quarta-feira, 27 de maio de 2026

Transparência, escrutínio e jornalismo

 Tem havido, recentemente, alguma discussão sobre a necessidade de transparência a propósito de Aguiar Branco, quer pelo que disse no 25 de Abril, quer por ter pedido que as suas trinta e qualquer coisa presidências de Assembleias Gerais que exerceu enquanto advogado, não fossem divulgadas (estão declaradas, junto da entidade para a transparência, mas Aguiar Branco pediu para não serem públicas).

Como seria de esperar, este pedido de Aguiar Branco, e coisas semelhantes, como a recusa de Montenegro divulgar os clientes da Spinumviva, causa muita confusão a muitos jornalistas, campeões da transparência.

Eu acho que estão errados.

Numa sociedade liberal, eu não tenho de dizer quem são os meus clientes, os meus amigos, os meus parentes, os meus compadres, com quem passo férias, com quem jogo futebol, entre outras razões, porque não tenho nada que andar a divulgar informação sobre terceiros, a pretexto da protecção da sociedade (sim, é crime não denunciar terceiros em muitos regimes ditatoriais mas, em sociedades liberais, não sou eu que tenho de denunciar o excesso de velocidade dos outros, é o Estado que tem de desenvolver os mecanismos para prevenir e punir os excessos de velocidade de terceiros).

Acho razoável que, tendo responsabilidades públicas, eu tenha de fazer uma declaração de interesses, nos meus termos. Se não declaro como interesse uma actividade que considero irrelevante, por exemplo, presidir a uma assembleia geral seja do que for, e outros acham isso muito relevante, cabe a esses outros procurar essa informação, que não é secreta, e demonstrar por que razão ela é relevante.

Se eu for político, caberá aos eleitores avaliar o facto de eu não ter divulgado interesses que, afinal, deveria ter divulgado, de acordo com a opinião de cada um dos eleitores.

Alguns exemplos, começando pelo mais citado, a spinumviva.

Ao contrário do que é frequentemente dito ou insinuado, Montenegro nunca escondeu nada, deu sempre informação sobre essa empresa. Tenho lido coisas espantosas sobre isso, escritas por pessoas com responsabilidade pública, em especial a mentira de que na primeira vez que Montenegro falou sobre o assunto, no parlamento, apresentou a spinumviva como sendo uma empresa criada para gerir património familiar, omitindo tudo o resto, uma mentira extraordinária tendo em atenção que a gravação dessa sessão está disponível e é cristalino que Montenegro explicou a origem da empresa e descreveu todas as suas actividades.

Houve quem tivesse dúvidas sobre as actividades da empresa?

Sim, houve, embora algumas dessas dúvidas não tivessem qualquer facto que as motivasse a não ser possibilidades teóricas (por exemplo, as dúvidas de Alexandra Leitão sobre procuradoria ilícita).

Havendo dúvidas, havendo denúncias, investigou-se e não se encontrou nada.

Mas investigou-se depois de haver dúvidas e denúncias, obrigando-se a empresa e os seus responsáveis a dar muito mais informação que aquela a que estavam obrigados fora de um processo de investigação, o que é muito diferente de dizer que qualquer pessoa que tenha uma empresa e chegue a primeiro ministro, tem a obrigação de declarar o que foi exigido a Montenegro.

Segundo exemplo a partir de declarações de Isabel Moreira.

Isabel Moreira declarou-se censurada por ter um contrato de exclusividade com uma empresa de televisão que afinal não a chamava para dar opiniões.

Eu tenho as maiores dúvidas de que um deputado deva dar a uma televisão o poder de se pronunciar publicamente a troco de um contrato de exclusividade.

Tenho as maiores dúvidas de que um político no activo deva vender as suas opiniões, como fazia António Costa que, quando em regime de exclusividade como presidente de câmara a ganhar cinco mil e tal euros, recebia da SIC sete mil euros a título de direitos de autor para participar num programa de comentário político.

Mas não tenho dúvidas de que Isabel Moreira tem o direito a não declarar esse conflito de interesses, se achar que não há conflito de interesses (eu acho que há, mas Isabel Moreira tem o direito a reger a sua vida pelos seus padrões morais, e não os meus), tal como acho que a televisão em causa tem o direito a não divulgar a lista dos avençados que mantém (eu acho bastante estúpido, por parte da televisão, porque eu, potencial espectador, passo a ter o direito a tratar qualquer comentário que ouça nessa televisão como sendo uma transacção comercial, apesar de haver muita gente, eu incluído, que fará comentários nessa televisão sem receber um chavo, de forma totalmente independente e livre - nem o transporte deixo que me paguem - e não um contributo para o debate público, mas a televisão é que sabe com que linhas se cose).

Terceiro exemplo, a discussão recente sobre a decisão do ICNF cessar o contrato para a gestão do centro de reprodução de linces em Silves.

O jornalismo em peso tomou partido por um dos lados desse conflito contratual, sem o menor interesse em escrutinar de que forma, com que processos, através de que meios, com que compromissos a mesma empresa geriu esse centro, primeiro na sequência de um ajuste directo, depois através de concursos públicos (por imposição da troica, disse o empresário beneficiário dos contratos, o que deveria imediatamente acender uma luz vermelha sobre transparência nas redacções dos jornais) sempre ganhos pelo mesmo empresário.

O jornalismo, nesse caso, não demonstrou o menor interesse na transparência de processos, quer nas decisões anteriores de adjudicação da gestão a esse empresário, quer na decisão recente de mudar essa opção (todas igualmente opacas).

Aqui, tal como com Sócrates, com António Costa, com Montenegro, com a TAP, seja com o que for, o problema central raramente é a transparência (sim, o país e a sociedade precisam de ser muito mais consistentes em matéria de transparência, se quisermos melhorar a qualidade das instituições).

A questão central é a qualidade do escrutínio que é feito pela sociedade e o jornalismo.

Tal como ninguém parece interessado em discutir os processos que levaram às decisões sobre a gestão do centro de reprodução de linces de Silves (39 intelectuais, que nunca se interessaram pelos processos de decisão anteriores, passaram a explicar ao povo como se gerem processos de decisão deste tipo, por razões que só eles poderão explicar), com o argumento de que a conservação do lince é um sucesso (ao mesmo tempo que argumentam que manter em funcionamento um centro inútil se justifica porque, apesar do sucesso das medidas de conservação do lince, se aparecer uma doença infecciosa nos coelhos, como é historicamente o caso, lá se vão o resultados de conservação e é preciso que haja centros de reprodução  prontos a começar tudo de novo), também no resto, a transparência só seria útil se houvesse vontade de escrutinar a sério.

Só que, aparentemente, há mais transparência que vontade de escrutinar.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A agência Lusa e a verdade

"Desencadeado a 28 de fevereiro por um ataque norte-americano e israelita ao Irão, o conflito alastrou-se a grande parte do Médio Oriente e causou milhares de mortos, sobretudo no Irão e no Líbano, onde o movimento pró-iraniano Hezbollah se juntou às hostilidades no início de março, atacando território israelita."

Este é um parágrafo que o Observador reproduz acriticamente, vindo da agência Lusa, sobre a guerra no Médio Oriente.

Sim, é verdade que a 28 de Fevereiro houve um ataque ao Irão por parte dos Estados Unidos e Israel.

Não, não é verdade que o conflito se tenha alastrado a grande parte do médio oriente, quer porque os conflitos no Médio Oriente são anteriores a esse ataque, quer porque, apesar dos esforços do Irão em alargar o conflito, não houve, até hoje, alastramento nenhum.

