sábado, 1 de setembro de 2012

O primeiro reduto


 


Martim Avillez Figueiredo na sua crónica de hoje do Expresso traz à estampa o interessante debate sobre a importância da família, no lugar do “indivíduo” como alvo alternativo das políticas sociais. Aludindo a teses do académico dinamarquês Gota Esping-Anderson e da democrata americana Isabel Sawhill, ele refere como as pessoas podem ser ajudadas através da melhoria do background familiar, e como afinal é esse o pilar que falta privilegiar nas modernas políticas sociais. É aí, defende, onde melhor “circulam os apoios, suavizando assim o estigma dos subsídios e assegurando uma rede de solidariedade entre pessoas que se conhecem” num sistema orgânico de auto-regulação.
Supondo que sobrevivia às instaladas tendências libertárias, receio que este pertinente debate tenha chegado tarde demais. Tenho muitas dúvidas de que a família na sua concepção tradicional, de comunidade solidária, necessariamente hierarquizada, simultaneamente tolerante e reguladora, acolhedora mas circunscrita, sobreviva à voracidade da adolescentocracia predominante. Porque uma família, mesmo sem a rigidez de outrora, nunca pode ser “relativa” e volúvel à precariedade das paixões momentâneas individuais. A família, sendo um espaço promotor de liberdade, cobra caro as infidelidades e é exigente nas contrapartidas. Acontece que limitados que são os recursos materiais e afectivos disponibilizados ao grupo, a salvaguarda da sua coesão obriga os seus membros ou candidatos a desafiantes rituais de entrada e à repressão de veleidades hedonistas, que afinal constituem a ameaça a um irreversível processo da extinção. 

11 comentários:

  1. João,

    O Avillez ficou siderado com o discurso do Santorum na convenção...e trouxe esta aparente "novidade" ao cortex cerebral tuga...

    Por vezes o raciocínio humano, aceita sem mais coisas carentes de prova.
    Muitos milionários norte-americanos, ou árabes provam que "isso" é uma treta.

    Aliás a tradicional familia, católica, casta, teria de ser por natureza ... (Portugal, Irlanda, Polónia, Itália, Espanha, ... ...)

    Enfim, mais mitos, fantasias para o pessoal se entreter...
    ...e olhe os mórmons que admitem a poligamia (no seio interno) já se candidatam à presidencia dos EUA...

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  2. Quando se vêem por aí famílias (por exemplo, no restaurante, no café, na esplanada) com os pais calados e os filhos entediados e sempre agarrados ao telemóvel, é difícil evitar o pessimismo.

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  3. Desculpe, mas não entendo o seu comentário ao meu texto, Monge. 

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  4. Essa sua capacidade de julgar as pessoas pelo olhar é fabulosa. Parabéns!

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  5. Na Convenção Republicana Rick Santorum veio com a tese que o Martim alude.

    Pareceu ser coincidência.

    Concordo com o João quando afirma que há um  irreversível processo da extinção.
    Talvez a nossa discordância se manifeste noutro sentido: a meu ver , há sinais claros da história humana para dizer que a família também foi fator de atraso, ou pelo menos de repressão de liberdades individuais.

    Não é pois seguro que a família seja um factor de agregação permanente.

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  6. Há uma diferença entre o olhar e a observação e não julguei ninguém, descrevi apenas uma situação com que se depara frequentemente.

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  7. De facto não é SEMPRE um factor de agregação e solidariedade, pode ser uma casa de horrores até. Não existem absolutos, com bem sabe.

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  8. (Não) entenda como quiser... e bom proveito.

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  9. "As ditaduras do século xx sempre combateram os modelos tradicionais de família"
    Bem, quando li isto, fiquei na duvida se valia a pena ler o resto.
    Se excluirmos a China Comunista, que aboliu as famílias tradicionais poligamas. A maioria das ditaduras partilhava com o autor do texto uma forte repulsa pelo individualismo. Chegavam a definir a familia como a base da nação. E iam ao ponto de condecorar as senhoras que gerassem mais filhos.
    De resto, o individualismo, hedonismo, e mais não sei-o-que que indigna tanto o autor. Surgiram já na ultima metade do século XX nas democracias ocidentais, com os movimentos de direitos civis.
    Nos links abaixo, algum do pechisbeque com que as ditaduras brindavam as senhoras mais empenhadas em contrariar a tese do Sr Avillez.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Orders,_decorations,_and_medals_of_the_Soviet_Union#Maternity_Medals
    http://en.wikipedia.org/wiki/Cross_of_Honor_of_the_German_Mother

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  10. Este tema, de encontro com a actual situação económica, deixa-me num paradigma de ponderações. Se por um lado se vê uma crescente entre-ajuda familiar em micro despesas, como contas da casa - luz, água, Internet, alimentação, etc. -, por outro lado, cria-se uma impossibilidade na partilha de riqueza; penso que essa última, será provavelmente devida à continua extinção da classe-média, onde os mais altos patamares da hierarquia familiar se vêem limitados na ajuda que podem proporcionar aos mais jovens.
    Na conclusão que se faço, tenho sérias dúvidas que um desempenho mais intrínseco no papel da família, como um uno, solucione problema algum.

    Já no texto que o João escreveu, sobre a "contra-revolução", penso que ainda continua a haver tal impacto familiar; seja a nível cultural, seja a nível social. Acaba por ser uma influência inata, ainda que inconsciente.

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