sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Naufrágio das Ilusões

O Ocidente escolheu a cegueira voluntária. Durante décadas, embalado pelo entorpecimento da globalização e pelo mito do livre-trânsito universal, convenceu-se de que as fronteiras eram anacronismos. Linhas obsoletas no mapa. Quem ousasse levantar a voz para estalar o verniz desse idílio utópico era prontamente silenciado, empurrado para a fogueira dos epítetos: nacionalista, supremacista, nativista, enfim, um pária.

Na origem do fenómeno, sabemo-lo bem, estava uma crescente cratera demográfica no coração da Europa – o mito do “imparável” crescimento económico estava comprometido a prazo. O problema é que, à falta de berços, respondeu-se com a erosão da coesão social. Um cosmopolitismo burguês e de salão dedicou-se a negar o óbvio: que a identidade comunitária e a segurança colectiva são o oxigénio de qualquer civilização. Quem tentou defender o equilíbrio, a justa medida e o controlo rigoroso associado a uma integração digna dos forasteiros, viu-se esmagado no centro de uma tenaz impiedosa. De um lado e do outro, os extremos populistas alimentam-se mutuamente desta fogueira, cegos pelo sectarismo.

A realidade, contudo, tem uma forma violenta de cobrar as facturas da arrogância. As fronteiras não desapareceram; regressaram com a força de um choque tectónico — talvez tarde demais para salvaguardar o nosso modo de vida. Regressam da pior forma possível. O vazio deixado pela ausência de regras foi preenchido pela ameaça de caos. O maior desafio das democracias ocidentais bate-nos agora à porta.

Sob o pretexto da solidariedade, alimentou-se um ciclo vicioso de estagnação económica e empobrecimento – a luta de classes é chão fértil que ressuscita a velha esquerda. Tornou-se mais cómodo, e infinitamente mais barato, importar mão-de-obra precária do que investir na produtividade, na inovação e na valorização real do trabalho. O elevador social encravou. Na esteira desta política de portas escancaradas, os pilares do Estado social — a saúde pública em agonia, as escolas sufocadas, o mercado de habitação em colapso — começaram a ceder. Onde não há limites, não há sustentabilidade.

O ponto de ruptura não é uma projecção para o futuro. Está a acontecer agora. É o que as imagens brutais de Ceuta nos esfregam na cara, sem anestesia.

A maior perversão desta cegueira ideológica é o desastre humanitário que ela própria financia. Ao sinalizar ao mundo que não existem barreiras, a Europa tornou-se a maior cúmplice das redes de tráfico humano. O rasto de morte estende-se pelo Canal da Mancha, flutua nas águas do Mediterrâneo e engorda as máfias que lucram com o desespero alheio. O colapso das políticas europeias de imigração é absoluto.

Quando uma decisão judicial em Espanha sinaliza, na prática, um "bar aberto" à imigração clandestina em plena fronteira marítima, o resultado imediato mede-se em vidas humanas: até agora, cinquenta jovens marroquinos morreram afogados, na tentativa desesperada de alcançar Ceuta a nado. Cinquenta cadáveres que são o preço real da nossa negligência moral.

Se este horror não for o grito de alerta que desperte as consciências para medidas radicais, firmes e imediatas, nada mais o fará. A tendência pode já ser irreversível. Uma coisa é matematicamente certa: o Outono da nossa civilização começou, e os tempos que se avizinham serão de uma dureza implacável.

A quem pode interessar tamanha desconstrução?

1 comentário:

  1. Em verdade a desconstrução não interessa.

    Mas o mais triste é que á Esquerda, fina e bem pensante, nem lhes passou pela cabeça, que a coisa podia descanbar e dar para o torto.

    Ainda ao outro dia fiquei espantado com a quantidade de grávidas de aspecto indiano na sala.

    Digam o que quiserem mas há qualquer coisa nisto tudo que não bate certo



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