quinta-feira, 18 de junho de 2026

O acordo

Tudo isto é matéria de que não sei o suficiente, é apenas o que vejo, a partir da minha ignorância.

O acordo entre os Estados Unidos e o Irão (Hezbollah e Israel não são partes desse acordo) parece uma mão cheia de nada, para quem lê aquilo sem saber o suficiente, parece um conjunto de proclamações vagas.

Admitindo esta hipótese, que o acordo é uma forma de dois países que não querem prosseguir uma guerra sem dar o braço a torcer fingirem que chegaram a uma solução comum para os seus diferendos, o que vale a pena é saber se a situação hoje é diferente da situação que desencadeou a guerra.

O Irão é um país grande, poderoso, com ambição de hegemonia regional (e no mundo muçulmano) que há quase cinquenta anos é governado por um regime brutal que não reconhece legitimidade às regras que regulam as relações entre países, apenas reconhecendo a sua interpretação do Corão e a força.

Tendo como objectivos a destruição de Israel e a derrota do Ocidente, o regime iraniano, em quase cinquenta anos, foi executando uma estratégia de capacitação militar ofensiva que se traduziu no reforço da sua indústria militar e na criação, apoio, treino, armamento e financiamento de todo e qualquer grupo com quem conseguisse ter afinidades nestes dois pontos centrais: a destruição de Israel e a derrota do Ocidente (de maneira geral, representado pelos Estados Unidos).

No dia 7 de Outubro de 2023 (que é quando começa esta guerra, apesar de Guterres ter razão quando diz que o 7 de Outubro não nasceu do vácuo) a situação era, tanto quanto consigo ver, a seguinte:

Um Hamas suficientemente poderoso para desencadear um ataque de larga escala contra Israel, no seu território, um Hezbollah no auge do seu poder militar, às portas de Israel, um conjunto de outros grupos por todo o Médio Oriente, desde os Houtis às milícias iraquianas, uma Síria e Turquia amigáveis em relação aos dois objectivos centrais do Irão, e um Irão manifestamente agressivo, com cada vez menos problema em exibir o seu poder ofensivo.

Os vizinhos do Irão, uns mais próximos do regime, outros mais afastados, sentem-se cada vez mais ameaçados por este poder do Irão, que faz questão de o manifestar através dos seus grupos de aliados no interior dos países.

Israel está cada vez mais preocupado, quer porque o ataque do Hamas materializa os riscos a que está sujeito, quer porque a ameaça do Hezbollah é cada vez mais concreta e poderosa, quer porque acredita que o Irão se tornará incontrolável a partir do momento em que tenha armas nucleares, o que não parece longe.

Os Estados Unidos dão sinais preocupantes de contemporização com o Irão, na esperança de o conseguir apaziguar.

Desde 7 de Outubro de 2023, Israel conteve, quase sozinho - ao contrário do que é voz corrente no Ocidente, os Estados Unidos foram muito relutantes no apoio a Israel em Gaza - a ameaça do Hamas, atacou o coração do Hezbollah, o regime Sírio caiu, a Rússia meteu-se numa guerra sem fim na Ucrânia, que limitou a sua capacidade de apoiar o ataque ao Ocidente e Israel demonstrou ser capaz de conter ataques directos do Irão e atacar o Irão, desde que tivesse o apoio dos Estados Unidos, que entretanto mudaram de presidente.

A combinação de sanções e progressiva fragilidade, militar, económica e de apoio interno do regime, no Irão, empurraram o regime para os braços da China, a quem passou a vender o petróleo com desconto (o acesso do Irão aos mercados estava muito condicionado pelas sanções) e a comprar bens e serviços, em moeda chinesa.

A ideia de um Irão nuclear e na esfera de influência da China terá convencido os Estados Unidos a mexer-se, em articulação com Israel.

Primeiro foi um ataque que, supostamente, teria liquidado a capacidade nuclear do Irão.

