A propósito do artigo que me faz escrever este post, no Público, fui parar a um artigo do Expresso, sobre o facto das rendas terem baixado, que começa com esta frase típica de um jornalismo de referência: "No primeiro trimestre de 2024 as rendas dos apartamentos cresceram 3,8% na Europa, o que mostra que os preços continuam a abrandar".
Esta confusão entre diminuição da aceleração e travagem é um clássico das peças jornalísticas que falam da inflação (o que não falta é gente que pensa que os preços diminuem quando a inflação baixa), mas o artigo de hoje no Público, de Rafaela Burd Relvas, é outro nível de iliteracia económica.
"É uma máxima do liberalismo económico de fácil compreensão: quando a oferta de um produto ou serviço aumenta, superando a ecvolução da procura, o seu preço diminui; quando o contrário se verifica, o movimento inverso acontece. Seria uma teoria credível, não fosse, no caso da habitação, embater na realidade".
Ou seja, o Público, através de uma das suas jornalistas, da opção editorial de dar o destaque do jornal a este texto e de fazer disto a manchete da primeira página, está, num domínio do conhecimento diferente, a subscrever teses científicas ao nível de dizer que a terra é plana ou que Darwin não tem razão nenhuma e a teoria da evolução não passa de uma história da carochinha.
Talvez o mais espantoso seja o facto de, para garantir que uma das leis básicas da economia não se aplica à habitação (e, de resto, acha que é apenas uma das máximas do liberalismo económico e não uma lei básica da economia), Rafaela Burd Relvas não vá ouvir pessoas que percebem da economia do sector, mas duas pessoas que não têm qualquer trabalho sobre a economia da habitação (ou sobre qualquer outro domínio da economia).
Mais, uma delas, que nunca leu o artigo 17 da Declaração Universal dos Direitos Humanos ("Artigo 17 1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade."), chega mesmo a explicar que era o que mais faltava que alguém tivesse direito a ter mais casas que aquela em que vive: "Uma coisa é a casa onde vivemos. Ninguém tem de mexer nela. Outra coisa é a ideia de que temos o direito de ter mais casas do que aquela em que vivemos, como um instrumento para extrair rendimento. Uma segunda casa não é um par de sapatos".
De resto, o outro investigador, sem qualquer curriculum em economia, revela a mesma ignorância sobre os processos económicos, ao explicitamente achar que não existem custos de capital e que capital parado em contexto de inflação não gera perda (e já nem falo no custo de oportunidade, por ser demasiado complexo para estas cabecinhas): "Se eu vender laranjas, não posso ficar com as laranjas, indeterminadamente, porque elas aprodrecem (uma nota marginal sobre a ignorância em matéria de cozinha e conservação de alimentos, que parece estar ao nível da ignorância económica). ... Não é isso que acontece no caso dos imóveis ... Não consegue vender no momento, mas recusa-se a baixar o preço. Espera um, dois, três, quatro anos. E o preço não baixa; pelo contrário, até vai subindo".
A tese central defendida é que como o aumento de preços coincide com as regiões onde também aumenta mais a oferta, isso permite a conclusão de que aumentar a oferta não diminui o aumento da pressão da procura que faz aumentar o preço.
Que essa coincidência seja exactamente a demonstração da lei da oferta e da procura que se pretende negar (onde aumenta a procura o preço aumenta, gerando maior retorno para o investimento, o que faz coincidir, geograficamente, o aumento do preço e da oferta, enquanto a oferta não superar a procura) parece ser ideia que não cabe na cabeça da jornalista, dos dois investigadores de áreas não económicas que a jornalista escolhe ouvir para contestar uma das leis básicas da economia, dos editores que resolvem aprovar e dar destaque a esta tolice, sem que, sequer, percebam que, para além da pura difusão de "fake news", o jornal está, por coisas como esta, a cavar a sua sepultura.
Que haja jornalistas, investigadores, músicos e artistas plásticos (há muitos nos duzentos investigadores e especialistas que entendem que não se pode negar o direito à habitação com base na defesa do direito de propriedade, como se o direito de propriedade não fosse um direito humanos fundamental e o direito à habitação uma mera decorrência do direito genérico a um nível de vida satisfatório ("Artigo 25 1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.") de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos) que escolham jamais deixar que os factos influenciem as suas ideias, é lá com eles.
Que a direcção e os accionistas de um jornal achem normal que se negue a lei da gravidade para justificar o facto dos aviões voarem apesar de serem tão pesados, já me parece manifestamente excessivo para um jornal que se pretenda sério.
Excelente texto. Assertivo e factual.
ResponderEliminar«lei da oferta e da procura».
ResponderEliminara esquerda esforça-se para tentar alterar esta lei.
ninguém se preocupa com pesquisa de mercado.
certeiro como sempre: 'insista! insista!'
