segunda-feira, 24 de outubro de 2011

As boas cores do cinzentismo tuga

 


A nossa famigerada e “antropológica tristeza” (o que quer que isso queira dizer), ou “cinzentismo tuga”, cá para mim não passa de uma grandessíssima balela, explorada por qualquer fazedor de opinião que por inerência tem de “dizer mal”. Suspeito que esse diagnóstico não passa duma especulação empírica, tantas vezes repetida que passámos a aceitá-lo como uma verdade que não é.


Muitas vezes, em viagem, nas cidades, comboios e aeroportos, tenho procurado nas facies bárbaras um sorriso, um ténue sinal que revele a tal alegria de viver característica desses povos evoluídos (todos os que nos circundam). Nada, népia, néribit. Tudo gente trombuda, ensimesmada, cara de poucos amigos. Em Essen ou Frankfurt, por exemplo, atendendo ao pib per capita daquela gente, custa-me a entender aqueles olhares gelados, as caras circunspectas. Em Londres, onde os povos de todo o mundo formigam a valer, a pose é idêntica à nossa, como em qualquer metrópole europeia – exceção feita aos genuínos súbditos de Sua Majestade, que se exibem altivos, de impensável anel no dedo mindinho e gravata psicadélica, ao estilo não me toques que desafino. Mas no fundo eles são bem vulgares, rua a fora ou no metro de língua mordida ao canto da boca, a trocar sms, com fones nas orelhas ou escondidos atrás dum jornal gratuito com uma fotografia de Pippa Middleton na capa. Que felicidade transparece em todos eles, que os portugueses desconheçam? Ne-nhu-ma. As razões até podem ser duas: além de serem quase todos uns macambúzios calvinistas, a maior parte das vezes são também uns… frustrados. Deve ser isso: falta-lhes o nosso jeito para a brincadeira, é o que sugerem aqueles típicos estudos de opinião feitos no auge do mês de Agosto para um semanário com a redação em férias.


Recentremos a questão da pretensa mágoa lusitana: como é bom de ver não é certamente a nossa abundante atividade libidinosa que obscurece o tíbio sorriso indígena, mas a simples suspeita que amiúde perpassa na mente de cada português, de que o parceiro do lado pode ser mais feliz do que ele próprio.


 


Publicado na revista The Printed Blog, ano 1, nº 2, Setembro 2011

3 comentários:

  1. Esses súbditos de Sua Majestade são na realidade uns ingratos e uns descontentes sem razão. Se eu vivesse na terra do príncipe de Gales e da duquesa da Cornualha, andava obviamente felicíssimo, nem que me cortassem a coisa pelo Natal.

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  2. A coisa, não: o subsídio.

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  3. Caro João:

    Concordo até ao último parágrafo... Em que discordo!
    Se todos pudessem prosperar, certamente não invejariam ninguém...

    Cumprimentos

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