Tem algo de visceralmente religioso e infantilmente devoto esta profusão de balanços que todos os anos os média dedicam aos acontecimentos do ano que termina. Não há blog, noticiário televisivo ou radiofónico, jornal de mais ou menos "referência" que por estes dias não provisione os seus crentes com toneladas de crónicas, sínteses, fotografias e notícias requentadas, numa fanática revisão e fecho de contas de tragédias, frases bombásticas, escândalos de vária ordem, como se, entre o dia 31 de Dezembro e o 1º de Janeiro existisse uma barreira física, um restart, para a ilusão duma ressurreição colectiva. Felizmente no próximo Domingo todos seremos os mesmos de Sábado, na continuidade do tempo e no espaço um dia mais velhos... uns quantos talvez com a boca a saber a papel de música, mais ressacados e confusos que habitualmente. O fim-do-ano não é mais do que uma estação tola com pretensões. É que afinal, a não ser que a natureza nos surpreenda com a sua indómita fúria em qualquer quadrante do globo, se há data em que nenhuma ruptura social ou política acontece, se há tempos mais conservadores e inócuos, esses são os da passagem de ano.
Este post parece uma reflexão budista. Influências do Dalai Lima?...
ResponderEliminarApesar de tudo, é bom lembrar que só o ser humano consegue dar significação ao tempo, assinalando o seu decurso com ocasiões de festa e de plenitude.
E, para lá do excesso e da fragmentação mediática, o exercício da memória é algo de fundamental à sociedade.
Quanto à inocuidade da passagem de ano, e mesmo que a excepção possa confirmar a regra, lembro-me desde pequeno de uma certa Ofensiva do Tet. Cuidado com o baixar da guarda...
Agora não há po#%a de noticiário nenhum que não refira que portugueses (ou italianos, ou gregos, ou norte-coreanos, o quer for) SAÍRAM À RUA.
ResponderEliminarQuanto à nossa terra, são os que, pelos mais variados motivos, protestam contra os governantes, no outro dia eram os que tinham "saído à rua" para fazer as compras de Natal e até já ouvi que muitos carros "saíram à rua" no fim-de-semana passado (deve ser suposto estarem aconchegadinhos à lareira, esses tais carros).
E o sr. José Alberto Carvalho anunciou um dia destes que a crise obrigava os Portugueses a passar em casa o réveillon (!!!). Vai-se a ver, e hoje, por exemplo, só de réveillons gratuitos organizados com o dos munícipes pelas câmaras municipais, são mais que muitos os anúncios.
Enfim, já não bastava a Casa dos Segredos e os Pesos Pesados...
Não tem nada de budista, este post serve só para assinalar que que o que é demais é moléstia. É evidente que a excepção que assinala confirma a regra.
ResponderEliminarComo sempre achei que não tinha dinheiro para reveillons em locais sofisticados, tentei alguns lugares públicos, como praças ou associações de bombeiros. A experiência foi sempre traumática. Desiludido, passei a comemorar a data no remanso do lar. Não foi precisa nenhuma crise para me convencer ser este o melhor local para festejar em noites de Inverno.
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