Há uma região do país que tem um problema sério com fogos e tem também chanfana.
Nessa região, à entrada de um dos concelhos está um cartaz que o proclama capital mundial da chanfana e o concelho ao lado proclama-se capital universal da chanfana.
Aos autarcas desses concelhos depararam-se duas hipóteses: 1) investirem seriamente na chanfana, já que hoje se podem percorrer os concelhos da região sem ver rebanhos de cabras dignos desse nome, apoiando a criação de emprego e riqueza e de caminho gerindo os matos que são o combustível dos incêndios; 2) tornarem-se reivindicadores profissionais de mais meios para combater fogos e captar recursos de terceiros para fazer bons quartéis de bombeiros, ter bons equipamentos e apoiar as suas corporações de bombeiros com base nos recursos que a economia do resto do país liberta para o Estado, demonstrando o mais evidente desinteresse na gestão da raiz do problema dos fogos.
Como os pastores são poucos e mal organizados, apoiar actividades produtivas tão pouco sexy como a pastorícia não dá votos, sendo fácil perceber a opção pela captação de recursos de terceiros, o reforço dos bombeiros (uma fonte sempre simpática de votos) e a animação da construção civil e do comércio de equipamentos.
Que o autarca que mais tempo geriu um desses concelhos tem uma enorme experiência de fogos é absolutamente verdade: o seu concelho foi, durante muitos anos, o recordista nacional de área ardida em percentagem do concelho, apesar de uma magnífica corporação de bombeiros, magnificamente treinada e equipada.
Talvez por essa grande experiência (infelizmente sem grande estudo misturado, como aconselharia Camões) o autarca é também comandante de bombeiros.
A qualidade de resultados do seu concelho – um recorde nacional é sempre um recorde nacional, mesmo que seja de área ardida – empurrou o autarca até à Presidência da Liga dos Bombeiros, sempre reivindicando um combate musculado e implacável ao fogo, sem a menor referência à utilidade da chanfana para a gestão do problema, por exemplo, incluindo nas ementas das escolas do concelho alimentos das fileiras que gerissem os combustíveis e outras medidas ao alcance de qualquer presidente de câmara.
Aqui chegado temos o autarca, dia sim, dia sim, a falar de fogos em todo o lado, do alto dos resultados obtidos no seu concelho e porque representa os bombeiros.
Mas representa mesmo?
O jornalismo nacional tem a estranha mania de não escrutinar nem sequer o que diz e escreve, quanto mais escrutinar terceiros: a Liga dos Bombeiros não é uma organização de bombeiros, é uma organização de instituições que têm bombeiros e, estatutariamente, o seu primeiro objectivo é defender os interesses dos seus associados, isto é, das corporações de bombeiros, as entidades patronais dos bombeiros.
E digo entidades patronais porque se existem muitos bombeiros voluntários, a verdade é que grande parte das corporações têm também um quadro de profissionais, os que verdadeiramente pesam na gestão das corporações.
Não admira, por isso, que a opção do presidente da Liga dos Bombeiros, mais que contribuir para a discussão sobre a forma de gerir o fogo florestal em Portugal, seja a mera defesa corporativa dos interesses das corporações de bombeiros, bloqueando, de forma sistemática, as duas únicas coisas que o país tem de fazer em matéria de fogos:
1) substituir a doutrina de supressão do fogo por uma doutrina de gestão do fogo;
2) integrar a prevenção e o combate de fogos florestais (proteger casas e pessoas é um assunto diferente da protecção da floresta contra incêndios).
Até que um dia, mesmo contra os interesses das corporações de bombeiros, o país resolva levar a sério a protecção da floresta contra incêndios, Jaime Marta Soares continuará a defender o que sempre defendeu: as suas clientelas, mesmo que para isso tenha de fazer dos bombeiros voluntários a carne para canhão de uma doutrina de combate aos fogos que já foi abandonada nos países em que se avaliam a sério os resultados das políticas públicas.
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