O Ocidente escolheu a cegueira voluntária. Durante décadas, embalado pelo entorpecimento da globalização e pelo mito do livre-trânsito universal, convenceu-se de que as fronteiras eram anacronismos. Linhas obsoletas no mapa. Quem ousasse levantar a voz para estalar o verniz desse idílio utópico era prontamente silenciado, empurrado para a fogueira dos epítetos: nacionalista, supremacista, nativista, enfim, um pária.
Na origem do fenómeno, sabemo-lo bem, estava uma crescente
cratera demográfica no coração da Europa – o mito do “imparável” crescimento
económico estava comprometido a prazo. O problema é que, à falta de berços,
respondeu-se com a erosão da coesão social. Um cosmopolitismo burguês e de
salão dedicou-se a negar o óbvio: que a identidade comunitária e a segurança
colectiva são o oxigénio de qualquer civilização. Quem tentou defender o
equilíbrio, a justa medida e o controlo rigoroso associado a uma integração
digna dos forasteiros, viu-se esmagado no centro de uma tenaz impiedosa. De um
lado e do outro, os extremos populistas alimentam-se mutuamente desta fogueira,
cegos pelo sectarismo.
A realidade, contudo, tem uma forma violenta de cobrar as
facturas da arrogância. As fronteiras não desapareceram; regressaram com a
força de um choque tectónico — talvez tarde demais para salvaguardar o nosso
modo de vida. Regressam da pior forma possível. O vazio deixado pela ausência
de regras foi preenchido pela ameaça de caos. O maior desafio das democracias
ocidentais bate-nos agora à porta.
Sob o pretexto da solidariedade, alimentou-se um ciclo
vicioso de estagnação económica e empobrecimento – a luta de classes é chão fértil
que ressuscita a velha esquerda. Tornou-se mais cómodo, e infinitamente mais
barato, importar mão-de-obra precária do que investir na produtividade, na
inovação e na valorização real do trabalho. O elevador social encravou. Na
esteira desta política de portas escancaradas, os pilares do Estado social — a
saúde pública em agonia, as escolas sufocadas, o mercado de habitação em
colapso — começaram a ceder. Onde não há limites, não há sustentabilidade.
O ponto de ruptura não é uma projecção para o futuro. Está a
acontecer agora. É o que as imagens brutais de Ceuta nos esfregam na cara, sem
anestesia.
A maior perversão desta cegueira ideológica é o desastre
humanitário que ela própria financia. Ao sinalizar ao mundo que não existem
barreiras, a Europa tornou-se a maior cúmplice das redes de tráfico humano. O
rasto de morte estende-se pelo Canal da Mancha, flutua nas águas do
Mediterrâneo e engorda as máfias que lucram com o desespero alheio. O colapso
das políticas europeias de imigração é absoluto.
Quando uma decisão judicial em Espanha sinaliza, na prática,
um "bar aberto" à imigração clandestina em plena fronteira marítima,
o resultado imediato mede-se em vidas humanas: até agora, cinquenta jovens
marroquinos morreram afogados, na tentativa desesperada de alcançar
Ceuta a nado. Cinquenta cadáveres que são o preço real da nossa negligência moral.
Se este horror não for o grito de alerta que desperte as
consciências para medidas radicais, firmes e imediatas, nada mais o fará. A
tendência pode já ser irreversível. Uma coisa é matematicamente certa: o Outono
da nossa civilização começou, e os tempos que se avizinham serão de uma dureza
implacável.
A quem pode interessar tamanha desconstrução?

Em verdade a desconstrução não interessa.
ResponderEliminarMas o mais triste é que á Esquerda, fina e bem pensante, nem lhes passou pela cabeça, que a coisa podia descanbar e dar para o torto.
Ainda ao outro dia fiquei espantado com a quantidade de grávidas de aspecto indiano na sala.
Digam o que quiserem mas há qualquer coisa nisto tudo que não bate certo