Como é público e notório, um dos principais problemas relacionados com a transição digital do sistema de classificação dos exames prendeu-se com folhas adicionais, ou folhas de continuação dos exames.
Isso deu origem a numerosas coisas, incluindo alterações de processo para evitar esse erro na segunda fase, o que parece ter acontecido.
Outra das consequências prendeu-se com a acusação de que o Ministério estava a pressionar os professores para fechar as classificações, independentemente de haver certezas sobre se o exame classificado estava ou não completo.
O ministério da educação sempre negou essa acusação, reconhecendo que poderá ter havido indicações nesse sentido por parte de pessoas com responsabilidade no processo, mas nunca por orientação do Ministério que garante ter adoptado o princípio de que, em caso algum, se poderia prejudicar o aluno, como seria, evidentemente, o caso.
Essa é, aliás, uma das razões apontadas pelo ministro para ter havido professores a corrigir três vezes a mesma prova, a detecção de um erro posterior à classificação obrigava a nova classificação.
Uma coisa chamada Missão Escola Pública, com apoio do jornalismo e da esquerda dos gambuzinos, no entanto, tem-se esforçado por criar desconfianças no processo, com base em boatos e outros indícios mais sólidos, interpretados criativamente.
O Público tem hoje uma página dedicada ao estudo que um professor de história fez, em que analisa estatisticamente as classificações da sua escola e encontra uma relação estatística entre classificações abaixo do que seria de esperar e a existência de folhas de continuação, indiciando que poderá ter havido folhas de continuação que não foram tidas em atenção na classificação do exame.
A alegação é séria (25% das provas analisadas pelo professor teriam esse problema), razoavelmente fundamentada, a julgar pelo que li no jornal, e não pode ser descartada de ânimo leve.
Claro que os do costume, apesar dos desmentidos sistemáticos do ministério e de não haver nenhuma prova material, alimentam a suspeita de que haverá milhares de exames cujas folhas de continuação não foram tidas em atenção, não tendo sequer em atenção que análise é do dia 23 de Julho, e não de hoje.
Eu não sei se têm razão, a alegação tem de ser levada a sério e haver folhas de continuação que não foram classificadas por erros do processo é uma das hipóteses possíveis para explicar o facto, mas é uma das hipóteses, há outras, incluindo, naturalmente, a existência de professores negligentes (profissionais da indignação, escusam de argumentar que estou a dizer que os professores são negligentes, estou apenas a dizer que seria muito estranho que houvesse uma profissão em que não houvesse pessoas incompetentes ou negligentes).
O mais relevante desta história não é se houve erros de processo que motivaram o facto (a confirmar-se o facto), que é sempre uma possibilidade, mas se o processo tem mecanismos eficazes de limitação dos efeitos dos erros e se a transição de processos feita acabou em qualquer melhor do que estava antes.
E tem, essa é uma boa notícia, se um facto destes ocorresse (um professor negligente que não faz um seu trabalho de classificação com o necessário empenho e brio) com o sistema antigo, era muito mais difícil detectar e corrigir o erro.
Só a digitalização e disponibilização dos PDF a todos os alunos permitiu ao professor fazer a análise que fez, a digitalização facilitou imenso a detecção de erros e a digitalização permite corrigir erros muito mais facilmente.
E permite análises como a feita pelo professor, um pouco mais sofisticadas que a verificação de que a prova corresponde à do aluno, por exemplo, se a diferença na classificação final for suficientemente pequena em relação ao que o aluno estava à espera, e se o aluno não está familiarizado com critérios de classificação, o aluno facilmente não se apercebe do erro de classificação.
O aumento de pedidos de reapreciação para quase quatro vezes mais que anos anteriores sugere que pode haver problemas decorrentes dos erros do processo de transição, pode haver problemas de credibilidade no sistema, pode haver problemas decorrentes das situações de fronteira em que o aluno tem 9,4, coisa que praticamente não acontecia antes, mas também pode haver situações de trabalho incompetente, negligente, ou meros lapsos de classificação que antes eram quase indetectáveis e hoje passam a poder ser visíveis, dando orientações de gestão muito relevantes.
Ou seja, o caminho teve muito mais pedras do que seria desejável, algumas pouco compreensíveis (a coisa que entendo pior é a inexistência de um help desk para apoio de um processo de transição tecnológico que envolve milhares de pessoas), mas o ponto de chegada parece estar a dar razão a Fernando Alexandre, era mesmo preciso avançar e rapidamente, ainda que isso implique custos maiores que o esperado.
Espero que Rita Júdice tenha tomado nota, em vez de ficar a pensar que o sistema de justiça é ainda mais sensível que o da educação, portanto há riscos que não se podem correr.
Os prejuízos do que está são bem reais e justificam aceitar algum risco para andar mais depressa.
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