos efeitos do abandono da gestão das terras marginais.


Só que não existe representação política da Liberdade com força e consistência suficiente para se tornar socialmente relevante a discussão sobre a forma como o Estado acha normal impôr administrativamente limitações a direitos fundamentais dos indivíduos, tendo como objectivo proteger a sua acção dos efeitos de opções incompetentes tomadas anteriormente.


O amor pela liberdade é tão escasso em Portugal que não admira que seja tão fácil substituir a gestão das dificuldades de conciliação da segurança e da liberdade, pela limitação administrativa das liberdades individuais.

22 comentários:


  1. Parece-me um bocado abusivo confundir a liberdade de circulação com a promoção de festas.
    As pessoas são livres de circular (pelo menos a pé ou de bicicleta) pelos espaços florestais. Aquilo que se proíbe não é a circulação das pessoas, é a organização de eventos que promovem a deslocação maciça de pessoas - geralmente de automóvel ou mota - para esses espaços.
    As pessoas permanecem livres de se deslocar em pequenos grupos para a praia do Meco ou (a pé) para as florestas circundantes, e de lá tocarem umas guitarradas.
    Não tem nada a ver com os confinamentos, em que se proibia liminarmente as pessoas de estar ou até mesmo de circular em certos locais.
    Uma coisa é proibir as pessoas de estar na praia a apanhar sol, como se fez durante os confinamentos, outra muito diferente é proibir uma empresa de promover um evento que leva milhares de pessoas a essa praia.
    Aliás, certamente que estes eventos estão sujeitos a licenciamento, não podem ser promovidos por uma qualquer entidade onde quer que seja e seja em que altura fôr. Ao contrário da liberdade de circulação, a qual não está sujeita a licenciamento.
    Parece-me potanto que este post leva os argumentos um bocado ao limite.

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  2. É verdade. Eu não sabia, mas de facto o governo proibiu a circulação pelos espaços florestais. (Embora eu duvide que essa proibição possa ser efetiva, pois que a maior parte dos espaços florestais não está vigiada por polícias.)
    Acho muito bem que o Henrique vitupere essa proibição. Mas não a misture com a proibição dos festivais no Meco e em Faro, que dela evidentemente decorre. Uma coisa são liberdades gerais que os cidadãos têm, como a liberdade de circulação, outra coisa muito diferente é a organização de eventos que estão sujeitos a licenciamento.

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  3. Não fui eu que misturei, o governo não tomou nenhuma decisão sobre estes festivais, limitou-se a dizer que a circulação em espaços florestais estava proibida.

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  4. Este Governo não proíbe, que isso de proibir é coisa de fascista. Passos Coelho proibia. Por exemplo, proibia os jovens de ficarem em Portugal.
    O Governo PS elabora medidas restritivas, mas nunca dos direitos e garantias, que visam proteger a população e promover o bem-estar e desenvolvimento.

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  5. Pois, aquando do lvantamento da obrigação da máscara em abril em espaços, o governos foi muito criticado por recomendar responsabilidade e aconselhar o seu uso sempre que houvesse muitaspessoas juntas em espaços fechados.
    O resultado do seguimento das inteligências criticas em nome da liberdade e consequente alheamento das responsabilidade, foi termos passado para o topo do mundo em termos de casos e de mortes. Mas que importa isso, o essencial é não haver restrições, mais vale livre e morto do que vivo e restringido.
    Aliás, foi mais um episodio de quem desde o inicio da pandemia sempre achou todas as restrinções inadequadas. Claro que houve algumas que não se compreenderam ... mas será que ainda não aprenderam nada?

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  6. As regras de utilização de máscara mantiveram-se depois e os números desceram.
    Ou seja, não há relação nenhuma entre uma coisa e outra (quando tivemos o pico mais grave de todos, as máscaras eram estritamente obrigatórias em quase todo o lado).

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  7. O "Anónimo" é um patusco: fala como se estivéssemos sózinhos no mundo ou como se todos os outros países que fizeram exactamente o mesmo não entrassem na equação.


    O que há para aprender é que qualquer "Anónimo" com a reforma assegurada (acha ele...) e sem filhos que precisam de ganhar a vida e netos que têm todo o direito em a querer gozar só vive para não viver...

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  8. Conversa de café ouvida entre dois indivíduos desconhecidos na mesa ao lado.


