A nossa historiografia tem ignorado este complexo e original movimento (a história ordens religiosas). Deixou-se influenciar pela crítica protestante, que se empenhou em retractar a vida religiosa anterior ao século XVI como uniformemente viciada pela corrupção moral e disciplinar. Depois os historiadores racionalistas e agnósticos generalizaram-na a todas as ordens e congregações, considerando-as escolas de vícios e hipocrisia, baluartes do obscurantismo e antros de ignorância. A deturpação levou a ignorar o significado de factos tão evidentes como o de duas dessas ordens, típicas da renovação pré-tridentina, terem inspirado os dois monumentos mais representativos da cultura portuguesa de todos os tempos: o mosteiro dominicano da Batalha e o mosteiro dos Jerónimos em Lisboa. Na sequencia da deturpação dos factos, a historiografia corrente do século XIX, obcecada pelo suposto hiato entre uma Idade Média bárbara e grosseira e o esplendor do Renascimento, tornou-se incapaz de compreender de que maneira se formou e desenvolveu, no século XV, a energia colectiva que depois sustentou a expansão portuguesa na Índia, no Brasil e em África. Os nossos historiadores, incluindo os defensores da Igreja Católica, ofuscados pelo fulgor de Os Lusíadas ignoraram os valores portugueses do século anterior.
José Mattoso - "Contemplação e acção, ontem e hoje" In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores
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