terça-feira, 12 de março de 2024

"Schadenfreude"

Tive de ir ao google saber o que queria dizer o título deste post, que vem directamente de um comentário a um post meu anterior, e depois de ver, achei que era um bom arranque para um post.


Talvez seja da natureza humana, talvez não seja nada de especificamente português, mas a verdade é que em Portugal há uma grande tendência para olhar para nós pelas lentes dos mitos, um "manto diáfano de fantasia" que nos defende da "nudez crua da verdade", como diria o outro.


Um bom exemplo é-me sugerido pelo facto de continuar a ler o livro de Nuno Palma, depois de ter lido parte do que foi escrito sobre ele.


Frequentemente há gente a escolher o facto de Nuno Palma dizer que Pombal foi o pior governante que Portugal teve (não tenho a certeza que a formulação que use seja exactamente esta), centrando-se nesta ideia (que é sempre discutível, como é evidente) em vez de se centrar na fundamentação que ele apresenta como base para essa conclusão, que é bastante objectiva.


Nuno Palma defende (pelo menos é essa a minha interpretação) que a disponibilidade de ouro do Brasil destruiu económica e institucionalmente o país (destruiu é um exagero meu, para ser mais rigoroso, afectou negativamente), sendo aliás uma das razões que teriam permitido a Pombal exercer o poder de forma tão livre e absoluta (neste ponto, compreendendo que possa ter contribuído, diria que o despotismo foi uma tendência geral na Europa ocidental na mesma época de Pombal, portanto é preciso alguma prudência na atribuição a causas nacionais pelo contexto cultural em que Pombal exerceu o poder).


E é a partir dessa ideia que faz a apreciação que faz do governo de Pombal.


Acima de outros aspectos que refere, escolhe a destruição do sistema escolar, com a expulsão dos Jesuítas, como a decisão mais negativa de Pombal, por coincidir com o fim das entradas do ouro do Brasil, com o tudo o que isso significa de dificuldade económica, dificuldade essa cuja resolução é travada pela destruição da capacidade de fazer crescer o capital humano, exactamente quando no resto da Europa ocidental a escolarização generalizada se começa a desenvolver, em paralelo com a industrialização.


Até aqui, nada de especial, acontece e pode acontecer em qualquer lado do mundo, uma decisão trágica, tomada por conveniência política de manutenção do poder, que acentua as dificuldades de contexto de uma sociedade, potenciando o desenvolvimento negativo do país, por décadas.


O que me parece extraordinário é que, ainda hoje, mais de duzentos anos depois, a defesa do governo de Pombal ainda motive discussões e mais de cem anos depois da sua saída do poder o país lhe tenha dedicado uma das mais proeminentes estátuas da capital do país, não porque uma historiografia rigorosa tivesse demonstrado que Pombal foi um grande governante, mas porque servia o mito de um poder político forte, que se opõe à igreja e às forças obscurantistas.


Ainda hoje esse mito sobre Pombal, e as maravilhas que fez na modernização do ensino em Portugal (que destruiu sem apelo nem agravo), é ensinado nas escolas sem grande escândalo, provavelmente porque preferimos discutir mitos a ter o trabalho de procurar entender a realidade e operar sobre ela, procurando sistematicamente avaliar o que funciona ou não funciona e quem ganha ou perde com cada decisão que o poder político vai tomando.


Toda a campanha eleitoral foi feita nesta base.


Quando uma afirmação perfeitamente sensata de Passos Coelho sobre a necessidade de levar a política de imigração a sério apareceu, raramente se discutiu o problema real levantado, preferindo-se tecer grandes considerações sobre a dimensão da virtude de cada um no amor ao próximo.


Quando uma defesa perfeitamente legítima de um ponto de vista, por Paulo Núncio, foi feita, raramente se discutiu a questão de fundo, optando-se por falar dos grandes mitos associados ao famoso "não passarão" e ao avanço civilizacional que o aborto representa (é extraordinário como um avanço civilizacional, o fim da perseguição legal de mulheres em desespero, é confundido com o recuo civilizacional que consiste em achar que não há nada a discutir sobre os limites da legitimidade de intervenção no desenvolvimento de um embrião de pessoa).


E finalmente chegamos ao título deste post, que decorre de um pequeno post scriptum meu sobre a actual Iniciativa Liberal, na sequência do que um amigo meu classificou como "a necessária clarificação interna".