    - Em política não há coincidências, já dizia FDR. O que é que convém aos  incendiários? Que não haja ninguém a passear-se pelas matas... Lógico. Assim ninguém os topa!
    - Não tinha pensado nisso...
    - Pois, lá está. Este novo Estado de Contingência tem vários objectivos que não têm nada a ver com a prevenção dos fogos, muito pelo 

    1) permitir a livre actuação dos incendiários, sem que haja testemunhas; 


    2) porque os incendiários podem agir à vontade e vai haver incêndios, pôr a máquina de combate a incêndios a faturar, que os interesses - nos incêndios em si e no combate - são muitos e as recompensas para determinados responsáveis generosas; 


    3) por último, colocar o governo a salvo de quaisquer responsabilidades perante o zé-povinho, ao mesmo tempo que se responsabiliza esse mesmo zé-povinho por aquilo que possa vir a acontecer. 


    - Isso é maquiavélico...Não acredito.
    - Pensa, pá, pensa um bocadinho. Então o proprietário do pinhal não pode ir patrulhar e fiscalizar a sua propriedade e actividades suspeitas? E isso é para garantir uma maior segurança contra incêndios? Mas estamos onde, numa idiotocracia? Bem, se calhar estamos mesmo numa idiotocracia.

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  9. Balio, até os parques de merendas estão fechados. Não estamos a falar só  de festivais.  Depois de uma manhã na Costa da Caparica levei a miudagem ao parque de merendas da Fonte da Telha para comer umas sandochas. Estava interdito pela protecção civil. Cheio de fitas encarnadas nas entradas. Nem queria acreditar. Parece uma distopia. O próximo passo é proibir as pessoas de sair de casa quando o risco é elevado.

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  10. Susana V
    Os seus filhos certamente não fumam, mas a mãe talvez fume.
    Nada melhor, depois de uma boa merenda no parque, do que fumar um cigarrinho. No fim atira-se a beata para o lado, que certamente o vento apagará.

    O carro deixa-se ali estacionado ao pé do parque. Por cima de umas ervas secas que lá há. O motor do carro está quente, as ervas arrefecê-lo-ão. Como em Castelo de Vide, no Festival Andanças, há uns anos.
    O parque de merendas não é da Susana. A Susana não tem nenhum direito de exigir que ele esteja aberto e disponível sempre que à Susana lhe convém. Se o dono do parque de merendas acha por bem encerrá-lo, porque considera perigoso para ele que a Susana lá esteja, pois muito bem.

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  11. Convém lembrar que 93% das florestas e matas portuguesas são propriedade privada.
    Nessa medida, a proibição de as pessoas andarem pelas florestas é coisa que, basicamente, somente diz respeito aos proprietários privados delas.
    Eu, que sou proprietário florestal, não gosto de ver pessoas a andar, nem pelas minhas propriedades, nem sequer nos caminhos que as atravessam. E não vejo particular inconveniente em nem eu, nem os restantes proprietários, deixarem de poder ir passear para as suas propriedades nuns poucos de dias.
    Infelizmente, observo que as minhas propriedades florestais são tratadas com bem pouco desvelo por alguns que as visitam, em particular, diria eu, pelos que não são proprietários florestais. Observo corte ilegal de árvores, deposição de lixo e, quem sabe um dia, fogo.
    Sei que na Suécia e Noruegal qualquer pessoa é livre de passear pelas florestas, inclusivé por aquelas que são propriedade privada de outrém. Em Portugal tal liberdade em princípio não existe, porém o que se verifica na prática é que as pessoas se dão à liberdade de ir às propriedades de outrém causar estragos.

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  12. Balio,
    Nada impediria a mãe, caso fumasse e fosse suficientemente idiota, atirasse a beata acesa pela janela do automóvel, que pode circular na estrada circundante ao dito parque das merendas. Nada impedia a mãe deitar juntamente com a beata acesa, uma embalagem de álcool gel que se tinha rebentado na carteira. 

