sábado, 3 de setembro de 2011

Nós, portugueses (3)

 


Como reacção a 48 anos da ditadura, cuja propaganda (como resposta a dezasseis anos de caos e violência) se fundou nos valores da família, a religião e trabalho, tivemos trinta e cinco anos de democracia em que a estética imperante os proscreveu liminarmente. Exemplo disso é o que sucedeu à agricultura nacional, que de tão glorificada em tempos, foi votada ao abandono a seguir ao 25 de Abril, amaldiçoada pelos poderes como actividade quase indigna. Como resultado estabeleceu-se, uma cultura de indolência, especulação e irresponsabilidade: o “trabalho” é palavra de ordem banida, o desvelo é indício fraqueza, e a máxima aspiração indígena é ascender à fidalguia cortesã do regime, ancestral vício congénito, que os partidos se constituíram pródigos promotores.


 


A realidade actual seria irónica se não fosse a nossa desgraça: pobreza e árduo trabalho é a herança que temos e o testamento que deixamos. Como acontecerá esta inevitável revolução em democracia, é a minha maior perplexidade.


 


Texto reeditado


 

4 comentários:

  1. Se eu fosse mais novo...3 de setembro de 2011 às 16:57

    Se calhar, acontecerá também assim.

    http://www.bbc.co.uk/news/world-14716410 (http://www.bbc.co.uk/news/world-14716410)

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  2. Permita-me: a bem dizer, passámos de uma agricultura de subsistência estado-novo ) para uma de inconsistência de mercado.
    Acho até que nunca ninguém neste país, à beira-mar plantado, conferiu a justa dignidade à lavoura.

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  3. Sou da Beira Alta, emigrei um pouco antes do 25 de Abril, lembro que os campos pareciam jardins de tão cuidados, as matas eram roçadas para aproveitar o mato para juntar ao esterco de animais e fazer adubo natural para as plantações.
    Hoje, dá pena ver os campos abandonados, videiras, oliveiras e outras árvores de frutos invadidas pelo mato morrendo lentamente. A arte da cultura da terra, passada de  geração em geração, está sendo perdida, os jovens perderam o contato com o campo.

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  4. Faço minhas as suas palavras. De facto assim é. Cada nova terra abandonada é um velhote que morreu ou já não pode mais com as pernas. Sinto a falta do cheiro a um campo de milho, o cheiro a uma terra lavrada, o cheiro da erva cortada, do ruído dos motores de rega, do chiar da carroça, etc. 

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