O que aconteceu na Iniciativa Liberal não tem nada de novo, aliás, um outro amigo meu, perante a minha indignação com os métodos de sufocação da divergência que foram usados na Iniciativa Liberal, limitou-se a responder que os partidos são assim, inevitavelmente.


Ora é exactamente esta resignação sobre a degradação institucional, neste caso, dentro de um partido, que me indigna, não é qualquer espécie de "Schadenfreude".


É verdade que gostei de ver o que aconteceu em Lisboa com a Iniciativa Liberal (na verdade, o único distrito em que a Iniciativa Liberal desceu em deputados, votos e percentagem, há apenas um outro distrito em que a Iniciativa Liberal desce em percentagem, mas não em votos) porque isso me dá esperança, mostrando que pessoas comuns, como eu, reagiram de forma clara e tranquila a uma pulhice (não, não é a ausência de Carla Castro que motiva esta reacção de eleitores como eu, mas sim todo o contexto de eliminação da divergência, associado a uma sonsice éticamente inaceitável na forma como se pretendeu neutralizar a divergência, no caso de Carla Castro).


Ao mesmo tempo que fiquei muito contente com a eleição de Mário Amorim Lopes em Aveiro e tenho pena que Pedro Brinca não tenha sido eleito em Coimbra.


O que está em causa na Iniciativa Liberal não é nenhuma "necessária clarificação interna", isso fez-se nas eleições, ganhou a linha dos liberais em toda a linha, está o assunto resolvido, do ponto de vista da clarificação interna.


O que está em causa é a necessidade que o poder legítimo dentro da IL, obtido com 51% dos votos, sentiu de sufocar toda a divergência, de eliminar os "liberais conservadores", como eles dizem, os que discordam, os que contestam, resumindo, a opção por uma "linha justa" em detrimento de uma opção pela aceitação da conflitualidade potencial decorrente da pluralidade do conceito de liberal.


Para o actual poder na IL a divergência e a diversidade ideológica é um risco para o partido, para mim, essa é uma condição base de crescimento e aumento da influência social das ideias liberais, aceitando que há quem defenda âmbitos mais alargados de aplicação de ideias liberais e quem restrinja a validade desses conceitos a âmbitos mais restritos.


Espero que Lisboa, onde foi levada mais longe a defesa da linha justa, com insídia e sobre o alvo mais inesperado, seja suficiente para pelo menos haver gente, dentro da IL, a ter dúvidas sobre a virtude de expurgar do partido todos aqueles que não encaixam na pureza da definição de liberal que hoje é dominante na direcção do partido.

47 comentários:

  1. Do 'Devils Dictionary', de Ambrose Bierce, dm tradução livre, o conservador será um homem de estado que pretende manter os males existentes, e um liberal será o que pretende substituir os existentes por outros 'novos' males. 

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  2. O HPS faz aqui uma confusão que me deixa deveras perplexo.
    A Carla Castro é uma "liberal conservadora"? Eu nunca descortinei tal coisa nela.
    É verdade que alguns indivíduos mais conservadores saíram da Iniciativa Liberal, mas penso que essas saídas nada tiveram a ver com a dissidência de Carla Castro. Tanto quanto pude ver - e eu assisti a uma conversa em que Carla Castro explicou os motivos pelos quais se candidatou à liderança da IL - as causas de tal dissidência não foram ideológicas.

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  3. Como tenho a certeza absoluta que não és estúpido, tenho de concluir que comentários destes são pura sonsice.
    Assim sendo, vai dar uma curva.

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  4. Gostei que tenhas reconhecido que estás a contestar afirmações minhas que não existem e fico por aqui

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  5. A ideia de que o eleitorado de Lisboa é diferente do resto do eleitorado é menos provável de que a ideia de que o caso de Carla Castro, exactamente por ser quem é, tenha feito mossa: não foi uma mera questão interna, esteve em todos os jornais e a dignidade com que Carla Castro lidou com o assunto também foi muitíssimo visível.

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  6. Sim, eu apenas escrevi que o HPS tinha feito uma "confusão" no seu post, entre a Carla Castro e os "liberais conservadores". Não foi um erro, foi uma confusão, uma forma de escrever pouco clara.

