sábado, 27 de agosto de 2011

Nós, portugueses (2)

Se é verdade que o analfabetismo, a iliteracia ou a ignorância não se reduzem por decreto, constituindo antes combate para muitas gerações; se é verdade que o desígnio da liberdade individual depende dum tanto quanto possível equilíbrio entre a autoestima e conhecimento do indivíduo, não deveriam as elites do país de Abril pautar o seu discurso com muito mais modéstia? Verificando os disparates verberados na disputa política e a nossa proverbial incapacidade de mudar alguma coisa que se veja, leva-me a suspeitar que, como Povo, a distância cultural que nos separa duma “idade das trevas” não é substancial, o que nos deveria inquietar.


Acontece que a redenção de Portugal está dramaticamente dependente duma democratização do saber, aprofundada por várias gerações. A nossa evolução civilizacional carece da generalização dum julgamento e arbítrio mais sóbrio e mais fundamentado, liberto tanto quanto possível de feridas recalcadas e preconceitos sociais. Quantas mais pessoas pudessem reconhecer a sua História e ascendência com orgulho, sem preconceitos ou complexos, mais livres seriamos para acreditar num futuro que todos somos chamados a construir com responsabilidade.


Libertar um Povo das amarras da ignorância e ensiná-lo pensar é tarefa para muitas gerações, que em Portugal começou tarde demais. Mas tal é a única forma de aliviar o país do predomínio da grosseria e do ressabiamento, o único caminho que vale a pena trilhar.


 


Texto reeditado

9 comentários:

  1. E por acaso há vontade de educar sériamente a maioria dos cidadãos?
    Não é preferível mantê-los broncos e escravos do consumismo?
    Duvidosos da sua força como cidadãos?
    Mais interessados em defender o seu cantinho?
    Convencidinhos que uma cruzinha num papel de vez em quando é a panaceia para as suas desgraças?

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  2. Maria Dulce de Carvalho27 de agosto de 2011 às 23:08

    Nem mais! Concordo, concordo, concordo ! bem haja!

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  3. Ao Tugal de hoje aplica-se como uma luva o dito "em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão".

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  4. caro João


    Concordo completamente. Ademais, a cultura do preconceito, incutido nos discursos de massas, da demagogia dos amanhãs cantantes, é um factor divisório e perigoso, principalmente, como bem diz, quando as amarras da ignorância estão cravadas; e vão sendo cravadas por aqueles que supostamente as deviam libertar.

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  5. Por gerações? O analfabetimos podia ter desaparecido em poucos anos. Assim foi historicamente em vários países. A Dinamarca, que era pobre, e comparável a Portugal, resolveu a questão em poucos anos, nos finais do séc. XIX.
     E a iliterecia podia ser muito aligeirada numa geração.
    Não vejo ninguém, republicano de todos os quadrantes ou monárquico que se sinta muito incomodado, verdadeiramente incomodado com o estado actual das coisas.
    Nunca ouvi o Duque de Bragança ou um político republicano dizer a evidência: a nossa taxa de analfabetismo (21 lugares abaixo da Espanha!) é intolerável e deve começar a ser combatida de imediato.
    Ao invés, não há político que não diga vacuídades sobre a "lingua portuguesa" - que atropelam -  ou sobre acordos ortográficos. 
    A iliteracia política.

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  6. Ai João, bem se vê que o texto é reeditado...ainda tem imensas coisas que não tarda, são engolidas pela..."Heidi, a Salvífica"

    (com as devidas precauções de não causar constrangimentos ao R. Crull Tabosa. Mas também não faz mal que o Crull de certeza que não gosta da "Heidi")

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  7. Caro João,

    Parece que uma tal Ministra do trabalho alemã com um nome esquisito, acaba de anunciar a nossa salvação, assim como a de toda a Europa: Os Estados Unidos da Europa...em versão "Heidi" claro está que é para não nos assustar muito... eu estou a pensar trilhar o caminho das Berlengas... onde me parece que estas ideias são capazes de não chegar...pelo menos tão depressa.

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