Sim, é verdade que ataque provocou mortos (vamos admitir que são milhares, não faço ideia), mas qualquer conflito provoca mortes, o certo é que, no caso do Irão, desde o princípio deste ano morreu muito mais gente por causa da repressão do regime que por causa do conflito armado com os Estados Unidos e Israel.

Não, não é verdade que o movimento pró-iraniano Hezbollah se tenha juntado às hostilidades, quer porque o Hezbollah não é um movimento pró-iraniano, é um grupo terrorista que controla o mais poderoso exército irregular do mundo, financiado, treinado e armado pelo Irão, quer porque o Hezbollah mantém operações militares continuamente contra Israel, há muitos anos, muito antes do ataque de 28 de Fevereiro.

Eu não consigo entender se quem escreve estas coisas na LUSA acha que os seus leitores são bocadinhos de plasticina que se moldam em função do que quer que digam os jornalistas da LUSA, ou se acha mesmo que não há distinção entre jornalismo e propaganda (já nem discuto as razões para qualquer pessoa decente apoiar um regime como o iraniano, disponibilizando-se para ser seu porta-voz).

sábado, 16 de maio de 2026

Sobre preços e impostos

"o PS apresentou uma queixa-crime pedindo a nulidade da deliberação. ... alegaprejuízos superiores a 220 mil euros para os cofres da autarquia, pela suposta não cobrança aos promotores imobiliários da totalidade das obrigatórias compensações financeiras, devidas pela não realização das obrigatórias cedências. ... Elas devem ser pagas sempre que não é possível ceder áreas para equipamentos, espaços verdes e habitação acessível. ... A superfície de pavimento prevista para o empreendimento de 3437,12 metros quadrados deveria dar origem a uma cedência de 1806,45 metros quadrados. Mas a proposta aprovada ... prevê uma cedência de apenas 1031,14. ... que implicou um diferencial de 222 730,42 euros não cobrados".

O empreendimento em causa prevê 10 habitações.

Fazendo uma regra de três simples, se 775,31 metros quadrados deveriam pagar 220 730,42 euros, então o conjunto do empreendimento, com 3437,12 metros quadrados deveria pagar, segundo do PS, 978 546,57 euros.

Não é o promotor que vai pagar este quase um milhão de euros (na verdade, menos 220 mil euros porque a câmara calculou o valor das supostas cedências de áreas com base em critérios diferentes do PS, o que diz bem da confiança que se pode ter nestas matérias, no caso, representam 20 mil euros a mais ou a menos por casa, consoante se façam cálculos assim ou assado), é o comprador da casa, como acontece a qualquer imposto.

Logo, à cabeça, e apenas em cedências para a câmara municipal, cada uma das dez casas paga 97 854 euros (estou a esquecer a hipótese do empreendimento ter outras valências que façam descer este valor, o que me interessa é a descrição de um dos mecanismos que fazem os preços das casas ficarem mais altos).

O PS entende que o promotor deve ceder áreas que representam um pouco mais de 52% daquilo que vai construir (o seja, a câmara arroga-se o direito de cobrar uma comissão de 52% para licenciar uma obra), mas a Câmara só cobrou praticamente 30%, uma verdadeira generosidade que faz as casas terem de ser mais caras para acomodar a chantagem camarária.

Claro que para o promotor se defender deste assalto, inventa formas de as casas serem o mais caras possível, para que o que sobra para o promotor, depois de paga a comissão à câmara pela aprovação do projecto, permita construir e ganhar dinheiro com isso, produzindo casas que os consumidores achem que valem o dinheiro que vão desembolsar por elas (parte do qual, entrando directamente para os cofres das câmaras).

Tudo isto é uma verdadeira aldrabice, e uma fonte relevante de corrupção no país (se a mera discordância de aplicação de um critério no cálculo de uma comissão resulta em 220 mil euros de diferença, o incentivo para pagar vinte mil euros a quem pode decidir assim, ou assado, para ganhar 200 mil euros, é forte).

Na verdade isto são impostos disfarçados de taxas, o promotor não está a pagar o serviço que a câmara lhe presta para analisar e aprovar o projecto, incluindo infraestruturação (que é a definição de taxa), a câmara está a vender licença: obriga os promotores a cederem parte da sua propriedade como condição prévia para aprovação do empreendimento.

A justificação moral é que a câmara precisa dessa propriedade para fazer jardins, equipamentos e ainda habitação acessível, só que tudo isso deveria estar a ser financiado pelo IMI e outras receitas de impostos, a prática da cedência de áreas a que as câmaras podem obrigar os empreendedores, supostamente para fazer espaços urbanos de qualidade de que todos beneficiam, é uma prática imoral, errada e, provavelmente, a maior fonte de corrupção no país.

A construção de espaços urbanos de qualidade é uma responsabilidade das câmaras, não dos promotores, e deve ser financiada pelos impostos que sustentam essas políticas públicas (e existe um imposto exactamente para isso, o IMI).

Isto seria o mesmo que o Estado impor (como impõe) que eu tenha uma carta de condução, e depois dizer que as escolas de condução têm de garantir o financiamento da polícia e a compra de carros para o Estado, criando umas supostas taxas (na verdade, impostos) de trinta por cento sobre o pagamento das cartas de condução às escolas de condução que, evidentemente, se limitariam a cobrar mais 30% aos seus alunos.

A conflitualidade resultante deste esbulho do Estado é estratosférica e acaba a reflectir-se nos tempos de aprovação dos projectos, um novo sobre custo para quem faz e comercializa casas.

Claro que ninguém vai mexer na sacrossanta ideia de que é moralmente defensável que o Estado imponha uma licença e depois, ao abrigo do poder que tem, imponha o roubo da propriedade de terceiros como condição para emitir essa licença, é muito mais fácil reclamar o controlo dos preços de venda e arrendamento das casas.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O império do vitimismo

O Ocidente enfrenta uma das suas mais subtis e devastadoras crises culturais: a institucionalização do vitimismo. Se outrora a civilização se erguia sobre a celebração do herói que batalha pelo seu destino, a praça pública contemporânea transformou a vulnerabilidade permanente num valioso (e perverso) capital social e político. Ser uma vítima — de injustiças reais ou de microagressões quotidianas — tornou-se um salvo-conduto moral que isenta o indivíduo do fardo mais pesado da existência: a responsabilidade individual.

Esta mentalidade opera através de uma profunda alienação psicológica e social, onde o indivíduo projecta as suas incapacidades na criação obsessiva de adversários absolutos. Vive-se na vertigem de lutas imaginárias contra inimigos ficcionados — moinhos de vento ideológicos, conspirações sistémicas ou preconceitos invisíveis —, enquanto se ignoram as ameaças reais à nossa segurança e liberdade. Esta fixação em dinâmicas de "nós contra eles" inverte o bom senso: em vez de pacificar a mente, o sujeito é treinado para ver perigo e malícia em cada interacção, alienando-se da realidade concreta.

O erro trágico desta tendência é o desmantelamento da autonomia da vontade face à adversidade. Ao gastar energias a combater inimigos imaginários e traumas do passado, reais ou inventados, abdica-se da liberdade suprema de escolher a própria atitude diante das circunstâncias. O vitimismo contemporâneo procura a inocência através da acusação perpétua do outro, muitas vezes abstracto. É uma fuga deliberada à maturidade, como que uma escolha pela paralisia confortável do ressentimento ao desconforto da resiliência.

