Corre por aí um vídeo de uma agressão aparentemente gratuita de um aparente judeu a uma aparente freira, que é apresentada pelos anti-semitas do costume como uma demonstração das abominações que estão em crescendo em Israel.
Dias antes tinha aparecido um vídeo de um atropelamento brutal a duas aparentes crianças, aparentemente palestinianas, que aparentemente se dirigiam para a escola, perpetrado por um aparente colono israelita, e que era apresentado como uma demonstração da violência brutal a que os colonos israelitas submetem actualmente os palestinianos.
De maneira geral não ligo nenhuma a estes pedaços da realidade sem contexto que me pretendem enfiar pela goela abaixo como demonstrações de teses anteriores subscritas pelos divulgadores destas pequenas sequências de imagens, como se eu não soubesse que vendo a fotografia de alguém que tem a mão na cara de outro alguém, é praticamente impossível saber se se trata de uma agressão ou de um gesto de ternura, sem conhecer o contexto da imagem.
Acontece que tenho uns amigos muito persistentes que acham que me convertem com estas actividades proselitistas, pelo que lá vou explicando que, sem contexto, nada feito (no caso do vídeo do atropelamento era gritante a falta de aderência à realidade das conclusões que eram tiradas porque o carro se espatifava logo à frente, contra um muro).
Poucos dias depois, o site "free palestine" que tinha inventado as conclusões sobre o atropelamento lá retirou o video porque afinal o condutor era palestiniano, não sem se desculpar porque a matrícula era israelita e, mais grave, reafirmar as conclusões anteriores dizendo que neste caso não era verdade, mas a verdade geral era essa.
O vídeo da freira é mais impressionante por ser uma agressão completamente desproporcionada - um brutamontes empurra uma freira indefesa pelas costas, ela bate, desamparada, com a cabeça num obstáculo que está à sua frente, e ele depois volta atrás ainda para lhe dar mais um pontapé - e por, no vídeo, na primeira versão que vi, não haver nem antes nem depois, ou seja, não tem contexto, o que torna o vídeo imprestável para tirar quaisquer conclusões.
Isso não impede os anti-semitas do costume, os mesmos que são capazes de dizer sobre o massacre do Hamas em 7 de Outubro que o massacre não apareceu no vácuo, isto é, acham que é preciso contexto para qualificar aquela selvajaria largamente documentada, de tirar conclusões gerais sobre o crescimento de incidentes provocados por judeus, quer contra palestinianos, quer contra cristãos, havendo até uma estação de televisão que fez uma peça a dizer que o vídeo estava a chocar a comunidade cristã.
Quando resolvi procurar mais informação sobre a agressão à freira, a primeira referência que vi foi da Vatican News, onde não vi mais que a indignação normal por um ataque absurdo e o agradecimento a toda a gente que ajudou (na segunda versão que vi do vídeo, que tem mais uns segundos, é visível o aparecimento de gente a protestar com o brutamontes e a enfrentá-lo fisicamente para defender a freira que continua no chão).
É natural que a Vatican News conheça bem as perseguições que existem no mundo, aos cristãos, interpretando o vídeo nesse contexto, e saiba que Israel não está nos dez primeiros países mais perigosos para os cristãos, a saber, por ordem do primeiro para o décimo: Coreia do Norte, Somália, Líbia, Iémen, Eritreia, Nigéria, Paquistão, Irão, Sudão e Afeganistão (sem comentários da minha parte).
O mais interessante, no entanto, é que na região a situação das comunidades cristãs é conhecida (citação da wikipedia, para não me chatearem com a falta de objectividade das fontes): "According to a 2018 report commissioned by the British government, Christians are “on the verge of extinction in the Middle East”, explaining that “Evidence shows not only the geographic spread of anti-Christian persecution, but also its increasing severity. In some regions, the level and nature of persecution is arguably coming close to meeting the international definition of genocide, according to that adopted by the UN.”, sem que faça muitas destas pessoas que se apressam a tirar conclusões a partir de vídeos sem contexto levantem sequer as sobrancelhas.
De resto, apesar da minoria cristã em Israel ser muito pequena (3,5% da população), e de haver países com percentagens muitos mais altas de cristãos (como o Egipto e o Líbano), dada a especificidade de Jerusalém, a concentração de religiosos em cidades do médio oriente deverá colocar o Cairo como sendo a cidade com mais clérigos cristãos, depois Beirute e, em terceiro, Jerusalém.