Esquecendo a retórica gabarolas das partes envolvidas, esse primeiro ataque demonstrou a fragilidade defensiva do Irão e a capacidade de atacar o território iraniano de uma coligação Israel (que terá o regime profundamente infiltrado)/ Estados Unidos, mesmo que não tenha tido o efeito de liquidar a capacidade do Irão ter uma arma nuclear num prazo não muito distante.

A percepção, certa ou errada, de que o Irão se aproximava de um ponto que lhe permitia ter capacidade nuclear e de que estava numa situação de fragilidade muito relevante - ver as manifestações internas no Irão, em Janeiro deste ano - convenceram Israel e os Estados Unidos da vantagem de levar a cabo uma guerra que parece ser uma guerra muito diferente para Israel e para os Estados Unidos.

Para Israel seria a oportunidade de se livrar de um inimigo que há quase cinquenta anos promove a violência na região e boicota qualquer tentativa de apaziguamento que permita a Israel existir em paz.

Para os Estados Unidos, como parece ser o caso na Venezuela, trata-se apenas de substituir a China como potência influente no país.

O acordo, visto assim, não é tão inoperante e inocente como parece.

A situação passa a ser a de um Irão que pode ser atacado se não cumprir o caderno de encargos que lhe está a ser definido (sim, nunca será exactamente como cada uma das partes diz que irá acontecer), que tem acesso aos mercados internacionais, retirando-o da influência da China, com muito mais dificuldade de se aguentar internamente (sim, pode aguentar-se muito tempo, como está a acontecer com o regime venezuelano, mas alterando grande parte do seu alinhamento internacional) e com uma influência sobre os seus vizinhos menos dependente da sua capacidade para doutrinar, financiar, armar e treinar grupos armados irregulares que promovam a violência na região.

Dizer que nada mudou com esta guerra, ou melhor, com este episódio da guerra, a mim faz-me confusão.

Mas mais confusão me faz quem tem certezas sobre como vão evoluir as coisas num contexto tão complexo.

15 comentários:

  1. Dizer que nada mudou com este episódio da guerra faz-me confusão.

    É claro que imensa coisa mudou. Por exemplo:

    (1) O Irão fica a saber que tem o controle do estreito de Ormuz e que pode com ele apertar o gasganete à economia mundial sempre que lhe apetecer.

    (2) O Irão vê levantadas as sanções que lhe perturbavam a economia.

    (3) O Irão recebe de volta algum do dinheiro que lhe tinha sido surripiado pelo governo dos EUA.

    (4) Israel fica impedido de agredir o Líbano, isto é, passa a ter que respeitar a soberania e a integridade territorial desse país.

    Isto tudo, é claro, se o Memorando de Entendimento for implementado, o que me custa a crer que venha a ser, de tal forma é evidente que com ele o Irão adquire substanciais vantagens,

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    1. Israel não agride o Líbano, defende-se do maior exército irregular do mundo, financiado, treinado e armado pelo Irão.
      Quem é que vai impedir Israel de se defender, és tu?

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    2. È o Libano que ataca Israel, não é Israel que ataca o Libano.

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  2. A situação passa a ser a de um Irão [...] com uma influência sobre os seus vizinhos menos dependente da sua capacidade para doutrinar, financiar, armar e treinar grupos armados irregulares que promovam a violência na região.

    Sem dúvida. A influência do Irão sobre os seus vizinhos passa a ser muito mais direta aos centros de poder desses vizinhos. O Irão deixa de ter de recorrer a grupos armados irregulares e passa a ter influência direta sobre os vizinhos. Isto aliás já acontecia mesmo antes de o Memorando de Entendimento ter sido assinado: o Irão já não agrediu a Arábia Saudita na última leva de ataques, porque a Arábia Saudita já entendera que tem que seguir a linha iraniana.
    A Arábia Saudita tem uma capital com oito milhões de habitantes, todos eles dependentes de algumas estações de dessalinização de água do mar. A Arábia Saudita apercebeu-se de que, se o Irão decidir destruir essas estações, pode fazê-lo, e um terço da população do reino morrerá à sede em poucos dias.