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  13. Susana,
    os exemplos que Você dá sem dúvida que acontecem. Não é por acaso que está a haver tantas ignições - certamente que muitas delas se deverão a comportamentos estouvados (por exemplo, deitar uma beata pela janela de um automóvel em movimento) como os que refere.
    Ou seja, interditar os parques de merendas sem dúvida que não é suficiente para evitar TODAS as ignições (nem nada que se pareça). Mas ajuda a evitar ALGUMAS.
    O espaço público é do Estado, e é o governo (e as câmaras municipais, e as juntas de freguesia) quem tem que o gerir. Dessa gestão pode fazer parte o interditá-lo ao público. Da mesma forma que qualquer proprietário privado pode interditar o acesso à sua propriedade, assim o governo pode interditar o acesso a propriedades do Estado. Por exemplo, creio que o parque da Pena (em Sintra) e a Mata Nacional do Buçaco estão rodeados por muros, da mesmíssima forma que muitos latifúndios alentejanos estão rodeados de arame farpado. O facto de uma propriedade ser do Estado não significa que todo e qualquer cidadão tenha o direito de lá entrar a toda e qualquer hora.

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  14. Balio tem toda a razão. Pessoas ignitiveis nao deviam poder sair de casa durante o Verão. Confinamento obrigatório. 
    Eu não fumo, estou autorizado a ir correr para a mata. E deixo a assadeira das chouriças em casa,podem confiar. Levo somente a garrafa de água. 
    Realmente,  a expressão vedar o espaço público ao público tem o seu quê de ironico.

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  15. Sabe Balio, eu até aprecio essa sua postura de ser do contra, mas às vezes consegue dar com cada cambalhota...
    Dois pontos:
    1) Esse nível de raciocínio, implica, no extremo, que se fechem todas as pessoas em casa para prevenir as ignições. Ou na proibição de vender fósforos e isqueiros.  só quem conseguisse fazer fogo com duas pedras e uns raminhos poderia atear um fogo.
    2) O espaço público é público, como dizia outro comentador. É gerido pelo estado e pago pelo público (como também são pagos pelo público os governantes que o gerem).
    3) E que tal proibir os carros para acabar com os acidentes, proibir os doces para acabar com a diabetes e proibir o tabaco para acabar com o cancro do pulmão? Políticas liberais, como o Balio afirma ser...
    E fico por aqui nesta discussão. 

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  16. Não. Do Estado.
    "As pessoas" é uma entidade que não existe legalmente.
    Legalmente, o espaço público tem um dono, e esse dono é o Estado.

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  17. Pois eu no sábado passade fui passar a manhã ao Parque Marechal Carmona, em Cascais. Costumo sentar-me lá num dos bancos públicos em frente a um aprazível relvado. Mas esses bancos estavem todos vedados porque nesse Parque se está a realizar o Festival EDP Cool Jazz. Achei revoltante ficar sem o meu banco usual para me sentar devido a a Câmara Municipal de Cascais ter interditado tantos bancos. É indecente!


    Enfim, coisas vergonhosas que o Estado, enquanto gestor dos espaços públicos, faz para incomodar os seus genuínos e legítimos proprietários, os cidadãos...


    (E já nem falo dos passeios das ruas de Lisboa, que a Câmara Municipal autoriza que sejam ocupados em grande área por esplanadas, fazendo com que os peões tenham que andar a contorná-las.)

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  18. Estás enganado. Experimenta ganhar as eleições e decidir fazer um prédio de apartamentos, do Estado, no meio do Rossio e logo vês se tens base legal.

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  19. Aconselho a leitura, noutro blogue, de um post sobre o Super Bock Super Rock:
    https://aventar.eu/2022/07/14/o-super-bock-super-rock-e-o-egoismo-imbecil-travestido-de-liberdade/#more-1328672

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  20. Eh pah, outro inteligente. Bora lá em nome da liberdade fazer os churrascos. Os problemas dos incêndios, pandemia, etc, alguém que trate deles, nós é que não podemos ser beliscados na nossa vidinha aconteça o que acontecer.
    Já agora oh palerma do patusco, tenho filhos, trabalho, reforma e netos logo se verá, mas acima de tudo ... sou responsável.

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  21. Pronto, se não há qualquer relação, nem sei porque aconselharam as máscaras, porque houve a aflição inicial relativamente à ausência das mesmas (até de cortinados se fizeram máscaras).
    Se calhar, ... enfim, teria havido menos casos e menos mortes.
    E quanto ao pico mais grave de todos, se calhar percebi mal, mas morreram cumulativamente mais pessoas no período pós-mascara do que no período em atingimos 300 mortes num dia. Acho que o numero diário durante mais de um mês   andou entre os 20 e 30.

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