A esta situação não deverá ser alheia a questão mais importante que se retira do vídeo que tem sido usado contra Israel: o brutamontes foi identificado e preso, devendo seguir a tramitação normal de um processo destes no sistema jurídico de um Estado de direito, ao contrário do que aconteceria na generalidade dos países da região, que é uma região de violência endémica, em que a violência inter-religiosa é tratada mais com critérios religiosos e não tanto com base em sólidos princípios de liberdade religiosa.
O vídeo é exemplar, sim, não por traduzir a crescente violência judaica sobre católicos em Israel, mas por mostrar bem a diferença entre a natureza do Estado de Israel e os restantes estados da região.
antissemitismo nos EUA e Londres. não houve ataques à Sinagoga de Lisboa.
ResponderEliminarIsrael, como estado de direito democrático , investiga , prende e condena estes imbecis cheios de ódio.
ResponderEliminarMas não precisa ir tão longe: por Portugal, e numa universidade que já foi um farol da vida intelectual portuguesa como a de Coimbra, o antissemitismo anda à solta, exibindo as mesmíssimas caracteristicas do fascismo que condena veementemente: unidade de opinião forçada sem qq espaço para diversidade, demonização de adversários políticos transformando-os em monstros e desumanizando-os com a velha e gasta retórica do "nós e eles", a supressão-muitas vezes com violência física- de qualquer voz que desafie a narrativa dominante etc.
Excelente texto.
ResponderEliminarAnálise, pesquisa, conclusões factuais sem qualquer preconceito ideológico. Assim se faz, ou devia fazer, jornalismo.
Israel é, de facto, um Estado de direito, tanto assim que o seu primeiro-ministro é objecto de três processos judiciais. Que vão sendo adiados, por razões de segurança. Enquanto houver guerra … Mas isso é outra história. Esqueçamos, pois, e viremo-nos para Cuba, que, obviamente, ao contrário de Israel, não é um Estado de direito. Nem fica no Médio Oriente. Nem tem freiras.
ResponderEliminarSiga a marinha …
Net
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Net
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Independentemente de HPS ter razão, como de costume, do aumento de violência sobre cristãos ser um dado comum em todo o Médio Oriente (com possível excepção no Líbano) é um facto que tem aumentado também em Israel. A recente destruição de uma estátua de Jesus no Sul do Líbano e incidentes vários em Jerusalém que incluíram invasão de uma Igreja, pese embora as autoridades tenham actuado, mostra que existe animosidade por parte de alguma população. E é aqui que está a chave: alguma população.
ResponderEliminarOs ultra-ortodoxos têm mais filhos do que a média nacional, têm aumentado em percentagem e, se já são hoje indispensáveis à maioria parlamentar de Netanyahu, amanhã serão indispensáveis a qualquer maioria. Por outro lado, os palestinianos que vivem em Israel, os (mal) chamados árabes israelitas, também têm mais filhos do que a média. Já ultrapassam os 20% e têm 10 deputados divididos por dois partidos. E não tenhamos ilusões de que gostam dos cristãos (logo nos primeiros dias da Primavera Árabe, foram assassinados 8 ou 9 monges coptas de um mosteiro nos arredores do Cairo.
Mesmo descontando o meu pessimismo, os cristãos de Israel necessitariam da protecção de um governo forte que actuasse decisivamente mas não me parece que tal governo pudesse ter cobertura parlamentar. Aliás, mesmo sem o problema dos cristãos, vejo o futuro da democracia liberal em Israel muito problemático.
É triste constatar que os países do Médio Oriente onde os cristãos viviam sem ameaças eram as ditaduras de Assad na Síria e de Saddam no Iraque. E que caídas as ditaduras tudo piorou. De 600 mil inicias, hoje no Iraque já nem chegam a 250 mil.
Subscrevo inteiramente o seu comentário!!
ResponderEliminarEste 'clima' na UC é produto importado (infelizmente). Em grandes universidades dos EUA, outrora prestigiadas, a cultura do cancelamento e o uso de dois pesos e duas medidas consoante o posicionamento político, tem sido o prato do dia desde há umas boas duas décadas. Estamos em retrocesso para a fase anterior ao iluminismo, em que o o debate livre e a verdade eram alvos de controlo social. Uma vez mais, com a cumplicidade do "jornalismo de referência" (que fez as suas formaturas neste ambiente académico).
