segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ramalho Ortigão - o último cavalheiro do século XIX

 





No contexto da literatura do século XIX, Ramalho Ortigão é, talvez, subvalorizado. Uma sombra por detrás do colossal amigo Eça de Queiroz, mas também encoberto pela originalidade poética de Antero e pela produção de Oliveira Martins. Injustamente assim acabou. Ramalho não foi romancista de craveira, porque a objectividade da análise não se coadunava com as divagações da imaginação; nem um lírico, porque às reminiscências poéticas preferia a sobriedade das ideias. Podia ombrear com os melhores historiadores, mas não foi prolífero nem profundo no campo. E, contudo, dentro do estilo foi o mais inovador. "As Farpas" não seriam o mesmo sem o seu brio. No ensaio foi primoroso e, na crónica, um esteta. Aliás, o que deixou escrito em vários volumes reúne a melhor prosa do século XIX. 

Ramalho estava ao nível do humanista. Tivesse nascido em Inglaterra seria o protótipo do cavalheiro vitoriano, o verdadeiro gentleman, versado nas artes, ciências e letras. Elegante e sofisticado, comprazia-se nas andanças da boa sociedade. Dedicou páginas ao lazer burguês de forma tão incisiva como criticou aquela mesma sociedade. Foi homem público e tribuno. Um senador. Não ficou retido nas bibliotecas: participou na vida cívica. Por excelência, o escritor-cidadão, que não deixou de ser fiel ao seu rei, servindo como bibliotecário da Real Biblioteca da Ajuda. 

Autodidacta multifacetado, sobre tudo escreveu. A análise apurada deslocava-se por dimensões variadas do conhecimento. Politicamente muitos o apodam de republicano e, contudo, nunca o foi (como Eça lembrou). Ramalho não atacava a monarquia, mas a partidocracia. E mais tarde opõe-se à República. Poucos dias após a proclamação da República escreve ao amigo Teófilo Braga (então Presidente do Governo Provisório) a indignação por ter a casa assaltada e revistada por um bando republicano. Não aceitou o regime e preferiu o exílio em Paris. Foi coerente. 

Em carta ao jovem João do Amaral aplaude o Integralismo Lusitano, um último fôlego de um velho patriota redimido. Talvez pela independência, superioridade intelectual e espírito crítico tenha acabado renegado. Cavalheiresco e académico, elegante e erudito, Ramalho Ortigão foi talvez o intelectual que melhor soube encarnar o espírito do século XIX português. 


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