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  7. É preciso é ter fé na IL.
    Quanto ao aborto; qual o racional de quem mata um criança já formada com 12 semanas. Para mim é crime. E o BE quer aumentar semanas.
    O cão Zico que matou um bébé teve honras e até zelosos cuidadores. Quanto não vale ser cão?
    Paulo Núncio foi uma gaffe, nas Finanças e com Off Shores pelo meio.
    Foi um pateta que armado em  mais sério, aumentou a obrigatoriedade de manter as escritas passando-as de 5 para 12 anos. Esperamos que passe para 20 anos.

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  8. Não acompanhei os detalhes. Sei que saiu, o que me pareceu uma reação de "mau perder", por muita dignidade que se mantenha, pois não vi que existissem divergência ideológicas insanáveis, apenas um posicionamento desfavorável na lista de candidatos. Ora, pretender que um partido vá ser diferente dos outros todos neste tipo de práticas (que têm a sua razão de ser) parece-me ou ingénuo ou arrogante. O PS, que elege 80 deputados, pode dar-se ao luxo (e nem sempre se dá, veja-se o caso dos "seguristas" em 2015) de dispensar meia dúzia de assentos para os derrotados nas disputas internas (sacrificando as expectativas de que contribuiu para a eleição dos vencedores), mas não percebo estranhar-se que um partido com poucos lugares disponíveis deixe de os distribuir por pessoas da absoluta confiança política da direcção (sendo que a IL até teve ex-dirigentes nacionais e ex-cabeças-de-lista que não tiveram qualquer problema em transitar directamente para o Chega).

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  9. Ainda não li. Dá-se a coincidência de esse colunista (a meu ver, claro) partilhar com o tétrico MST o talento de, mesmo quando eu concordo com o que defende (ou defendia, já que há décadas deixei de o ver, ouvir e ler), discordo do modo como o expõe. Aliás, o anterior artigo deste colunista no Observador é um perfeito exemplo de desonestidade intelectual metódica. Dito isto, admito que a rede de conhecimentos e "seguidores" das pessoas que saíram (e, em especial da facção dita "conservadora", que transitou para o Chega), nesta era das redes sociais, tenha sido suficiente para reduzir a votação na IL.

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  10. A IL parece preferir continuar a ser um "think tank" de arrumadinhos que se fecharam em si mesmos (ao contrario do Chega, que preferiu ate agora ouvir o povo e beneficiou disso, assumindo a sua posição de pretensa ruptura, optando por crescer para depois ir suavizando a linguagem).  


    Tenho pena que a IL tenha decidido não albergar a facção mais "liberal humanista" que Carla Castro representava (um pouco como o D66 dos Países Baixos, que resultou de uma dissidência do VVD, partido liberal, em... 1966). 


    A "schadenfreude" em português pode significar algo como um sorriso de "eu bem os avisei", 'a falta de melhor comparação. Felizmente nem tudo e' mau, e o discurso dos betinhos da IL ja' vai aos poucos influenciando o panorama politico nacional. Eles e' que podiam acordar para a vida. 

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  11. Foi um pouco irónico ter sido o Rob Jetten (do D66, os "liberais humanistas") a surgir num video em que apoiava a IL ("o liberalismo e' necessário", ou coisa que o valha; claro que os eleitores nem deram por isso), em vez de um representante do VVD. Se bem que eles (VVD) agora tem uma líder que fez o "crossover" (vinda da esquerda). Por isso os rótulos ja' pouco interessam. 

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  12. O poder da insinuação. Na linha daquelas frames que o Walt Disney punha nos filmes. Coloca 2 factos, depois cabe ao leitor ("erradamente") fazer a correlação entre ambos. O Pedro Guerra explica.

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  13. Eu escrevo "eliminar os "liberais conservadores", como eles dizem", ponho liberais conservadores entre aspas e explicitamente atribuo essa classificação à linha leninista da iniciativa liberal.
    Primeiro acusas-me de ter dito que Carla Castro era uma liberal conservadora, o que é completamente falso, como tu próprio reconheces.
    Mas ao reconhecer isso, dizes que eu faço uma confusão por deficiência de escrita, entre Carla Castro e a utilização do termo "liberais conservadores", que usei entre aspas e atribuindo-o à linha leninista da iniciativa liberal.
    Tu és um génio da contrafacção argumentativa.

