Periodicamente, o país real tem de suportar com estoicismo uma greve geral – acho até que já escrevi vários textos parecidos com este. É como uma punição que temos de sofrer, uma penitência que vem directamente das calendas revolucionárias, um resquício do domínio comunista da revolução, devidamente consolidado e protegido nos sindicatos que tomaram conta da função — ou melhor, da corporação — pública e das empresas do Estado.
Chegados a este estágio da nossa democracia, assistimos a
uma ironia modernamente bizarra: a conivência dos “fascistas” do Chega com este
bloqueio. Unidos pelo oportunismo, todas as corporações profissionais
privilegiadas dedicam-se a encerrar transportes públicos, tribunais, escolas e
hospitais – porque podem. O objectivo é claro: boicotar a actividade do país
precário, o país produtivo, a esmagadora maioria das pessoas que precisam, efectivamente,
de trabalhar, de pôr comida na mesa ao fim do dia.
Esses milhões, sim, são os heróis do dia. Aqueles que,
contra ventos, marés e grevistas, marcaram presença nos seus empregos. No sector
privado, convém lembrar, apenas 7% dos trabalhadores são sindicalizados. Ali, o
privilégio de parar não existe.
Um olhar empírico na minha zona, além de me mostrar o liceu
aberto, revelou o comércio e os serviços em pleno funcionamento. E no pouco
tempo que estive na rua, para desespero dos profetas do caos, ainda vi passar
um comboio em direção ao Cais do Sodré.
Apesar da punição imposta, apesar do folclore habitual dos
grevistas — devidamente amplificado e mimado pelos média ao serviço —, a
realidade é o que é e teima em desmentir os comunicados sindicais: a esmagadora
maioria do país hoje foi trabalhar.
Os sindicatos e a extrema-esquerda deram, é certo, a sua
habitual prova de vida, em contraciclo com a sua representatividade eleitoral. E continuaremos, infelizmente, reféns desta minoria ruidosa, que se comporta
como um verdadeiro frúnculo na nossa democracia.
Novas greves? Haverá em breve, tão certo quanto o Natal ser
em Dezembro. Até lá, só pedimos uma coisa: deixem-nos trabalhar.

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