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  3. Se as coisas ficarem como estão , sobretudo a impossibilidade de Israel liquidar definitivamente os terroristas do Hamas e do Hezzbolah, o Irão verá não só reconhecida, mas aceite e"oficializada", a sua "missão " patrocinadora do terrorismo islâmico. Atendendo à deriva demográfica europeia ( e cingindo-nos somente à situação actual da França, Reino Unido e Alemanha ) e às políticas dos seus actuais governos para "combater" a verdadeira guerra civil/racial/religiosa que já lavra nesses países , podemos afirmar garantidamente que Enoch Powell acertou em cheio...

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    1. Se Enoch Powell não acertou em cheio também não andou longe.

      E o fenómeno está a atingir a Europa inteira.

      Espero que as Suas utilidades a quem compete, estejam atentas.

      Há uma entrada macissa de emigrantes, e em idade de incorporação militar, nas Países da UE.

      Em Portugal um pouco menos e oriundos do antigo Ultramar um pouco mais, felizmente, porque ao menos esses são civilizados.


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    2. Não percebo em que é que interessa discutir se o Irão vê reconhecido isto ou aquilo, o facto é que deixou de ter defesas anti-aéreas, viu boa parte das suas elites políticas e militares desaparecer e as que sobram em evidente conflito interno, viu perturbada a sua capacidade de fabricar armas e tem uma economia de rastos, está óptimo para se transformar na grande potência do médio-oriente e impedir os acrodos de segurança dos seus vizinhos com Israel.

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  4. O que muda é que não haverá Grande Israel para ninguém. Deus não dorme.

    José de Lancastre Laboreiro

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    1. Se todas as guerras em que Israel entrou foram defensivas, a que propósito vem o estúpido argumento do grande Israel?

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    2. Já sabemos que Israel, potência ocupante na Cisjordância, na Jerusalém Oriental e nas Colinas de Golã (para não falar de Gaza), só se "defende".

      José de Lancastre Laboreiro

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    3. Todos os exemplos de ocupação que cita resultaram de guerras de defesa iniciadas por países que explicitamente pretendiam liquidar o Estado de Israel

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  5. De facto! Faz confusão e gera preocupação, presente e futura.

    As sociedades ocidentais estão a gerar e a sustentar um, cada vez maior, número de fidalgos, mal-agradecidos e toleimas sem o mínimo de noção. Acresce como problema a sua forte influência no espaço e narrativa mediática.

    Dou graças ao facto de Israel e os EUA ainda terem os olhos abertos e não permitirem um Irão como potência militar e nuclear. Porque um país da dimensão do Irão que anula manifestações do seu povo com tiro na cabeça, às dezenas de milhares, consolidado como potência regional será inofensivo e bondoso só em delírios.

    Carneiro

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  6. Não sei, aliás como o autor se confessa, se as coisas se vão passar deste modo. Contudo, é uma perspetiva de análise que me parece consistente e incontornável numa apreciação geral da situação, embora não esgote a sua complexidade. Obrigado Henrique pelo conciso mas esclarecido contributo. LRC

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  7. "O Irão é um país grande, poderoso, com ambição de hegemonia regional (e no mundo muçulmano)"

    A Constituição da Republica Islâmica do Irão diz que o objectivo do Regime é colocar o planeta todo debaixo da Ummah. Islamização do Mundo.

    Outro ponto importante, não há Irão(limitação geográfica) nas forças do regime:
    Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica não tem referencia ao Irão no seu nome.
    O Irão é um local para o regime. Pode ser noutro local qualquer, ou expandir-se para outro local qualquer.

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    Trump tem-se portado como um idiota dando poder ao Irão nas ultimas semanas porque talvez se fartou.

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