sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A academia no seu labirinto

Pela segunda vez, em muito pouco tempo, Susana Peralta faz outro artigo no Público com a tese de que baixar impostos só tem um resultado certo: deixar mais dinheiro no bolso dos mais ricos (noto que do artigo anterior para este Susana Peralta corrigiu a terminologia e deixou de dizer que baixar impostos põe dinheiro no bolso de quem quer que seja, uma boa demonstração do seu fair play).


Susana Peralta é das economistas mais interessantes da esquerda caviar, tendo a insuperável vantagem, face a outros, de não torturar a informação até que ela diga o que a Susana quer que diga.


Tem também uma vantagem académica, mas que acho uma seca como leitor: para cada ideia que defende, tem um ou dois estudos, ou mesmo uma revisão geral da bibliografia, em que baseia o argumento. Acho uma seca porque tenho sempre a desagradável sensação de que as referências bibliográficas estão ali para dar credibilidade a argumentos pré-existentes e não para nos ajudarem a pensar.


Onde eu queria chegar é ao essencial da tese: "Como sempre na campanha eleitoral, há propostas de diminuição de impostos para todos os gostos, que vão fazer as pessoas trabalhar mais e melhor, investir e poupar mais, o que leva ao crescimento económico. E depois a pobreza vai resolver-se por arrasto, porque quando a economia cresce todos ganham. Só que a realidade é mais complexa e em Portugal não há estudos de qualidade que nos permitam quantificar os efeitos. Que serão, baseados na evidência internacional, seguramente menores do que a narrativa do milagre implica. Até ver, há apenas um efeito seguro: baixar a carga fiscal dos mais ricos. Sem pingar para os mais pobres".


Em primeiro lugar, note-se que a frase final, "Sem pingar para os mais pobres", de acordo com o próprio artigo de Susana Perealta, não tem a menor base na evidência internacional, que se limita a dizer que isso é incerto e, sobretudo, difícil de avaliar.


Mas deixemos esta minudência académica, para nos concentrarmos no essencial: qual é a evidência que existe de que o dinheiro no bolso do Estado produz melhores efeitos no combate à pobreza de que o dinheiro no bolso dos mais ricos?


Mesmo admitindo a validade de toda a tese de Susana Peralta, o que tem Susana Peralta a dizer em defesa da ideia de que o Estado, por definição, é uma entidade confiável, filantrópica, imune à corrupção e mais preocupada com os pobres que com o destino da TAP, e não um instrumento de repressão nas mãos das classes dominantes, como diria Marx?


A resposta a esta pergunta pode ser a clássica fuga dos académicos às perguntas societalmente relevantes: eu só falo do que sei e estudei, e a pergunta que me faz ultrapassa o âmbito das minhas competências.


Ou, citando de cor Mário Centeno, o ministro, sobre Mário Centeno, académico: aplicar à política as conclusões dos estudos académicos, é um caminho para a tragédia.


Esta citação, que me parece do mais chão bom senso, dever-nos-ia vacinar quanto à validade das credenciais académicas na discussão política, o que evidentemente não é o mesmo que negar a enorme valia do conhecimento para essas discussões.


É apenas o reconhecimento de que entre a produção académica e a criação de conhecimento há um enorme fosso, com muitas pontes, com certeza, mas um enorme fosso que convém não ignorar.

7 comentários:


  1. Quando a URSS em 1957 lançou o Sputnick, o primeiro satélite a girar em orbita à volta do planeta Terra, apareceu na TV em Portugal um ilustre professor acompanhado de uma jóvem assistente. Esta explicou candidamente aos portuguêses, em directo, no preto e branco das TVs ao tempo, que isso de um satélite a circular no espaço ao redor da Terra era uma rotunda impossibilidade.
    Uma tradição cultural?. "Magister Dixit".

    Em vernáculo: "animais de carga" carregados de livros.


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  2. É evidente que o Estado português não é uma entidade confiável.


    Porém, também é verdade que o dinheiro no bolso do Estado português produz melhores efeitos no combate à pobreza. Todos os estudos apontam que a pobreza em Portugal seria bem maior se não fosse a atuação do Estado.

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  3. "Mas deixemos esta minudência académica, para nos concentrarmos no essencial: qual é a evidência que existe de que o dinheiro no bolso do Estado produz melhores efeitos no combate à pobreza de que o dinheiro no bolso dos mais ricos?"


    É a estatística que diz que existem cerca de 20% de pobres em Portugal depois das transferências sociais. E que antes das transferências a pobreza seria cerca de 40%.

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  4. Ainda bem que o estado português tem tão bons resultados no combate à pobreza (dos amigos do ps) porque se assim não fosse estaríamos muito pior, um "estudo" do Eurostat (e não um estudo do observatório do Boaventura SS) revela que "um em cada cinco portugueses está em risco de pobreza, revela novo indicador" ( https://www.publico.pt/2021/10/28/sociedade/noticia/cinco-portugueses-risco-pobreza-revela-novo-indicador-1982849 ). Isto vinha no Público e não num jornal fascista.

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  5. O argumento é o de que seca faz bem às plantas porque se eu drenar uma área com água excessiva, o seu estado melhora, é isso?

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  6. Sim, os estudos demonstram que se eu der uma esmola a um pobre ele melhora, mas não diz que ele é pobre porque lhe recusei trabalho, não é?

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  7. O que é triste é que numa notícia do Expresso sobre a desigualdade se pode ver que só 4,2% dos salários em Portugal estão acima dos 2500€. São a estes os ricos onde querem ir buscar o dinheiro? É que acima de 5000€ são já só 0,6%.

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