Não estou nada de acordo com essa comparação, é verdade que os dois estão muito atentos à pequena política, mas Costa entendia mesmo toda a política como sendo a pequena política, nada mais que isso, Montenegro reconhece a necessidade da pequena política para aceder e conservar o poder de fazer algumas coisas melhorar.
Por isso os governos de Costa eram governos de ilusionistas que não queriam ser outra coisa, os governos de Montenegro são uma coligação entre uma ala autárquico/ partidária e uma ala reformista.
Neste sentido, Montenegro é mais parecido com Guterres que com Costa, os governos de Guterres eram uma coligação entre independentes que foi recrutar aos Estados Gerais, rodeados de controladores partidários, de maneira geral, jovens turcos como Vara, Sócrates, Seguro e outras promessas partidárias que enchiam as Secretarias de Estado dos ministérios em que se considerou útil pôr uma estrela independente (nesse tempo, por exemplo, Elisa Ferreira era uma independente com fama de proximidade ao cavaquismo).
Noutros sentidos, Guterres era muito diferente de Montenegro, Guterres apoiava-se fortemente num grão-vizir, Jorge Coelho, e não tinha força ou vontade de contrariar a sua base partidária de apoio (levou estas características para a ONU, onde se limita a reproduzir o que não incomoda os seus eleitores), enquanto Montenegro se esforça por manter um controlo bem visível sobre o partido.
Por mim, talvez preferisse dez outros primeiros-ministros, menos preocupados com a eleição seguinte ou com o dia seguinte da não eleição, mas a democracia representativa é isto, a escolha entre os que estão, não entre os que gostaríamos que se apresentassem.
Montenegro sabe há muito (viu isso acontecer no tempo da troica e depois) que tentar contrariar o rebanho jornalístico "é um esforço inútil, um vôo cego a nada" e, se tivesse dúvidas, o caso Spinumviva veio lembrar-lhe que faça-se o que se fizer, explique-se o que se explicar, a generalidade da imprensa vai continuar a fazer perguntas retóricas e não retóricas (ontem não tinham conta os que achavam que Luís Neves não tem o direito de responder a acusações no tempo que quer, e não no tempo dos jornalistas).
Paulatinamente, fomos todos aceitando que quem é acusado é que tem de se explicar, não é quem acusa que tem de demonstrar coisa nenhuma, se for jornalista, basta repetir as mesmas coisas vezes sem conta, até que um dia sejam verdade (a SIC, contra toda a evidência factual, continuava ontem a informar que o caos nos exames continua, só para dar um exemplo).
Nem perdi tempo com a novela de Luís Neves, para mim, basta-me um director da Polícia Judiciária não saber que não pode (poder, pode, até nem é ilegal, mas não se faz) contratar para serviços pessoais a um fornecedor de serviços que trabalha para a organização que dirige, para ficar informado sobre a sua concepção de serviço público, manifestamente diferente da minha.
Salvaguardadas as devidas distâncias (Luís Neves fez uma coisa inaceitável para mim, Montenegro fez opções que eu não faria), o facto de eu não fazer coisas que Montenegro fez, como manter a actividade de uma empresa familiar transmitindo a propriedade dentro da família, não me faz fazer-lhe acusações graves sobre as quais não tenho o menor indício.
O conflito de interesses no caso de Luís Neves é evidente, o conflito de interesses no caso de Montenegro é muito mais discutível, mas existir um conflito de interesses pode exigir que seja terminado, não me permite fazer acusações de que houve decisões inaceitáveis tomadas.
Eu tenho muitas críticas a fazer ao governo de Montenegro, já as tenho feito até no caso dos ministros da facção autárquico/ partidária, mas não se prendem com o juízo moral sobre cada um dos seus membros ou do primeiro-ministro em concreto, o que me incomoda é mesmo que as mudanças no sector fundamental da justiça se arrastem tempo demais (sim, eu sei, até foram agora tomadas umas medidas no sentido certo, mas é pouco, muito pouco), não tenham a dinâmica que têm as mudanças na Saúde, Educação, Segurança Social e Trabalho, ou mesmo nas Finanças.
Isso sim, é uma crítica justa ao governo que tenho pena que não motive a oposição (a pirotecnica retórica do Chega não é crítica a coisa nenhuma, é um festival de fogo de artifício) e muito menos a imprensa.
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