quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sobre o governo

Há muita gente que compara Montenegro a Costa, no sentido que os dois se dedicam muito à pequena política e pouco a tentar resolver coisas relevantes.
Não estou nada de acordo com essa comparação, é verdade que os dois estão muito atentos à pequena política, mas Costa entendia mesmo toda a política como sendo a pequena política, nada mais que isso, Montenegro reconhece a necessidade da pequena política para aceder e conservar o poder de fazer algumas coisas melhorar.
Por isso os governos de Costa eram governos de ilusionistas que não queriam ser outra coisa, os governos de Montenegro são uma coligação entre uma ala autárquico/ partidária e uma ala reformista.
Neste sentido, Montenegro é mais parecido com Guterres que com Costa, os governos de Guterres eram uma coligação entre independentes que foi recrutar aos Estados Gerais, rodeados de controladores partidários, de maneira geral, jovens turcos como Vara, Sócrates, Seguro e outras promessas partidárias que enchiam as Secretarias de Estado dos ministérios em que se considerou útil pôr uma estrela independente (nesse tempo, por exemplo, Elisa Ferreira era uma independente com fama de proximidade ao cavaquismo).
Noutros sentidos, Guterres era muito diferente de Montenegro, Guterres apoiava-se fortemente num grão-vizir, Jorge Coelho, e não tinha força ou vontade de contrariar a sua base partidária de apoio (levou estas características para a ONU, onde se limita a reproduzir o que não incomoda os seus eleitores), enquanto Montenegro se esforça por manter um controlo bem visível sobre o partido.
Por mim, talvez preferisse dez outros primeiros-ministros, menos preocupados com a eleição seguinte ou com o dia seguinte da não eleição, mas a democracia representativa é isto, a escolha entre os que estão, não entre os que gostaríamos que se apresentassem.
Montenegro sabe há muito (viu isso acontecer no tempo da troica e depois) que tentar contrariar o rebanho jornalístico "é um esforço inútil, um vôo cego a nada" e, se tivesse dúvidas, o caso Spinumviva veio lembrar-lhe que faça-se o que se fizer, explique-se o que se explicar, a generalidade da imprensa vai continuar a fazer perguntas retóricas e não retóricas (ontem não tinham conta os que achavam que Luís Neves não tem o direito de responder a acusações no tempo que quer, e não no tempo dos jornalistas).
Paulatinamente, fomos todos aceitando que quem é acusado é que tem de se explicar, não é quem acusa que tem de demonstrar coisa nenhuma, se for jornalista, basta repetir as mesmas coisas vezes sem conta, até que um dia sejam verdade (a SIC, contra toda a evidência factual, continuava ontem a informar que o caos nos exames continua, só para dar um exemplo).
Nem perdi tempo com a novela de Luís Neves, para mim, basta-me um director da Polícia Judiciária não saber que não pode (poder, pode, até nem é ilegal, mas não se faz) contratar para serviços pessoais a um fornecedor de serviços que trabalha para a organização que dirige, para ficar informado sobre a sua concepção de serviço público, manifestamente diferente da minha.
Salvaguardadas as devidas distâncias (Luís Neves fez uma coisa inaceitável para mim, Montenegro fez opções que eu não faria), o facto de eu não fazer coisas que Montenegro fez, como manter a actividade de uma empresa familiar transmitindo a propriedade dentro da família, não me faz fazer-lhe acusações graves sobre as quais não tenho o menor indício.
O conflito de interesses no caso de Luís Neves é evidente, o conflito de interesses no caso de Montenegro é muito mais discutível, mas existir um conflito de interesses pode exigir que seja terminado, não me permite fazer acusações de que houve decisões inaceitáveis tomadas.
Eu tenho muitas críticas a fazer ao governo de Montenegro, já as tenho feito até no caso dos ministros da facção autárquico/ partidária, mas não se prendem com o juízo moral sobre cada um dos seus membros ou do primeiro-ministro em concreto, o que me incomoda é mesmo que as mudanças no sector fundamental da justiça se arrastem tempo demais (sim, eu sei, até foram agora tomadas umas medidas no sentido certo, mas é pouco, muito pouco), não tenham a dinâmica que têm as mudanças na Saúde, Educação, Segurança Social e Trabalho, ou mesmo nas Finanças.
Isso sim, é uma crítica justa ao governo que tenho pena que não motive a oposição (a pirotecnica retórica do Chega não é crítica a coisa nenhuma, é um festival de fogo de artifício) e muito menos a imprensa.

20 comentários:

  1. Que mudanças nos sectores da Saúde, Educação, Segurança Social e Trabalho, ou mesmo nas Finanças?
    E, já agora, quais os resultados?

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  2. Posts socialistas direitolas da treta, beatismo da aldeia, 3 pastorinhos, assuntos de nada...este corta fitas é bem o exemplo do nada que é o orgulho dos tugalhões da terriola e assim será eternamente. E aquele Observador socialista direitolas da treta que os jornalixotos passam a vida a dizer Faxismo/ditadura com assuntos de nada. Os verdadeiros problemas da terriola nunca ninguem na terriola sequer os aflorou...donde vem tanto guitos para poderem aparvalhar assim?

