segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O piropo

El-piropo_Ruth-Orkin.jpg


 Confesso que ao contrário de algumas feministas eu gostava de ter tido direito a ouvir uns piropos. Julgo aliás que a coisa mais próxima dum piropo que alguma vez ouvi remonta aos tempos da minha tenra infância, quando eu ia ao talho ou à mercearia fazer um recado à minha mãe. Infelizmente os galanteios provinham invariavelmente de senhoras com idade para serem minhas bisavós. Verdade seja dita, a gracinha acabou antes de eu chegar à puberdade. Aliás, sempre me custou a perceber o porquê das vizinhas velhotas me acharem tanta graça ao mesmo tempo que as miúdas da escola teimavam ser sempre tão reservadas e distantes no que ao assunto diz respeito. Entendi mais tarde que havia uma questão de “papéis”: afinal competia-me a mim ser duro, destemido e cortejador. Não muito convencido disso, ainda tive esperança de usufruir de alguns benefícios da dinâmica igualitária da revolução sexual que teve particular impulso durante a minha juventude. Privilégios que fossem mais estimulantes do que lavar a loiça e cozinhar que então se juntavam aos tradicionais de ir buscar as minhas irmãs a casa das amigas, carregar com a bilha de gás e os sacos das compras. É muito azar: a revolução afinal foi demasiado lenta e não será certamente agora, pai de família careca e consumido por mais de cinquenta anos de erosão que me habilito a ouvir um piropo atrevido. 


Vem isto a propósito desta notícia do DN, referindo que desde Agosto um piropo possui carácter de "propostas de teor sexual" com relevância criminal. É uma pena: se estou convencido de que não é com decretos-lei que se irá acabar com a perversão humana, acredito que com o moralismo se pode acabar com muita boa disposição.

4 comentários:

  1. Tem toda a razão.
    Imagine com que se preocupava a gente do PSD em Agosto!

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  2. fui sempre magricelas e de saúde algo precária por erros médicos.
    felizmente as mulheres do meu tempo não me ligavam.
    só se interessaram pela minha posição social e pelo meu dinheiro quando este ficou viúvo.
    ganhei uma aposta aos profissionais do piropo.  colocados no início da rua do Carmo tinhamos de acompanhar moças que subissem o Chiado.  quando chegou a minha vez dirigi-me a moça indicada e disse:
    -menina faça-me um favor. deixe-me ir a seu lado como se fossemos a conversar até virar para a Garret.  quero comer um bife no Nicola à conta dos tansos. a moça riu-se e fomos conversando.


    há mese estava junto duma montra da Sá da Costa e ouço:
    '-levavas uma bela f...!




    'mudam-se os tempos ....' dizia o cego    

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  3. Foi uma proposta do psd (às vezes também tem razão, tal como um relógio parado que acerta 2 vezes por dia); as mulheres têm o direito de andar na rua sem serem incomodadas por ordinarices

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  4. Foi uma proposta do psd (às vezes também tem razão, tal como um relógio parado que acerta 2 vezes por dia); as mulheres têm o direito de andar na rua sem serem incomodadas por ordinarices

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