O Publico não se dedica o jornalismo, dedica-se ao Activismo. Como aliás a grande maioria.
ResponderEliminara lei da oferta e da procura funciona, o mercado funciona
ResponderEliminarmas funciona mal, devendo ser regulado (como aliás fazerm vários países europeus, onde o Estado tem um papel importante no mercado), sob pena de escorraçar das cidades uma parte importante da população
a financeirização da habitação não ajuda, pois conduz a uma procura hiper-musculada, a uma inflação dos valores m2.
nem sei se os balanços dos bancos resistiriam a uma correção em baixa de tais valores...
e esta situação está longe de ser exclusiva de Portugal (ex. https://www.theguardian.com/business/housingmarket+money/houseprices)
https://elpais.com/espana/madrid/2025-02-28/alguien-da-mas-en-madrid-alquilar-una-habitacion-por-2500-euros-al-mes.html
em Montreal vi, com estes olhos que a terra há-de comer, não anúncios de partlhoa de apartamento ou quarto, mas de cama...
enfim, um potencial barril de pólvora, penso eu de que
https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/tag/walter+scheidel
Boas Leituras
A caridade da família Azevedo (como diria HPS) é inultrapassável.
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ResponderEliminarNão é que o mercado funcione mal (ele funciona bem), mas é um facto que, se não fôr regulado, uma parte importante da população será escorraçada das cidades.
A forma mais elementar de regulação seria impedir a transição para usos não-habitacionais (comerciais, de serviços, ou de alojamento local) de apartamentos situados em condomínios habitacionais.
Infelizmente, em Portugal nem mesmo esta forma muito básica de regulação as Câmaras têm coragem para exercer.
Não sei se para o Publico a Terra é plana, mas por aqui é mesmo.
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ResponderEliminara ideia de que temos o direito de ter mais casas do que aquela em que vivemos, como um instrumento para extrair rendimento
Não há prejuízo nenhum para a sociedade em que alguns indivíduos tenham casas que arrendam para delas extraírem rendimento.
O prejuízo para a sociedade surge, isso sim, quando indivíduos têm casas que não arrendam e das quais não extraem rendimento. Ou seja, casas que só servem como segunda habitação (ou que nem para isso servem).
(E mesmo aí, só há prejuízo para a sociedade se essas casas se situarem numa zona onde haja falta de casas - em muitas zonas de Portugal não há tal falta.)
Toda essa máfia só faz porque os Estados deixam fazer.
ResponderEliminarAinda no tema do jornalismo.
ResponderEliminarQuando é que a nossa imprensa enviesada começa a escrever sobre o que se está a passar na Argentina sem usar as expressões anarco-capitalista e libertário?
Como assim?
ResponderEliminarSei lá. Talvez amanhã ou depois alguém vá ver onde fica essa Argentin.
ResponderEliminarEu, só não quero que o gov me venha ao bolso para tapar o buraco daquela coisa... De resto, o risco dos srs ""jornalistas"" ficarem sem trabalho é reduzido. Há falta de mão de obra na azeitona...
ResponderEliminarEntão construir uma casa é mau.
ResponderEliminarAs lojas que forneceram materiais. quem limpa a casa, se tiver jardim o jardineiro, fornecedor de eletricidade, impostos etc... nada conta.
ResponderEliminarTribunal administratif du logement (TAL) (https://www.google.com/search?q=Tribunal+administratif+du+logement+%28TAL%29&sourceid=chrome&ie=UTF-8&mstk=AUtExfBVpbaiCcRQD8zWVa8F8nSpy3oxoU6GMu2nGudXaNk0ipbKlJevK42wP-43a_4i9_pl3-HdnpaEh8_ns433_PdoVXSvTW1worBDywpZXEvMelreYPZP9I2QYArpeT9Uleo&csui=3&ved=2ahUKEwj90uPhhMeQAxXqRaQEHfPnBacQgK4QegQIARAD)
Building more isn’t a magic solution
ResponderEliminarAcross all levels of government, building more has become the go-to solution.
“And it isn’t working, right?” Goyer told CTV News, pointing to a study showing that most of Montreal’s vacant units are mainly new and expensive.
Expecting the market to stabilize itself, he added, is “wishful thinking.”
Instead, Goyer argues, the city should focus on taking existing units off the private market and converting them into public housing.
He also draws a key distinction: affordable housing is based on market value, while social housing is tied to a tenant’s income.
https://www.ctvnews.ca/montreal/article/on-the-campaign-trail-can-montreal-fix-its-housing-crisis/
Ou seja nem é capaz de tomar responsabilidade pela omissão. A informação que escondeu.
ResponderEliminartalvez tenha tb a ver com isto https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/grau-zero-208019
ResponderEliminarQuando se pensa que não se consegue bater mais no fundo, lá está o Público a mostrar que afinal é possível.
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