Expulsa do Éden, a humanidade viu-se outrora escrava dos elementos. Nascemos para a História receosos da criação, desconfiados do próprio olhar, com a consciência de si a erguer-se como o prenúncio de uma tragédia. Foi a necessidade que nos obrigou a interpretar o mundo: olhámos em redor para nos defendermos da violência da natureza, da nossa própria, tentando, a cada passo, iludir tanta precariedade.
Mas nesse esforço de sobrevivência deu-se o milagre. Ao
olhar para fora para identificar as ameaças, o Homem descobriu também a Beleza
— esse lugar misterioso onde Deus se escondia. Seduzido por esse reflexo do
divino, fortificou progressivamente a sua ideia de individualidade. Um sentido
de si que o olhar de Cristo consolidaria, mais tarde, na noção de
Livre-Arbítrio e na ideia de que cada um é uma criatura singular, divinal e
dramática.
Este longo percurso espiritual e estético reflectiu-se, como
não podia deixar de ser, na forma como nos expressamos. Da literatura à
pintura, passando pela música, testemunhámos a passagem do formalismo medieval
para a exacerbação das paixões, dos desejos e das frustrações humanas. Durante
séculos, celebrámos a genialidade com que o artista ia submetendo a realidade à
sua recriação.
O problema começou quando decapitámos a transcendência. Da
recriação artística ao autoconvencimento da supremacia do olhar de cada um
sobre a realidade foi um pequeno passo – veio com o domínio da técnica e das ciências.
Submetido às emoções e movimentos psicológicos, fixado na sua auto-suficiência,
o "eu" arvorou-se num fim em si próprio. E, nesse processo, a beleza
e a bondade foram caindo em desuso.
Hoje, já não interessa o que as coisas são, mas sim como
cada um as sente. O novo evangelho resume-se a "ir aonde te leva o
coração". Desligado dos outros e da História, o indivíduo contemporâneo
descarta o compromisso em troca do efémero. Julgamo-nos todos filhos únicos,
frutos de uma qualquer geração espontânea onde tudo se relativiza em nome das
sensações, de uma "experiência" ou de um estado de espírito
passageiro. O Amor transformou-se em auto-estima e noutras balelas psicológicas.
A própria Arte, desprovida de exigência ou de busca pela verdade, foi
democratizada ao ponto de se confundir com a banalidade. É a
"assinatura" esborratada num monumento secular onde se lê, com
orgulho analfabeto, um qualquer “All you need is love”. Se tudo é arte, nada o
é; se cada opinião ou perspectiva tem o mesmo peso face ao real, a verdade
deixa de existir.
Aqui chegados, corremos o risco de definhar à beira do rio:
arriscamo-nos a tornarmo-nos narcisos estéreis, hipnotizados ou acabrunhados
com o próprio reflexo, enquanto a corrente da História flui vazia. Afinal, a
vida são só dois dias e amanhã é o fim do Mundo.
Ou talvez ainda sejamos salvos pela Inteligência Artificial, com o riso de Deus…
(texto reciclado)
Tem razão.
ResponderEliminarParece que o nível tecnológico a que se chegou e que é verdadeiramente notável para quem ainda ontem combatia com arco e flecha, virou as cabeças do avesso e o juízo esvaiu-se.
Mas se calhar são verduras e qualquer coisa me diz, que por detrás de tudo os velhos medos continuam lá.
Se um colégio de psiquiatras reunisse para estudar e explicar a "arte moderna" penso que a conclusão seria verdadeiramente surpreendente.