A consequência desta armadilha psicológica reside na total abolição do perdão e da desistência da redenção, conceitos sem os quais nenhuma biografia ou civilização se pode sarar, andar em frente. Ao eternizar o papel de lesado, o indivíduo recusa perdoar os outros — fixando-os perpetuamente na categoria de carrascos — e por consequência recusa perdoar-se a si próprio, preferindo o apego mórbido à sua própria fragilidade. No entanto, o perdão é a única força capaz de quebrar o determinismo do passado e a irreversibilidade da história. Sem a coragem de perdoar o erro alheio e de redimir os próprios fracassos através do esforço transformador, o sujeito condena-se a um purgatório sem saída. A redenção exige acção; o vitimismo apenas exige audiência.

Substituir a liberdade, o perdão e o mérito pela conveniência da autocompaixão pública não expande a justiça; apenas fragmenta o tecido social em tribos em guerra por feridas auto-induzidas. O verdadeiro progresso nasce do resgate do protagonismo individual sobre o caos exterior – para isso Deus nos deu o livre-arbítrio.

Resta ao Ocidente decidir se quer continuar refém desta alienação paranóica contra moinhos de vento ou se recupera a lucidez para enfrentar os seus desafios reais, encontrando no perdão a força para se levantar sem pedir licença ao tribunal do “coitadismo” civilizacional.

Publicado também no Observador

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Agora a questão de fundo

A discussão sobre o Centro de Reprodução do Lince Ibérico arrisca-se a passar ao lado do essencial, como é habitual em questões de conservação.

Do que conheço do assunto, a decisão do ICNF é completamente errada, mas não pelas razões que têm sido invocadas.

O ICNF garante que vai continuar tudo na mesma (não, não vai, actualmente o ICNF tem uma capacidade de fazer alguma coisa com nexo e eficácia muitíssimo baixa, por questões de liderança, por questões de contexto social e pelo contexto inacreditável da administração pública que existe).

A generalidade das críticas assentam exactamente nesta falta de confiança no ICNF por parte dos principais agentes do sector e na defesa corporativa do uso dos recursos no sector da conservação, que depende, largamente, da ineficácia do ICNF e da sua permeabilidade ao lobbying.

Os mecanismos usados pelos prejudicados (as pessoas que tinham o seu ganha-pão assegurado pelo esquema de extracção de recursos ao sector que existia) é o habitual no sector.

Mobilização dos jornalistas amigos, exploração da habitual necessidade das organizações conservacionistas manterem pressão sobre a direcção institucional e política do ICNF para posteriormente estar em posição de vantagem quando for preciso discutir distribuição de recursos, apelo aos grupos de amigos internacionais e delimitação da discussão a aspectos morais e à escolha dos aspectos técnicos convenientes.

Por exemplo, o recurso aos grupos de peritos da UICN, é o habitual, já tive contacto directo com este método quando Luís Palma e Pedro Beja queriam financiar o seu projecto inútil de conservação da águia pesqueira, quando os técnicos do ICNF e seus amigos da academia não gostavam das orientações sobre a conservação dos morcegos, enfim, o habitual.

Estes grupos de peritos são grupos de amigos, de maneira geral bastante restritos (duas a três dezenas de pessoas) que se arrogam ser o farol científico do assunto e que, para usar uma terminologia de Fetussi, são autências lavandarias ideológicas, entram opiniões e sai conhecimento validado por pares.

Os argumentos são risíveis, sem qualquer fundamentação empírica, baseados em crenças de especialistas, não em informação validade empiricamente " “A reprodução de felinos destinados a serem libertados na natureza é, em muitos aspectos, muito diferente da reprodução em zoológicos”, explica.", como se não existissem muitos programas de reprodução em cativeiro com objectivos de conservação feitos em parceria com zoológicos (para não sair do tema dos gatos, é ver o que é feito na Escócia, mas existem programas do mesmo tipo em vários outros zoológicos).

É por isso que a questão central nunca aparece na discussão: neste momento, nas actuais circunstâncias, qual é a utilidade da reprodução em cativeiro de uma espécie em franca expansão e que produz umas oitocentas crias por ano na natureza (para ter termo de referência, entre 2011 e 2024 foram libertados 403 linces, ou seja, menos de 35 por ano)?

Como já escrevi muitas vezes, tenho as maiores dúvidas de que esta libertação de linces tenha tido um impacto relevante na recuperação da espécie, mas são dúvidas, não tenho problema em partir do princípio de que sim, terá sido fundamental, mas libertar 40 linces hoje quando na natureza nascem 800, serve exactamente para quê?

Assim sendo, se o Estado português tivesse uma verdadeira cultura de avaliação de cada cêntimo gasto em políticas públicas, há anos que este centro teria sido fechado e o dinheiro gasto reencaminhado para acções de conservação do solo e de invertebrados, que são muito mais relevantes, actualmente.

Um provável erro meu

No post anterior, e há anos que aqui e ali digo ou escrevo isso, escrevo que Rodrigo Serra (o coordenador desde sempre do Centro de Reprodução do Lince Ibérico) é filho de Pedro Serra, em tempos presidente das Águas de Portugal.

Pessoa que conhece muito melhor o Rodrigo que eu, garante-me que não é assim, apesar de há anos, numa conversa com Pedro Serra eu ter ficado convencido de que assim seria.

Ou eu percebi mal, e estou há anos a laborar num erro, ou há aqui qualquer coisa que me escapa.

Em qualquer caso, mesmo não sendo essa a questão essencial sobre o programa de conservação do lince e sobre o aviário de linces que existe em Silves, gostaria de assinalar aqui este meu provável erro, pedir desculpa aos envolvidos nesta história que, aparentemente, está errada. 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O lince, os contribuintes e a racionalidade social que se opõe à racionalidade epistémica

Procuro não escrever mais que um post num dia, mas este assunto anda a irritar-me profundamente.

Há anos e anos que defendo ideias diferentes sobre a conservação do lince, em Portugal, que são diferentes das que são esmagadoramente dominantes.

A minha posição é tão, tão minoritária que dificilmente estará certa, com tanta gente, e tão qualificada, a dizer coisas radicalmente diferentes das que eu digo.

Resumindo, o lince é um predador com elevada especialização na sua presa favorita, o coelho.

O coelho é uma espécie muito abundante na Península Ibérica, ao ponto de um dos seus nomes, aparentemente, estar relacionado com coelho.

Toda a gente sabe que os coelhos se reproduzem como coelhos e é uma peça chave nas cadeias tróficas peninsulares, embora não exista outro predador tão especializado como o lince.

O problema é que as populações de coelho, da mesma maneira que crescem rapidamente em condições favoráveis, arrastando para cima as populações de Lince, grandes rapinas e muitos outros predadores, são periodicamente assoladas por epizootias (é como chamamos às epidemias em populações de outros animais que não nós), chegando a ter decréscimos de 90% ou mais nas populações, como aconteceu com a mixomatose e pneumoria hemorrágica viral.

Existe evidência genética de que as populações de Lince já tiveram, no passado, outros apertos de quase extinção por causa destas quebras bruscas das populações de coelho, e foi o que aconteceu primeiro com a mixomatose e, cerca de trinta anos depois, com a pneumonia hemorrágica viral.

O lince esteve numa destas fases de ultra rarefacção na sequência da mortandade nos coelhos provocadas pela pneumonia hemorrágica viral, chegando aos menos de 200 animais no mundo (há outras espécies de linces noutros lados, mas esta que existe no SO da Península Ibérica não existe se não aqui).

Nesta altura moveram-se mundos e fundos (muitos fundos) para evitar a extinção do lince, sobretudo em Espanha, onde se concentrava a população que ainda resistia.