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    1. Caro Anónimo 30Jul 23:50

      Porque não começas tu por aflorar "os verdadeiros problemas da terreola" em vez de muito cómoda e parvamente, bacorar ??




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  3. A diferença entre os governos de António Costa e Luís Montenegro estará mesmo na pequena política. O primeiro fazia-a com recurso ao suporte e serviço à extrema esquerda e seus apaniguados do jornalismo. Montenegro fá-la com suporte no dualismo dos despojos do poder.

    No fim de contas tudo segue idêntico: um país passivo ou em corrosão, sem estratégia e projecto colectivo de desenvolvimento.

    Carneiro

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  4. Lá vem o branqueamento das moscambilhas muito comum quando se trata dos seres venerados.
    Mas factos são factos.
    LM foi avençado quando não o podia ser para além de situações que ainda hoje andam em investigação.

    LN praticou uma serie de irregularidades a titulo pessoal e profissional que atendendo aos cargos que ocupou e ocupa até poderão eventualmente ter enquadramento criminal.
    Essas situações de ambos são tidas em conta, ou não, conforme a ideologia por cada um professada, como claramente está demonstrado.

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    1. Luís Montenegro foi avençado enquanto PM. Foi esse facto que nos levou a eleições.
      Lembra-se da Spinumviva, empresa para gerir o património imobiliário herdado mas que acabou a revelar-se uma empresa de serviços que ninguém conhece
      Deixe-me acrescentar: a forma como Luís Montenegro justificou a empresa usando os filhos foi reveladora do seu carácter. Ou da falta dele

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    2. É falso que Luís Montenegro tenha sido avençado enquanto primeiro-ministro

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    3. E é falso que, na primeira vez que falou no assunto, não tenha explicado extensa e pormenorizadamente o que a empresa fazia e como, estás na gravações da Assembleia da República, a descrição que faz dessa intervenção é totalmente falsa.

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    4. Em fevereiro de 2025, quando o expresso noticiou o caso, a Spinumviva (ou seja LM) recebia uma avença da Solverde.

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    5. Foi demasiado pormenorizado. Lá isso foi. Terrenos em Rabal e o diabo a quatro.... Só não disse o essencial: a Spinumviva fazia trabalhos (quais) sem faturação, com honorários demasiado elevados e de forma estranha.

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    6. É falso que Montenegro recebesse uma avença da Solverde em Fevereiro de 2025.
      A empresa Spinumviva, de que Montenegro se tinha desvinculado, mas que era de familiares seus, recebeu, sob a forma de avença, por trabalhos feitos para a Solverde. Nunca a Spinumviva pagou um tostão a Montenegro nessa altura, logo, é completamente falso que Montenegro estivesse a receber uma avença da Solverde (como o Expresso bem sabia, Montenegro tinha explicado isso tudo, apenas não tinha identificado o cliente da Spimunviva).

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    7. É falso que Montenegro não tenha explicado a facturação da Spinumviva pormenorizadamente, apenas não indicando os nomes dos clientes. É falso que Montenegro não tenha identificado que trabalhos eram esses e é falso que tivessem sido cobrados por preços acima do mercado.

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    8. Exactamente
      Empresa líder de mercado na sua área, paga a preço de mercado, só no Portugal rural é caso.

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  5. PSDois , o Partido supostamente reformista em que as reformas que supostamente faz quase nunca se notam os efeitos.

    "Se vogliamo che tutto rimanga com'è, bisogna che tutto cambi."

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  6. Excelente análise, assertiva e factual.
    Se há critica a fazer, é este Governo não ser liberal o suficiente. Precisamos de menos Estado. Primeiro passo seria equiparar FP ao sector privado, todos defenderiam essa reforma estrutural.

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  7. Costa, com 8 anos de governação, em aliança com a extrema esquerda e depois com maioria absoluta, deixou o país absolutamente em cacos.
    Montenegro sem maioria ou aliados e contra profetas da direita e umas putas virtuosas armadas em junta letras, tem andado a tentar colar os cacos, tarefa impossível nas condições actuais. Admiro e agradeço, a sua disponibilidade e paciência, mas não vejo, que haja condições para conseguir milagres.

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  8. Discordo de V.Exa da sua apreciação. Costa foi o pior governante em todas as pastas que ocupou. Quanto a Luís Neves, é fácil acusar, a imprensa e opositores andam atrás de pintelhos.
    O que dizer de um homem com 30 anos de serviços, que tem um carro velho, paga empréstimos a bancos de casa e terrenos, faz obras durante 10 fins de semana no valor de 23.000 €? NADA. A terra no Alentejo está às moscas.
    Eu e meus amigos aprendemos a nadar num tanque grande que regava um laranjal.
    Eu por duas vezes como administrador do condomínio me servi aquando das obras. Além da oportunidade há falta de mão-obra.

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    1. E está tudo dito. E muito bem dito, aliás



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  9. Perguntar não ofende


    Porque nunca há mais incêndios do que meios para combate-los ??




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