Na nossa época, em que os jornais e a televisão projectam constantemente diante de nós as imagens do atroz sofrimento dos inocentes, no Afeganistão, no Darfur ou no Iraque, nos bairros de lata ou nos campos de treino das crianças africanas para a guerra, nas prisões e nos hospitais, nos lugares atingidos pelos terramotos e tsunamis ou nos barcos e camionetas em que os traficantes de homens e mulheres transportam emigrantes em busca de emprego, não podemos ignorar que é essa a sorte da maioria da população mundial. A nossa identificação com a parte sofreadora da Humanidade tem, pois, um suporte muito concreto.
(…) Atribui-se ao abade Poemen, e foi depois transmitida, de boca em boca, entre os monges do Egipto, até mais tarde ser recolhida por escrito. O abade Isaac, diz a sentença, contou o seguinte aos seus monges:
Estava eu um dia sentado junto do abade Poemen, e vi-o em êxtase; e, como tinha com ele grande confiança prosternei-me e supliquei-lhe dizendo: “diz-me onde estavas” e ele, todo constrangido, disse: "o meu espírito estava lá onde se encontra a Santa Maria mãe de Deus que chorava sobre a cruz do Salvador. E, por mim, quereria chorar assim todo o tempo".
Notem bem o presente do indicativo “encontra” o pretérito imperfeito “chorava”, e o condicional “quereria”, que marcam o caracter intemporal da cruz, da presença de Maria e do choro. De facto, Santa Maria representa aqui o género humano cujas dores e angústias da Humanidade são tomadas por Jesus e oferecidas por Ele ao Pai. É um estado permanente: as dores e angústias da Humanidade, que Jesus tomou sobre si, não cessam nunca. É aí, nesse lugar, nessa situação, que Santa Maria, Mãe do Filho do Homem, se encontra, até ao fim dos tempos, porque é a personificação do género humano indefeso e autêntico desde o princípio do mundo até à consumação dos séculos. (…)
José Mattoso - Contemplação e Intercessão In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores
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