Foi aqui que eu divergi da esmagadora maioria dos meus amigos, colegas, conhecidos e inimigos, no que diz respeito à adopção de medidas de conservação do lince ibérico.

Para mim a prioridade seria adoptar medidas de apoio à darwiniana evolução da população de coelho, ao mesmo tempo de se geria o habitat para preparar a futura expansão do lince, nomeadamente no sentido de Portugal.

As minhas razões é que isto seria mais eficiente, mais barato e com impactos na conservação bem mais alargados (nomeadamente noutras espécies) que andar a fazer complicados e  caros programas de reprodução em cativeiro para largar animais que não tinham o que comer.

Como a incerteza destes processos é sempre grande, parecia-me sensato ter animais em cativeiro para, no caso de tudo correr mal, se iniciar então um programa de reintrodução, quando as populações de coelho recuperassem, aproximando-me dos meus colegas neste ponto, para voltar a divergir imediatamente: os programas com animais em cativeiro, e eventualmente fazer a sua reprodução para reintrodução, não precisam de estruturas dedicadas, uma espécie de aviários de linces, há jardins zoológicos em todo o mundo que fazem isto eficientemente por um décimo dos custos de ter estruturas dedicadas.

Rapidamente fui ostracizado no que diz respeito aos processos de decisão, e depois também aos de discussão, ao mesmo tempo que o processo foi adoptado pelos políticos por cumprir os critérios de visibilidade e tracção social positiva, como seria de esperar tendo gatinhos a ser salvos pela boa vontade da humanidade, devolvidos à liberdade no meio de batalhões de jornalistas.

Meti a viola no saco, sem que até hoje tenha mudado de opinião (tanto mais que uma perturbação de pequena amplitude por volta de 2011, na população de coelho, demonstrou que a população de lince reage quase imediatamente), à espera de que a próxima epizootia venha a pôr todas estas pessoas que dizem que a recuperação do lince se deve às acções de conservação, a dizer que a sua diminuição se deve à diminuição da população de coelho provocada pela doença que aparecer.

Mesmo que eu não tenha razão nenhuma e que a reprodução em cativeiro tenha tido algum papel relevante na recuperação das populações de lince (do que duvido), mesmo que não seja verdade que os programas de reprodução em cativeiro seja mais eficientemente executados em jardins zoológicos, é uma evidência a inutilidade de andar a manter aviários de linces supranumerários neste momento: os bichos reproduzem-se muito bem na natureza sem gastar dinheiro aos contribuintes.

Qual é o busílis da questão?

Quatro veterinários, seis tratadores e quatro etólogos (especialistas em comportamento animal) dependem do centro de reprodução do lince para ter ordenados, e a gestão desse centro é feito pela mesma empresa há uns 17 anos, sempre, sempre tendo como responsável a mesma pessoa, cuja competência nunca ouvi ninguém questionar (muito menos eu, a quem me faltam competências para fazer essa avaliação) e que, coincidentemente, é filho (esta informação é um erro meu, por qualquer razão que não entendo, numa conversa de rua com Pedro Serra, fiquei convencido de que teria confirmado esta informação, o que só pode ter resultado de um mal entendido meu em relação a qualquer resposta que me tenha sido dada a uma pergunta ou comentário) do então Presidente das Águas de Portugal, a holding que detinha as Águas do Algarve, quando se iniciou o financiamento desta estrutura por esta entidade.

Durante este tempo, que eu saiba, nunca houve qualquer processo aberto para a gestão desta infraestrutura pública (terá havido os habituais concursos, consultas e essas coisas a que formalmente a contratação pública obriga, mas a situação era tão tranquila e previsível, que nunca vi ninguém preocupado com a hipótese da gestão deste centro mudar).

O ICNF, que é o dono do problema e que estabeleceu recentemente mais um protocolo com as Águas do Algarve de cerca de 350 mil euros anuais para a gestão deste centro, decidiu que estava na altura de mudar a situação.

Não faço a menor ideia se a decisão está certa ou errada, não tenho qualquer relação profissional com este assunto há muitos anos, e tudo o que escrevi aqui é baseado em informação pública, mas é extraordinária a reacção do mundo da conservação, pessoas, associações, jornalistas, a gritar aqui d'el rey, que vai acabar o lince se deixarmos de largar uns dez por ano em cima duns dois mil por ano que nascem na natureza.

Espantar-me-ia se o ICNF tomasse decisões ponderadas e sensatas, porque esse não é o seu padrão actual, mas confesso que me espanta muito mais o clamor social na defesa de um processo de contratação completamente opaco, que dura há 17 anos, para a realização de uma tarefa que até pode ter sido útil num determinado momento, mas hoje é seguramente dispensável.

Se Samuel Fitussi conhecesse este assunto, seguramente acrescentaria mais um capítulo prático sobre o efeito da prevalência da racionalidade social sobre a racionalidade epistémica, no seu utilíssimo "Porque se enganam os intelectuais", que estou a ler com gosto.

Os velhos e a habitação

Comecemos pelo fim: "o problema não é gerir melhor a espiral; é travá-la".

Este é o argumento de quem vive numa zona de cheias e defende que as suas opções e acções não devem ter como objectivo ter uma relação positiva com as cheias - um dado do problema - mas sim que se deve impedir as cheias (ou os fogos, ou a inflação, ou os baixos salários, ou os lucros excessivos, as doenças, a natureza humana, o que se quiser escolher), isto é, que se deve alterar administrativamente a realidade.

Não há qualquer possibilidade do simpático comentador, com o coração cheio de fúria e boas intenções, ficar convencido com os meus argumentos, e vice-versa, porque partimos de convicções profundamente diferentes.

O simpático comentador acha que o preço de uma casa (medido pelo contrato de venda ou de arrendamento) é uma questão administrativa que depende da vontade do governo, eu acho que o preço de uma casa é o ponto de encontro entre a oferta e a procura, sendo uma peça central num sistema de informações que alimenta o conhecimento que as comunidades têm do valor de um bem ou serviço.

O simpático comentador acha, consequentemente, que se os preços são difíceis face ao rendimento, é preciso que o Estado imponha preços mais baixos, dito de outra maneira, que o Estado prejudique o vendedor a favor do comprador, eu acho que quando o preço está abaixo do que o dono da casa acha que vale a pena, deixa de haver casas à venda (ou para arrendamento), criando-se escassez.

"A habitação aparece ali menos como lugar para viver do que como activo financeiro".

O simpático comentador explica aqui a sua falácia, o que é muito útil porque existe experiência histórica mais que suficiente para demonstrar os efeitos da ideia delirante de que existe uma oposição, mesmo uma contradição, entre valor social "o lugar para viver" e valor económico, incluindo os efeitos de um bem se financeirizar.

Um dos meus irmãos viveu em Moscovo, no tempo da transição de Brejnev para Andropov, como funcionário do Estado português, o que lhe dava acesso a lojas onde havia de tudo, incluindo caviar barato (de que beneficiei bastantes vezes quando vinha a Portugal) ao ponto do meu sobrinho mais velho, nascido em Moscovo, comer caviar à colherada (é muito nutritivo, o miúdo gostava, um alimento ideal para criar crianças, resolvida a questão do preço).

É verdade que ele poderia ir às outras lojas, com preços muito mais baixos para produtos essenciais, só que tinham o problema de não ter grande coisa à venda, os preços eram tabelados de forma diferente.

A razão para o Estado soviético, que tabelava os preços de todas as lojas, ter algumas com preços mais altos (ainda assim, em alguns produtos, como o caviar, bastante mais baixos que no Ocidente) era a necessidade de divisas estrangeiras, pelo que a moeda russa não era aceite nessas lojas, eram lojas para estrangeiros.