Quero crer que o referido caso de agressão foi uma excepção lamentável, prontamente castigada pelas autoridades.
ResponderEliminarAcredito que o Estado de Israel tudo fará para prevenir ocorrências semelhantes no futuro, garantindo a Liberdade de Crenças e Cultos como Estado Civilizado que é, numa Zona em que o Barbarismo não é tão raro assim.
É uma Responsabilidade Civilizacional a que Israel não se pode furtar
ResponderEliminarComo se vê também pelos comentários, há um problema com os portugueses. Alguns falam e comentam o que acontece nos outros países mas não uma parte do que acontece cá. Alguns acham que sabermos o que acontece nos outros países indica que somos um país avançado. Nada disso! Seria se a prioridade fosse o que acontece cá. Assim somos um país avançado mas em manipulação.
Eu vi o vídeo nos media. Mas eles mostram apenas o que lhes interessa e censuram o resto. Uma vergonha!
Note por favor, caro comentador 11:45, que o seu texto também nada refere acerca do que cá se passa
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ResponderEliminarSim, os jornalistas - a maioria são activistas - censuram o que lhes é inconveniente.
ResponderEliminarOs cristãos do Líbano que têm expressão numérica significativa, dividem-se entre maronitas (a maioria e com excepções, os mais pobres e menos cultos) ortodoxos (em posição intermédia) e cristãos gregos (uma pequena elite com apenas um bispo que obedece a Roma e hoje tem mais elementos no Brasil e nos EUA do que no Líbano, também significativamente no Canadá francófono).
ResponderEliminarEstes últimos e ortodoxos, com quem casam por vezes mas não com maronitas, são muito dominantes na cidade de Zahlé, a segunda do Líbano, a 900m de altitude. É uma zona de enorme tolerância que não foi directamente afectada pela guerra civil (quando lá estive logo a seguir à guerra fui levado a casa do vice-presidente da câmara que era muçulmano e foi com certeza eleito por cristãos; a mulher, de cara destapada logo nos serviu café, chocolates e outra doçaria e cigarros e ficou conosco na sala e só não falou muito porque tinha um francês algo limitado). Esses cristãos gregos estão forçados a emigrar porque não tinham empregos para as habilitações que tinham (todos os que conheci tinham cursos superiores mesmo as mulheres que ficaram domésticas). Agora com o sistema de quotas, o nível do ensino superior baixou e a sua empregabilidade ainda mais. Estão condenados a prazo. Eram tradicionalmente os proprietários do Vale da Bekaa, entre as cordilheiras do Líbano e do Antí-Líbano, uma zona por onde passaram todos os exércitos de e para o Egipto desde há milénios. Também a única zona verdadeiramente rica agrícola do Líbano e até da Síria quando estavam unidos. É essa zona que está a sofrer uma enorme pressão de xiitas, sobretudo fugidos do Sul e o Hezbollah agravou o problema quando se instalou em Baalbeck no Norte da Bekaa a maior reserva de ruínas romanas do mundo onde há mais pedras romanas do que em toda a Itália. Estão a usá-las para construção de casas.
Nos arredores Sul de Zahlé, foi construído pela ONU um campo de barracas para refugiados sírios onde quando lá fui a última vez se amontoavam 3.500
pessoas. Nesse tempo eram refugiados da ditadura de Assad, portanto nem xiitas nem cristãos mas hoje se calhar, é ao contrário.
A outra invasão de xiitas, estes afectos ao Hezbollah deu-se nos bairros Sul de Beirute e, por isso, agora sob bombardeamentos israelitas. Apesar de tudo e de indesmentíveis pressões, diria que a emigração de cristãos é muito mais por motivos económicos do que segurança.
ResponderEliminarE não são todos os ultra ortodoxos, sequer, boa parte desses está lá quieta nos seus bairros...
ResponderEliminarNão sabia! De facto, informação relevante, 'abafada' !!! Uma miséria moral...
ResponderEliminarSim, é um facto!
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ResponderEliminarDe vez em quando vou a uma mercearia de bengalis muçulmanos aqui em Lisboa, onde por vezes sou atendido por uma bengali de casa destapada e que fala comigo, na medida do seu parco português.
Em quase todo o lado, as mulheres muçulmanas andam de cara destapada e falam com as outras pessoas.
Exacto, daí a observação ao excerto que menciona
ResponderEliminarO suposto jornalismo é activismo a maior parte das vezes infelizmente.
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