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  14. Eu estive presente numa sessão interna (da Iniciativa Liberal) em que Carla Castro explicou aos membros presentes porque se candidatava.
    Não havia quaisquer divergências ideológicas. Nada. Havia divergências, que para mim não ficaram de todo claras, sobre formas de proceder, episódios internos que tinham decorrido, etc.
    Mais tarde falei com um apoiante de Carla Castro, a mesma coisa: nada de divergências ideológicas.
    Depois falei com uma adepta da linha vencedora, a qual sugeriu, e infelizmente parece-me que ela tem razão, que tudo se resume a uma sede de protagonismo, pessoas que gostariam de ocupar lugares e de ter uma importância que não lhes são concedidos.

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  15. o aborto; qual o racional de quem mata um criança já formada com 12 semanas. Para mim é crime


    Acho bem, maria. Evite então praticá-lo. Mas não impeça as outras de o fazer. Muito menos com o auxílio do aparelho repressivo do Estado.

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  16. A "schadenfreude" em português pode significar algo como um sorriso de "eu bem os avisei"


    Não. Schadenfreude é a junção de duas palavras, Schaden, que quer dizer prejuízo ou dano, e Freude, que quer dizer alegria ou satisfação. É um sentimento de satisfação pelo prejuízo ou dano que ocorreu a outrém. É como dizer que "pimenta no cu dos outros é refresco".

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  17. Tenho pena que a IL tenha decidido não albergar a facção mais "liberal humanista" que Carla Castro representava


    Disparate. A Carla Castro não representava nenhuma facção ideológica dentro da IL. Ela não se foi embora por quaisquer motivos ideológicos.


    Se quer uma liberal humanista, veja a Angélique da Teresa, que é vice-presidente da IL, aparece frequentemente ao lado do líder.

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  18. Descobriste agora o mesmo que estou a dizer desde o princípio?
    Que a questão é de procedimentos e a linha actualmente dominante na IL é, do ponto de vista dos procedimentos, leninista?

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  19. Eu não escrevi nem que a questão seja de procedimentos nem que a linha atualmente dominante na IL seja leninista.
    Escrevi apenas que, contrariamente ao que era sugerido pelo comentário de JPT ao qual respondi, não havia, que eu soubesse, quaisquer divergências ideológicas.
    E sugeri também que, possivelmente, a questão não é de procedimentos, mas sim de desejo de protagonismo.

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  20. Excelente artigo. 
    Eu, que tinha sido votante da IL desde o seu aparecimento, escolhi agora votar na AD. A forma como a sucessão do Cotrim de Figueiredo foi encenada e a forma como a Carla Castro (uma excelente deputada) foi tratada foram factores que pesaram nessa decisão. 
    Eu não me identifico com o liberalismo em toda a linha. Acho que devem haver limites à liberdade, sobretudo no que diz respeito ao envolvimento de terceiros. 
    A forma como a sociedade ocidental encara actualmente o aborto é para mim muito desconcertante. Ainda assim isso não me tinha impedido de votar IL. Há sempre uma gota que faz transbordar o copo. 

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  21. Tipicamente leninista: as divergências nunca se devem a legítimas diferenças de opinião que talvez seja útil discutir, mas a problemas de carácter dos adversários, relacionados com interesses obscuros, que não faz sentido alimentar.

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  22. Só votas a favor do aborto porque não há risco nenhum de seres morto por aquilo que defendes.

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  23. O Liberalismo para o ser tem de ser contra o aborto a não ser em caso de risco de vida para mãe. 
    Há duas pessoas. Para uma delas ser morta tem de existir razão mais do que de conveniência. 

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  24. "The right to choose is their unequivocal right. (...) I believe they should not have to consult anybody. (...) And ladies, to be fair to us, I also believe if you decide to have the baby the man should not have to pay. That's fair.  If you can kill this motherfucker I can at least abandon him. My money my choice. 
    And if I'm wrong, then perhaps we're wrong.  Figure that out by yourselves."

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  25. não me identifico com o liberalismo em toda a linha. Acho que deve haver limites à liberdade


    Isso é trivial. Todo o liberal e todo o não-liberal concorda com isso. Nenhuma liberdade é ilimitada.


    A forma como a sociedade ocidental encara actualmente o aborto é para mim muito desconcertante.


    O cristianismo jé encarou o aborto de diversas formas ao longo da história. A atual posição contra o aborto não é muito antiga.


