quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A última palavra de Guterres

O nosso Guterres despediu-se ontem do cargo de Secretário-Geral da ONU. Aquando, justamente, o mundo atravessa um dos seus maiores períodos de convulsão. Diria até, já nos preliminares de uma guerra global, que há de ser tão diferente da II GG quanto esta foi da primeira - fazendo os necessários descontos e considerando as incalculáveis e aceleradas diferenças que marcam hoje a vida no planeta e nos seus habitantes.

Guterres é, sempre foi, um utopista. Exemplo disso é a sua militância no PS, ao qual (ponho a cabeça no cepo...) jamais voltará. E é um homem bom, conquanto fale um inglês de última classe. Creio, acreditou na influência que poderia exercer para pacificar os ânimos dos povos, e assim ficar para a História Universal, na sua dita utopia.

Enganou-se. Não tinha percebido que o "honroso" lugar em que foi calçado nada vale. É ver os seus antecessores - por ordem decrescente na linha de sucessão, Ki-moon (Coreia do Sul), Kofi Annan (Gana), Boutros-Ghali (Egipto), Perez de Cuéllar (Peru) e uma sequência de nacionais de países neutrais ou pacificamente nórdicos. Mas é a gente que manda quem lhe atribuiu o seu distinto cargo, um modo tosco de disfarçar o domínio sobre todos nós. E quem manda são os Estados (como é do conhecimento geral) supostamente com o poder belicista - por enquanto os EUA, a Rússia, o Reino Unido, a França e a China, os principais membros do seu Conselho de Segurança. Friso: por enquanto...

Mas jamais Portugal almejará a esse poder. Como os demais (terceiro-mundistas) onde vão buscar secretários-gerais que servem apenas para alevantar o ego das respectivas nacionalidades. Uma medalha é sempre uma medalha!, e adormece as realidades.

Ao longo de dez anos, o nosso bom Guterres fez nada. Rigorosamente nada. Até o seu parlapié anglais o prejudicou. Mas saiu muito bem, apontando claramente (no tal anglais...) todas as chagas que nos maceram. E vou servir-me de um resumo publicado no JN de hoje para as enunciar:

«O Direito Internacional foi descartado. As desigualdades intensificaram-se. A confiança desgastou-se. A crise climática passou de um alerta longíquo para uma realidade diária. E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que apanhou de surpresa até mesmo aqueles que a criaram».

Foi um happy end (ápi ende). Talvez nenhum dos seus antecessores, acima mencionados, tenha ido embora tão bem. No que tange a nós, europeus, espero haja sido também um sinal de alerta, em nome da perseverança e defesa do nosso velho continente.


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