A razão para ter lojas com preços mais baixos, era que a alimentação é essencial, portanto havia lojas em que os alimentos eram para alimentar, não era um produto financeiro, resultando em preços bastante baixos para produtos inexistentes, como é evidente, quem tinha o poder de dispor de produtos vendia-os no mercado negro, com base em sofisticados, mas profundamente ineficientes, esquemas para fugir à tabelação dos preços.

Tabelar preços, sejam de alimentos, sejam de habitação (e não me parece defensável dizer que o valor social da alimentação seja menor que o valor social da habitação, apesar de hoje pouca gente defender a aplicação à comida do modelo que defendem para controlar preços na habitação) não resolve o problema de acesso à habitação, apenas substitui o preço legal por outro mecanismo qualquer, administrativo ou de mercado negro, para controlar esse acesso, mecanismos esses que são incomparavelmente menos eficiente que o mecanismo dos preços inerente a mercados abertos.

"a subida brutal do preço das casas quase como fenómeno natural, até desejável, desde que permita aos velhos “capitalizar” património".

Sim, é mesmo isso, o preço que existe em mercados abertos (mercados perfeitos apenas existem nos livros de economia, e mesmo assim, só em alguns, nos livros de economia de Rafaela Burd Relvas, os impostos não são um dos componentes de formação do preço que será sempre pago pelo consumidor final, mas existem impostos para proprietários ou para inquilinos) é um fenómeno natural no sentido em que é o ponto de encontro entre quem quer uma coisa e quem a tem. E é importante que a subida do preço de um bem como uma casa, que corresponde objectivamente ao aumento do capital do dono da casa, possa ser usada pelo beneficiário da maneira que ele entenda que é a mais favorável para si.

O que o post comentado defendia é que as políticas públicas deveriam orientar-se no sentido de tornar o mais fácil possível a adaptação da riqueza às necessidades do seu dono o que, no caso dos donos de casas mais velhos, pode passar por trocar a casa que têm, e que não está adaptada à vida que pretendem, por uma outra situação que lhes é mais favorável, é isso que está em causa nesse post.

Como Fernando Santo escreveu, fundadamente, sobre as vantagens para os proprietários, eu escrevi sobre os muitos arrendatários que estão presos a uma renda baixa, quando a casa em que vivem já não é a melhor para a vida que pretendem.

"quem precisa de comprar que aguente o garrote de um empréstimo absurdo durante 40 anos. A espiral de preços deixa de ser problema social e passa a ser oportunidade de gestão patrimonial".

Exacto, os preços não são um problema social, são informação para vendedores e compradores tomarem as decisões que querem e podem, face ao contexto em que vivem. Decisões essas que incluem a gestão patrimonial, como acontece com o resto das coisas no nosso dia a dia.

"E depois há uma ingenuidade enorme na ideia de “vender a casa e ir viver para algo mais adaptado”. Adaptado onde? Com que comunidade? Com que rede afectiva? Há uma diferença entre mudar de casa e ser lentamente arrancado do bairro, do café, dos vizinhos, da farmácia onde te conhecem o nome. A velhice não é só uma questão logística; é também geografia emocional".

Uma velhota (as mulheres vivem mais, mas com pior qualidade de vida) presa num segundo andar sem elevador, proibida de subir escadas pelo médico, a menos que descanse três minutos em cada degrau, devem achar esplêndia, este naco de poesia barata.

Uma das características mais complicadas da velhice é que não há comunidade nenhuma, sobretudo nas grandes cidades, uns porque foram morrendo, outros porque moram longe, outros porque simplesmente perderam os laços que existiam quando trabalhavam juntos (se é para discutir poeticamente assunto sérios, ao menos que se usem coisas de qualidade).

 Mais importante, o que interessa não é a opinião de cada um de nós sobre o assunto, mas a opinião dos próprios, não se trata de deportar pessoas para libertar casas, trata-se de diminuir as dificuldades e aumentar as oportunidades para que, quem queira, o possa fazer com ganhos de qualidade de vida que sejam reconhecidos pelos próprios como tal.

Tudo o resto é paternalismo com base em poesia de má qualidade.

"Boa sorte a encontrar vagas, preços comportáveis ou respostas minimamente dignas sem listas de espera intermináveis".

O que se defende é que isso seja feito, que se dêem passos nesse sentido. Pretender que está errado fazer alguma coisa que hoje não existe, eu acho uma argumentação cómica.

"O texto fala como se ainda vivêssemos num país de instituições benevolentes e mercado moderado, quando na realidade muita da “solução” social já foi comida pela financeirização da própria velhice".

Antigamente é que era bom, só faltava isto.

"o raciocínio aceita demasiadas premissas do desastre actual: casas como activos, cidades como mercados, mobilidade forçada como racionalidade económica".

Desastre era a situação da habitação até aos anos oitenta, o que existe agora é uma situação complicada gerada por uma procura que aumentou repentinamente e uma oferta limitada por razões económicas, financeiras e administrativas.

Se deixar de se olhar para as convicções de cada um para olhar para a situação concreta das pessoas, incluindo dos velhos, talvez não fosse pior.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Erros meus má fortuna...

Desculpem-me os meus amigos benfiquistas eu pôr o pé em seara alheia: independentemente do desfecho do campeonato, tenho ideia que o Benfica tornou-se numa plataforma giratória para trafico de jogadores sobrevalorizados (e de treinadores, já agora). Neles não se nota alma ou coração, espirito do clube. Uma máquina trituradora de dinheiro, que têm a rodos, assim se tornando uma maldição.

Agarrarem-se ao tema das arbitragens como desculpa dos falhanços é meio caminho para que nada mude. Por mim estão bem assim.

A habitação e os velhos

Fernando Santo, um dia destes, explicou muito bem no Observador como a subida do valor das casas, num país em que 70% dos agregados familiares vivem em casa própria, representa uma capitalização apreciável para muita gente.

Escuso de repetir aqui o argumento, muito bem construído e bastante realista, de que o governo deveria olhar para esta poupança seriamente e desenhar políticas públicas (neste caso não se trata de anunciar programas de milhões, trata-se de perceber as virtudes, em qualidade de vida, dos velhos poderem adaptar-se à sua vida actual vendendo casas mais caras e comprando mais baratas, libertando tesouraria para o seu dia a dia e, consequentemente, remover obstáculos fiscais e outros que são incentivos negativos à mobilidade na velhice) para que mais gente se sentisse motivada a procurar ganhos de qualidade de vida transformando capital em liquidez e conforto, na velhice.

Sobra uma outra parte importante da questão da habitação na velhice, a correcção da asneira histórica criada pela legislação do arrendamento, que cheia de bons sentimentos, montou uma armadilha socialmente deprimente para o fim de vida dos arrendatários mais velhos.

Com rendas absurdamente baixas (quando se diz que o parque de habitação social é só 2%, está-se a dizer uma mentira, essa é a percentagem pela qual o Estado se responsabiliza, há uma percentagem maior, provavelmente não muito maior, em que o Estado impõe, unilateralmente, aos senhorios, a prestação de um serviço social totalmente financiado pelos proprietários) e quase impossibilidade de despejo de pessoas mais velhas, mesmo quando já não vivem nas casas que alugam, o Estado condenou milhares de velhos a ficar em casas frequentemente em más condições, por vezes com escadas que as pessoas já não podem subir frequentemente.

As pessoas não podem sair de onde estão, quaisquer que sejam as condições, porque não arranjam casas com rendas semelhantes, mas a situação em que estão é, na verdade, péssima.

