No contexto da literatura do século XIX, Ramalho Ortigão é, talvez, subvalorizado. Uma sombra por detrás do colossal amigo Eça de Queiroz, mas também encoberto pela originalidade poética de Antero e pela produção de Oliveira Martins. Injustamente assim acabou. Ramalho não foi romancista de craveira, porque a objectividade da análise não se coadunava com as divagações da imaginação; nem um lírico, porque às reminiscências poéticas preferia a sobriedade das ideias. Podia ombrear com os melhores historiadores, mas não foi prolífero nem profundo no campo. E, contudo, dentro do estilo foi o mais inovador. "As Farpas" não seriam o mesmo sem o seu brio. No ensaio foi primoroso e, na crónica, um esteta. Aliás, o que deixou escrito em vários volumes reúne a melhor prosa do século XIX.
Ramalho estava ao nível do humanista. Tivesse nascido em Inglaterra seria o protótipo do cavalheiro vitoriano, o verdadeiro gentleman, versado nas artes, ciências e letras. Elegante e sofisticado, comprazia-se nas andanças da boa sociedade. Dedicou páginas ao lazer burguês de forma tão incisiva como criticou aquela mesma sociedade. Foi homem público e tribuno. Um senador. Não ficou retido nas bibliotecas: participou na vida cívica. Por excelência, o escritor-cidadão, que não deixou de ser fiel ao seu rei, servindo como bibliotecário da Real Biblioteca da Ajuda.
Autodidacta multifacetado, sobre tudo escreveu. A análise apurada deslocava-se por dimensões variadas do conhecimento. Politicamente muitos o apodam de republicano e, contudo, nunca o foi (como Eça lembrou). Ramalho não atacava a monarquia, mas a partidocracia. E mais tarde opõe-se à República. Poucos dias após a proclamação da República escreve ao amigo Teófilo Braga (então Presidente do Governo Provisório) a indignação por ter a casa assaltada e revistada por um bando republicano. Não aceitou o regime e preferiu o exílio em Paris. Foi coerente.
Em carta ao jovem João do Amaral aplaude o Integralismo Lusitano, um último fôlego de um velho patriota redimido. Talvez pela independência, superioridade intelectual e espírito crítico tenha acabado renegado. Cavalheiresco e académico, elegante e erudito, Ramalho Ortigão foi talvez o intelectual que melhor soube encarnar o espírito do século XIX português.

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