sábado, 7 de julho de 2012

A História, esse lugar de desespero* (1)

(…) Aquilo que na década de 20 se pensava que podia acontecer era muito menor do que aquilo que veio a acontecer. Se alguém dissesse que dali a não sei quantos anos haveria Estados a organizar extermínios, ninguém acreditaria.  
Mas há sempre um certo desprezo pelos sinais da História ou não? A nossa sociedade talvez esteja mais desarmada para contemplar esses sinais, porque nós negamos a natureza humana, consideramos que o homem se fez a si próprio e mantemos a ideia de que podemos continuar a fazer-nos a nós próprios. Keynes, nos anos 30 e 40, é um exemplo disso quando fala na possibilidade de que manipulando uma série de dados a economia se torna gerível e que se evita crises, fazendo isto e aquilo. Construiu-se a ideia de que o ser humano pode atingir um estado em que manipula tudo. É uma civilização que negou os seus limites. É por isso que esta crise que estamos a viver desde 2008, que historicamente não é assim tão estranha como isso, causou um abalo tremendo.
Como assim? Ela afectou uma civilização que depois de ter derrotado os seus inimigos, o fascismo, o comunismo, de ter vencido crises com a implementação, há 20 e tal anos, daquelas medidas liberais que nos faziam acreditar que tínhamos descoberto o segredo não da juventude eterna mas do crescimento económico eterno, é confrontada com os seus limites, geográficos, institucionais, económicos. Tínhamo-nos tornado uma espécie de deuses na Terra e nunca mais iríamos ter problemas. Mas de repente este regresso do passado deitou por terra aquela espécie de alienação que nos fazia crer que tínhamos conhecimentos e sabedorias infalíveis.
Afinal o que podemos retirar do passado? Uma das maiores lições que se pode tirar é a dessa noção de abertura, das coisas estarem condicionadas mas não determinadas.


 


Rui Ramos em entrevista ao Expresso de Henrique Monteiro e Nuno Botelho


 


* Título inspirado numa contextualizada adjectivação de José Mattoso aqui

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