O dinheiro e esforço que a sociedade faz para ter creches para toda a gente não tem qualquer correspondência no esforço que fazemos para toda a gente ter uma fim de vida com um mínimo de qualidade.

Uma das minhas tias viveu bastante anos numa casa de Misericórdia local, que ela comprou num modelo em que não podia transmitir a casa a não ser para a Misericórdia, fosse em que circunstâncias fosse, com uma sala, um quarto e uma cozinha, que lhe bastavam, integrada num complexo que tinha serviço de limpeza, alimentação e cuidados básicos pessoais, saindo de um andar em Lisboa, logo que se reformou, para viver largos anos satisfeitíssima com esta situação.

Haverá, com certeza, outros modelos, até porque nem toda a gente mantém a autonomia que a minha tia teve até aos 95 anos, ou idade semelhante, mas a verdade é que ter um programa de acolhimento sério em zonas em que os terrenos e as infraestruturas permitem uma construção muito barata, tendo como efeito secundário libertar casas em zonas altamente pressionadas e como efeito principal melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas mais velhas, não me parece que seja assim tão má ideia.

Custa dinheiro aos contribuintes?

Sim custa, mas não me parece que apoiando directamente os beneficiários e deixando à sociedade, mercado e sector social, o desenho e modelo de resposta, seja um peso astronómico, face ao peso de ter velhos presos nas suas casas e casas presas nos seus velhos.

domingo, 10 de maio de 2026

Domingo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

Palavra da salvação.

sábado, 9 de maio de 2026

"A propriedade privada é um direito fundamental?"

Pedro Tadeu é um jornalista sub-director do Diário de Notícias, tendo sido jornalista do jornal Avante durante nove anos.

No dia 7 de Outubro do ano passado apresentou o seu último livro com o título "Porque sou comunista", que não li, nem tenciono ler (da mesma forma que dificilmente leria um livro com o título "Porque acredito que a bola é quadrada"), sendo ainda hoje militante do Partido Comunista, o mesmo partido cuja suposta superioridade moral pode ser avaliada pelo comunicado que o PC agora fez a propósito da morte de Carlos Brito.

O título deste post é dele, da crónica que escreveu recentemente no Diário de Notícias.

É uma crónina interessante, não apenas pelas mesmas razões que tornam interessante o esqueleto de baleia que está na Casa da Biodiversidade, antigamente casa Andresen, no Porto.

É interessante por permitir ver como funciona uma cabeça que entende que a apropriação colectiva dos meios de produção (escusam de me incomodar com o argumento de que, hoje, os comunistas já não defendem a apropriação colectiva dos meios de produção, é possível que haja pessoas que dizem que são comunistas e não o defendam, mas isso não demonstra que não é um engano ainda chamarem-se comunistas a si próprias) é o caminho para a felicidade dos povos e, ao mesmo tempo, não contesta que a propriedade seja um direito fundamental.

O primeiro argumento é tipicamente formal: a Constituição não considera um direito fundamental o direito à propriedade (está nos direitos económicos e sociais), mas como considera direitos fundamentais tudo o que está na carta dos direitos humanos, e o direito à propriedade está lá, não é preciso mudar a constituição para que esse direito passe a estar onde sempre deveria ter estado.

O formalismo politicamente orientado é uma técnica genialmente usada pelos comunistas e afins.

Pedro Tadeu usa dessa genialidade para distinguir entre propriedade, de que fala a carta dos direitos humanos, e propriedade privada, como se na carta dos direitos de cada pessoa dizer que essa pessoa tem direito à propriedade não fosse o mesmo que reconhecer o direito à propriedade privada.

A partir desse pormenor a que atribui muita importância, desenvolve então a sua conciliação da realidade com as suas convicções políticas.

"Estamos a falar de propriedade pessoal, o tipo de propriedade através da qual um cidadão garante, para si e para os seus familiares, uma identidade histórica, meios de subsistência, conforto, divertimento, educação, cultura, férias e outros consumos de bens e serviços adequados à sociedade e ao tempo em que vive?

... direito a ser-se dono de uma casa ou do direito a ser-se investidor em dezenas de casas vazias, postas em valorização especulativa?

... direito a ser-se dono de um automóvel familiar ou do direito a explorar uma frota de carros para motoristas de TVDE?

... o direito de o dono de um restaurante trabalhar no seu negócio ou o direito de uma cadeia de hotéis, com um projeto para a área, fazer-lhe a vida negra até ele ceder numa venda forçada?

... se o dono da rede elétrica decidisse cortar a energia a toda gente, como era? Prevalecia o “direito fundamental” do proprietário da rede?

... uma visão da vida em que o privilégio de poucos afortunados é legalmente mais valorizado do que a proteção de muitos discriminados.

... o direito a ter um iate de recreio seria igual ao direito a uma habitação digna. ... até talvez desejem que o direito à propriedade privada tenha um valor jurídico disputável com o direito à vida mas, para já, ficam-se por exigir que ele seja mais protegido do que o direito ao trabalho!...

É tão suave a vida dos betinhos."

E é isto, a argumentação de uma cabeça que acaba com o desprezo moral dos que têm outro ponto de vista, evitando, cuidadosamente, discutir seriamente o que poderia ser útil: onde começa e acaba o direito à propriedade e quem estabelece esse limite em cada momento?

Não tenho nada contra as ideologias que defendem que o direito à propriedade não existe, ou que a propriedade é roubo, acho-as erradas e perigosas, mas são compreensíveis, embora partam da falácia central de Marx, a ideia de que é o trabalho que produz riqueza, descartando o valor do capital, como se o mesmo trabalho feito com uma vassoura ou feito com uma máquina de limpeza desse origem ao mesmo produto final.

Para o que me falta mesmo paciência é para esta sonsice que, essencialmente, acaba numa posição clássica em comunistas privilegiados como Pedro Tadeu: eu posso ganhar bem, comprar o que me apetece, viver muito acima do nível de vida da "senhora que ajuda lá em casa" (nunca perco uma oportunidade para usar esta formulação de Francisco Louçã para designar a sua empregada doméstica), que estou dentro do meu direito à propriedade, aliás, eu não quero acabar com a ópera, eu quero é que toda a gente possa ir à ópera, como eu, já o meu vizinho que compra o vinho nas promoções do Pingo Doce, come massa com tomate feita em casa, e compra o carro mais barato do mercado, não tem o menor direito a ter três casas, duas das quais no mercado de arrendamento, para que os filhos tenham uma sólida educação que lhes evite a vida dura que conheceu.

Para estes sonsos, o direito do vizinho a dispor da sua casa de forma economicamente racional para si não é um direito fundamental, no máximo, seria uma concessão atribuída pelo grupo de pessoas que conseguissem exercer o poder.

Ide pela sombra, que o Sol está quente.

Comunitarismo vs liberalismo

"Contra a revolução liberal dos contratos e não do aperto de mão, das propriedades privadas e não dos maninhos coletivos, das florestas de pinheiros e não dos baldios pastorícios, das cercas e não da transumância, do imposto único e não dos impostos locais, do comboio, do comércio, do lucro, da utilidade, da eficácia, enfim, contra aquilo que apelidamos à pressa de modernidade, ficou logo clara no século XIX a aliança entre o comunitarista miguelista, de um lado, e o sindicalista anarquista, do outro. Eram irmãos que odiavam a mãe, a modernidade do Estado centralizador e da economia capitalista, que pensa global e não local. Imaginem esta cena típica da revolução liberal da primeira metade do século XIX: com a conivência do Estado lisboeta, um proprietário liberal expropria um convento que produz há séculos hortaliças para a população local, numa lógica de economia circular, e transforma o terreno numa herdade exportadora de laranjas para Inglaterra; isto é uma aberração para o miguelista e depois para o anarquista; a natureza não é para explorar desta forma industrial, a terra não é um objeto ou mercadoria para ser usada pelo homem.

