quarta-feira, 3 de junho de 2026

Os heróis do dia

Periodicamente, o país real tem de suportar com estoicismo uma greve geral – acho até que já escrevi vários textos parecidos com este. É como uma punição que temos de sofrer, uma penitência que vem directamente das calendas revolucionárias, um resquício do domínio comunista da revolução, devidamente consolidado e protegido nos sindicatos que tomaram conta da função — ou melhor, da corporação — pública e das empresas do Estado.

Chegados a este estágio da nossa democracia, assistimos a uma ironia modernamente bizarra: a conivência dos “fascistas” do Chega com este bloqueio. Unidos pelo oportunismo, todas as corporações profissionais privilegiadas dedicam-se a encerrar transportes públicos, tribunais, escolas e hospitais – porque podem. O objectivo é claro: boicotar a actividade do país precário, o país produtivo, a esmagadora maioria das pessoas que precisam, efectivamente, de trabalhar, de pôr comida na mesa ao fim do dia.

Esses milhões, sim, são os heróis do dia. Aqueles que, contra ventos, marés e grevistas, marcaram presença nos seus empregos. No sector privado, convém lembrar, apenas 7% dos trabalhadores são sindicalizados. Ali, o privilégio de parar não existe.

Um olhar empírico na minha zona, além de me mostrar o liceu aberto, revelou o comércio e os serviços em pleno funcionamento. E no pouco tempo que estive na rua, para desespero dos profetas do caos, ainda vi passar um comboio em direção ao Cais do Sodré.

Apesar da punição imposta, apesar do folclore habitual dos grevistas — devidamente amplificado e mimado pelos média ao serviço —, a realidade é o que é e teima em desmentir os comunicados sindicais: a esmagadora maioria do país hoje foi trabalhar.

Os sindicatos e a extrema-esquerda deram, é certo, a sua habitual prova de vida, em contraciclo com a sua representatividade eleitoral. E continuaremos, infelizmente, reféns desta minoria ruidosa, que se comporta como um verdadeiro frúnculo na nossa democracia.

Novas greves? Haverá em breve, tão certo quanto o Natal ser em Dezembro. Até lá, só pedimos uma coisa: deixem-nos trabalhar.

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