quinta-feira, 30 de julho de 2026

O saudosismo ou a insegurança

Regressei, anteontem, de uma estadia de uma semana na Sérvia. Foi o tempo bastante para conhecer e conviver com gente diversa, sobretudo de Belgrado, a quem, um a um, ia pedindo licença para perguntar - o que prefere: este seu País ou a velha Jugoslávia de Tito?

Espantosamente, de modo quase unânime, os inquiridos pronunciaram-se saudosamente por esse Estado soberano (e autocrático), um artifício que conglobou os actuais - Croácia, Sérvia, Bósnia, Montenegro, Macedónia e Kosovo (este ainda não reconhecido pelos seus vizinhos). Insistindo eu em saber porquê, por que razões a velha Jugoslávia, de portas fechadas à liberdade partidária e religiosa, à livre expressão do pensamento, se lhes assemelhava melhor solução do que estes Estados soberanos e com identidade própria (a quantos níveis!) - laconicamente, a resposta foi sempre a mesma: «Eramos um País grande. A gente não queria saber de política, a vida era segura e seguros eram o pão e o emprego». Assim mesmo, sem tirar nem pôr.

E assim mesmo me vi transportado para a salazarista II República. Para a veneração que captei, em gerações mais velhas do que a minha, pelo Salazar que construíra estradas e escolas e nos livrara da Guerra Mundial. Que levantara um País destruido por cerca de 60 Governos nos 16 anos da I República.

Feitas as contas, há incontornáveis parecenças. Tito, comunista, atou estilhaços dos velhos Impérios Otomano e Austro-Hungaro e constituiu um Estado governado pela sua mão-de-ferro. Salazar, conservador, pegou num País sem rumo, desnorteado e pobre, deu-lhe algum bem estar e qui-lo sempre um império espalhado pelo mundo. Somente - no primeiro caso, Tito estava do lado certo da barricada do meado do século passado; e Salazar, no seu aviltado oposto.

Daí os seus medos, aliás justificados: a ameaça e a propaganda comunista, num mundo que se sovietizava por toda a parte. Sabendo nós que à militância comunista não interessava tanto a justiça e a benventurança do povo (para não ir mais longe, recordo apenas os assassinatos de alguns do PCP perpetrados pelos seus camaradas, e quantas denúncias de quem "saísse da linha"), tal não interessava tanto, dizia, quanto a criação de mais um satélite da URSS, - fácil e merecido será enaltecer o seu trabalho de formiguinhas na Grande Lisboa e no Alentejo; e o que veio depois.

Por isso a II República caiu: não por ser autocrática, mas por ser autocrática de direita. E - acima de tudo - por insistir em manter um império colonial, ao longo de 13 anos de guerra para onde os portugueses, como é natural, não queriam que os seus filhos fossem combater.

É que, morto Tito, também a sua manta de retalhos se desfez, num "25 de Abril" (deles) complicado por motivos étnicos e religiosos e de extrema sanguinolência. Para "jugoslavos" e portugueses tinham acabado os tempos de pão certo e trabalho garantido. Vieram as independências, as democracias, mas, -  explicaram-me - o presidente sérvio paga a croatas para se declararem residentes na Sérvia e votarem nele; e o custo de vida não cessa de crescer, a corrupção instalou-se em todos os cantinhos...

Pois por cá também. O saudosismo salazarista nunca como agora se manifestou tanto e tão acintosamente. O que nos reservará a inevitável IV República? 

6 comentários:

  1. Uma semana na Sérvia e muita falta de "background". A Sérvia era dominante na ex-Jugoslávia e explorava as outras repúblicas o que permitia aos sérvios viver melhor. As queixas de que agora se vive pior são, muito mais do que no caso português com as colónias, uma consequência da perda de territórios subalternizados e explorados na federação.
    Reconheço contudo que, em relação à Croácia, cristã e pró-alemã (lutaram por Carlos V) na Guerra dos Trinta Anos) a Sérvia é ortodoxa e pró-russa, quadro que, na actual conjuntura, também não é favorável à economia.

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    1. Dignou-se reconhecer qualquer coisa, vá lá!
      A propósito: os ortodoxos não são também cristãos?

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  2. Mal ou bem há outras diferenças
    A Jugoslávia, ao contrário dos países do Pacto, tinha liberdade para viajar, por exemplo.
    Portugal nunca levou com umas bombas, como a Sérvia. Nem perdeu território.
    E por mau que seja a Nação, ainda está uns patamares acima da Sérvia em termos de corrupção.

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  3. Concordo com tudo o que diz no texto, excepto a dúvida inclusa no último parágrafo.

    Creio que tal como está a situação, ainda o melhor será aceitar as coisas como estão, e ir melhorando onde for possível segundo as disponibilidades, recursos e possibilidades o permitirem.

    Sem esquecer que melhor é devagar e bem, que rápido e mal







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  4. A Sérvia era a nação dominante na Jugoslávia Comunista, não admira que sintam alguma saudade por esse domínio.

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  5. Entretanto, a pressão financeira continua a aumentar de forma intensamente suave e o governo já aproveitou para lançar uma taxa de 33% sobre os lucros extraordinários das petrolíferas. Mais uma medida verdadeiramente socialista.

    Os habituais incêndios de Verão continuam.

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