Como se vê, ambos eram ambientalistas, como se diz agora.

Fala-se muito de miguelismo dentro da caricatura do trono e do altar, mas o povo miguelista queria saber de outras coisas: o poder da sua terra devia estar na sua terra e não em Lisboa. É por isso que prefiro outro “ismo” para descrever esta mentalidade: é o “campanalismo”, como se diz ainda em Itália; ou seja, só as pessoas que ouviam o sino da Vila de Cima tinham o direito de opinar sobre os destinos da terra; os de Vila de Baixo já não podiam, muito menos os de Lisboa. O povo miguelista queria um modo de vida comunitário, com fornos, poços e terras comunitárias de uso comum, e não uma “propriedade privada” do devorista; queriam também um calendário marcado pelos dias santos, que eram dezenas ou centenas, o que irritava, obviamente, os liberais, obcecados com a produção e com a rotina certa todas as semanas. Não por acaso, o povo miguelista invadia cartórios e edifícios públicos para queimar os “papéis” sempre que podia; os “papéis” eram os contratos liberais que vieram rasgar séculos de comunidade através da frieza da propriedade privada que se apossou dos baldios e, como já vimos, de outro espaço comunitário: o convento, o mosteiro, as ordens religiosas, que formavam uma economia à margem do Excel do lucro. As freiras bem que perguntavam aos modernos liberais: “Mas quem é que agora vai cuidar dos lerdos e inválidos que dependem dos conventos?” Logo se vê, irmã, que o progresso não pode parar!

Os nossos miguelistas eram iguais aos adversários da revolução em França que foram massacrados na Vendeia, por exemplo. Nós também tivemos as nossas Vendeias, muito pouco exploradas pela historiografia e literatura, com a exceção clássica de Camilo Castelo Branco, que, não por acaso, foi expulso dos currículos das escolas há uns anos.

Uma geração depois, ali por 1870, o espírito comunitário, anticapitalista e anti-individualista dos comunitaristas da direita já estava presente no espírito da Comuna e das comunas que criaram o molde mental das esquerdas durante mais de um século. De resto, é curioso ver como as experiências anarquistas a sul do Tejo, no século XIX e início do século XX, tinham como utopia o modo de vida comunitário de uma aldeia miguelista, de um convento ou de uma missão jesuíta: não havia poder, propriedade ou até família no sentido clássico. É por isso que George Steiner, em “Nostalgia do Absoluto”, via o comunismo como uma nostalgia da vida comunitária e aldeã que tinha sido destruída pela modernidade liberal." (...)

Continuar a ler o artigo de Henrique Raposo no Expresso aqui

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Sobre a minha violência política

Não conheço, nem sabia quem era Ana Bárbara Pedrosa, embora tivesse ouvidos ecos sobre a boa qualidade dos seus romances.

Recentemente envolveu-se numa discussão em que defendeu uma tese abstrusa: há violência política da extrema-direita, mas não há violência política da extrema esquerda, actualmente.

Quando lhe fizeram notar que ainda recentemente tinha sido lançado um cocktail de Molotov sobre uma manifestação pacífica, meteu os pés pelas mãos e enveredou por uma argumentação contorcionista sobre apoios formais a actos violentos.

Mais tarde escreveu no Expresso uma sequela dessa discussão, em que se entretém a fazer listas selectivas de cenas, para demonstrar o que é a violência política de extrema direita, onde inclui este parágrafo:

"Desde que debati com Morgado, há menos de uma semana, já li coisas como: “Três estalos valentes na gaja e isso acabava ali mesmo”, “Ela devia abrir os olhos todos, inclusive o que não vê (o de baixo) devia levar nele até aprender”, “O voto que mais rebentou com o mundo foi o voto da mulher”, “doente mental”, “fufa do esgoto”, “personagem travestida”, “mulher macho da Mortágua”. Nisto, nem os meus filhos – de dois anos! – escaparam ao barulho. Sem motivo nenhum, sem que viessem a propósito, foram apanhados na onda do ódio de fanáticos com comentários deste tipo: “De mamas sai ao pai, estou para ver como é que amamentou duas crianças sem seios”, “Duas crianças de cabelo claro? Pensei que como woke teria filhos pretos ou islâmicos, a bem da inclusão e multiculturalismo”, “Normalmente na engenharia agrária a Vacas menos férteis são inseminadas com esperma de bois alfa. Deve ter sido o caso dela”, “Coitadas destas crianças que vão ser clientes de psiquiatras”, “A CPCJ não pode intervir? Devia...”".

Vejo muitos comentários de cavalgaduras neste parágrafo, mas não consigo ver nenhuma evidência de haver violência de extrema-direita neles, seu eu publicasse aqui muitos dos comentários que deito para o lixo no Corta-fitas, seria fácil verificar que ser-se objecto de comentários de cavalgaduras é habitual, que fazer esses comentários é uma estupidez, fazê-lo a coberto do anonimato é uma cobardia, mas não há campo político que tenha o monopólio das cavalgaduras, há em todos os campos políticos senhoras e senhores, meninos e meninas, Manuéis e Joaquinas, enfim, gente de todas as cores e feitios e medidas, pessoas que ficaram esquecidas, amigos, companheiros, camaradas que são cavalgaduras.

O que me espantou, confesso, não foi esta visão selectiva do mundo (mais tarde, ao tentar saber quem era a senhora, cujos romances passei a ter interesse em ler, por recomendação de José Eduardo Martins, fiquei a saber que era candidata do Bloco de Esquerda aqui e ali, mas, sem bem entendo esta frase confusa do texto que escreveu, da tendência social-democrata do Bloco de Esquerda: "É indiferente que eu esteja na esteira da social democracia e que se falhe, por isso, na classificação ideológica"), foi a concordância de José Eduardo Martins com as afirmações maximalistas do texto.

Por exemplo, para tentar demonstrar que não há violência na extrema esquerda, Ana Bárbara Pedrosa escreve: "não sei bem a que extrema-esquerda se refere: à minha volta, ninguém defende expropriações, redistribuição de metros cúbicos de latifúndios ou sequer ataques concertados a propriedade privada".

Ricardo Marchi ainda argumentou, no debate que eu vi, que a Europol identifica a larga maioria dos actos violentos como de extrema esquerda, embora a mortalidade seja maior na violência política da extrema direita, sugerindo que a extrema-esquerda se mobiliza violentamente mais contra a propriedade, e a extrema direita se mobiliza violentamente mais contra pessoas, mas foi inútil.

Para evitar contaminar a discussão com a aliança objectiva entre a extrema esquerda e o islamofascismo, contaminando com violência grande parte das acções dos "free palestine" (os tais que usam como slogan "globalize intifada", que é um apelo directo e claro ao assassinato de judeus em todo o mundo), fico-me pelo exemplo da Climáximo e todos esses grupelhos à volta da extinction rebelion e coisas que tais, que até fazem cursos de acção directa e desobediência civil não violenta, como se o facto da Climáximo dizer que despejar tinta em cima de uma pessoa é uma acção pacífica e não violenta a transformasse numa acção não violenta.

Não, meus caros, violência é violência, é completamente irrelevante se é praticada em nome da superioridade racial ou em nome do fim da exploração do homem pelo homem ou em nome do fim ao fóssil.

E sim, há, e continua a haver, violência de extrema esquerda, com a vossa complacência.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Que cansaço que este tipo de jornalismo me causa

"Questionada sobre os dados relativos à atividade assistencial nos dois primeiros meses do ano (que mostram uma quebra nas cirurgias e consultas hospitalares e nos centros de saúde em relação ao período homólogo de 2025), a ministra da Saúde defendeu “que os números indicam que o SNS não está a falhar”.

“Houve uma diminuição da atividade assistencial cirúrgica médica”, admitiu Ana Paula Martins, explicando a evolução com a gripe e o inverno. “A razão pela qual temos esta descida foi o pico da gripe e o inverno rigoroso”, disse a ministra, não referindo que, neste inverno, o pico da gripe foi atingido ainda em dezembro".

Apresento-vos Tiago Caeiro, o senhor que escreve sobre saúde no Observador.

E quando escreve, já sei o sentido geral do que escreve, porque se caracteriza por este "não referindo que, neste inverno, o pico da gripe foi atingido ainda em dezembro" com que passa instantaneamente de jornalista a agente político que desmente a ministra de quem não gosta.

O que verdadeiramente me cansa é a sonsice, porque o senhor continua: "“Os impactos do inverno têm efeito durante mais algumas semanas, temos internamentos complexos. Neste período, a pressão assistencial aumentou”, disse a ministra, ressalvando que, “relativamente a 2023, todos os indicadores assistenciais melhoraram”".

Ou seja, a frase idiota que transforma o jornalista em agente político é completamente irrelevante, está implícito nas citações que faz da ministra que a ministra não só não está a esconder que o pico da gripe foi em Dezembro, como está a explicar que, mesmo sendo assim, os efeitos da gripe e do Inverno este ano foram maiores nos dois primeiros meses, que em 2025.

A ministra pode estar a aldrabar, isso eu não sei, que não fui verificar os dados, mas Tiago Caeiro também não foi, ou se foi, esqueceu-se de nos informar a que conclusões chegou (a minha convicção é que foi ver os dados, viu que a ministra tinha razão e, por isso, calou-se, que dar razão à ministra é contra a sua religião).

terça-feira, 5 de maio de 2026

Convergências

Convergência Longa.jpg

O boneco que me mandaram ontem é sobre convergência entre Portugal e a Europa dos quinze, desde 1820.

Não, não fomos sempre um país pobre, há alturas em que ficamos pobres (em relação padrão que se escolher, convém escolher um padrão que sirva para alguma coisa, neste caso a Europa dos 15, no post anterior um conjunto de países cujos critérios de escolha estão explícitos no artigo de onde vem o gráfico) e há alturas em que nos aproximamos dos mais ricos.

A discussão que interessa é a que nos ajude a perceber o que nos fez andar num sentido ou noutro, em cada momento.

Discussões que não interessam são as que martelam a realidade para caber nos nossos preconceitos.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Ignorância minha

Neste post, eu escrevia: "A história económica do impacto do 25 de Abril no país, e em especial os efeitos da destruição de capital promovida activamente pelo PC, pela extrema esquerda, pelo MFA posterior a Setembro de 1974 e por grande parte do Partido Socialista, está por fazer, o que é pena".


Era só ignorância minha, Nuno Palma fez uma referência a este artigo, cuja leitura aconselho (há uma parte mais técnica lá para o meio que é academicamente relevante, mas não é essencial para as conclusões).


convergência.jpg


Este gráfico é do artigo, mas a informação que tem é mais ou menos conhecida (nas redacções dos jornais é particularmente desconhecida, mas todos sabemos como é difícil entrar informação nas redacções dos jornais, hoje em dia).


Mais interessante, muito mais interessante, é o esforço para destrinçar o que são problemas decorrentes do contexto geral provocado pelo choque petrolífero de 1973, e acontecimentos globais dessa altura, do que são os efeitos do 25 de Abril, muito resumidos nesta citação: "The effects were felt in the short-term, but also in the long-term, thanks to capital flight and a labor shock. Both affected the factor mix of the economy negatively, putting it on a lower growth path than what would have happened without the revolution and the instability that followed. The socioeconomic events associated with the revolution were also responsible for a more severe current account crisis than the one that would have resulted from the impact merely of the international crisis, something that made the recovery more difficult. A dilemma for the country’ policymakers was created, as they had to decide between two opposing objectives: returning to growth or rebalancing the economy externally. This means that the economy's external constraint posed limits to its performance: attempts at kickstarting growth brought external imbalance; attempts at correcting such imbalance slowed down growth. This policy trade-off plagued the Portuguese economy for a full decade".


Esperar que um artigo académico deste tipo (não confundir com opiniões avulso ou com defesa acéfalas deste ou daquele regime) tenha algum efeito nas redacções dos jornais ou na programação das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril é, seguramente, sinal de desfasamento em relação à realidade.

domingo, 3 de maio de 2026

O mundo não é, nem nunca foi, a preto e branco

Para preencher tempo, vi o filme "os três da vida airada", na RTP Memória.


É o que se espera de um filme de 1952, de Perdigão Queiroga, manifestamente apologético para o regime, com uma evidente opção por mostrar a Lisboa que estava a nascer pela mão do Estado Novo, incluindo cenas no Parque Eduardo VII e entrada da Estufa Fria, Belém, Alvalade, muito Saldanha (em grande parte, passa-se no Monumental, que tinha sido inaugurado no ano anterior, sendo um dos actores principais Vasco Morgado, que o tinha alugado, parecendo-me que parte da intenção do filme era mesmo fazer propaganda das revistas que Vasco Morgado produzia para o Monumental) e o aeroporto de Lisboa (que tinha então dez anos e para onde os actores principais se dirigem de autocarro, para ir à esplanada que havia sobre a pista de aviação, sendo a coisa mais divertida do filme, para mim, o pedido que fazem ao criado de mesa: dois copos de ovomaltime com chantilly).


Nada disto me faria escrever um post, mas reparei que Manuel da Fonseca era um dos co-autores do guião, para além de ter escrito dos diálogos do filme.


Tive dúvidas de que fosse mesmo "o" Manuel da Fonseca, um dos grandes escritores neo-realistas portugueses e membro do Partido Comunista, de maneira que fui verificar e é mesmo.


Nada disto diminui o facto de Manuel da Fonseca ter estado preso (uns bons anos mais tarde), nem de existir censura (um dos maiores efeitos da existência de censura não é o impedimento a que se leiam coisas já escritas, é mesmo o efeito que tem naquilo que se escreve, é evidente que Manuel da Fonseca, pensasse o que pensasse do regime, e com certeza não pensava nada de favorável, poderia até pôr um dos actores a dizer que "isto está cada vez pior", mas fá-lo-ia sempre com a ambiguidade que a frase tem no filme, ninguém escreve para se opôr a uma censura, escreve-se para tornear a censura), mas o facto é que Manuel da Fonseca é co-autor do guião e escreve os diálogos do filme, e que o regime não viu nisso risco maior (com certeza que terá andado de lupa a ler os diálogos, antes do filme ser aprovado pela censura).


O que me interessa é mesmo fazer notar que o mundo não é a preto e branco.

Domingo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito que vou preparar-vos um lugar? Quando Eu for preparar-vos um lugar, virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?». Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». Disse-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta». Respondeu-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai. Como podes tu dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio; mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras. Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará obras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai».

Palavra da salvação.

A população e o fundo soberano

 Dando uma vista de olhos pelo que se vai publicando dos meios mais formais aos mais informais, dois assuntos vão aparecendo nestes dias: o ...