    Pelo contrário, o judaismo tem, desde há dois milénios, uma posição consistente a favor da liberdade de abortar (tal como a favor da liberdade de se divorciar, algo que o cristianismo também não aceita). O judaismo proíbe matar, mas desde sempre abriu uma exceção, permitindo o aborto. E todos os rabinos, desde há dois milénios, respeitam essa posição.

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  26. E o que tem a dizer sobre o Amorim Lopes nada ter a ver com o distrito onde foi eleito, o que levou aos orgaos Aveirense contestarem o “alienígena”?

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  27. O Liberalismo para o ser tem de ser contra o aborto a não ser em caso de risco de vida para mãe. 

    Há duas pessoas.


    Este tipo de pontos de vista dogmáticos, construídos a partir de categorias filosóficas fixas, não leva a lado nenhum na vida real.
    O liberalismo serve para ser aplicado na prática, aqui e agora, em casos concretos. Não pode ser uma filosofia teórica.
    O liberalismo não gosta das intervenções do Estado nem de monopólios. Porém, atualmente, admite Bancos Centrais que fixam taxas de juro, admite barreiras à liberdade de movimentos nas fronteiras, e admite patentes.
    Em nenhuma teoria o direito à vida é incondicional. Há a pena de morte, há o direito à autodefesa, há a guerra. E há o aborto.

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  28. Amorim Lopes não é professor na universidade de Aveiro? (Eu não sei, isto é só uma pergunta.)
    E não será de uma família do distrito de Aveiro (o qual se estende até Espinho, bem próximo do Porto)?

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  29. O que tenho a dizer sobre isso? Nada, acho irrelevante

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  30. Parece-lhe que a sociedade ocidental é maioritariamente cristã ou judaica?
    Eu não estou a aludir à posição das religiões (isso é com os respectivos crentes), estou a aludir à posição da elite bem pensante. Da elite educada e progressista. 
    O aborto é um direito humano?  Não compreendo. DE qual dos humanos envolvidos? 
    O embrião/feto não é um ser humano? Então é exactamente o quê?
    É disto que falo. 
    Eu acho o aborto um assunto muito complicado porque é difícil penalizar as mulheres desesperadas (parafraseando o HPS). Porque a vida de uma mulher solteira com filhos pode ser de facto muito difícil.  Porque muitas vezes é mais fácil a mulher negar a existência de algo que não vê.
    Mas dizer que não está ali um ser humano é simplesmente mentira. Está ali um ser humano único e irrepetível , que não é mais ou menos humano 1 mês, três meses, nove meses, dez meses, ou dez anos após a concepção. 

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  31. É professor na Universidade do Porto, não tenho conhecimento que o seja em Aveiro. Quanto ter origem no distrito, não estou certo, mas a contestação da IL local leva-me a crer que não.

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  32. Poderia elaborar um pouco? Até aceito a resposta de ter importância relativa, mas gostaria de ouvir uma justificação para o “irrelevante”.

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  33. Parece-lhe que a sociedade ocidental é maioritariamente cristã ou judaica?


    Não é maioritariamente nem uma coisa nem a outra.


    O aborto é um direito humano?


    Não. Ele é um direito somente por necessidade prática.


    O embrião/feto não é um ser humano?


    Isso não interessa para nada, para efeitos da lei. A lei só diz que é proibido matar certos seres (humanos e também, por vezes, não-humanos) em certas circunstâncias, mas que é permitido matar os mesmos ou outros seres noutras circunstâncias.


    Por exemplo, é proibido matar um touro no decorrer de uma tourada, mas passa a ser permitido matá-lo mal ele sai da arena.



    Outro exemplo, eu sou proibido de matar um russo qualquer, porém já me é permitido matá-lo se Portugal estiver em guerra com a Rússia e se esse russo e eu formos soldados dos nossos países e estivermos em ação guerreira.



    dizer que não está ali um ser humano é simplesmente mentira


    É. Mas é irrelevante. A lei não tem nada que se orientar por conceitos absolutos (é / não é humano). A lei serve para preservar a ordem geral da sociedade, não para afirmar conceitos filosóficos, como saber quem é ou deixa de ser humano.

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  34. É professor na Universidade do Porto, não tenho conhecimento que o seja em Aveiro.


    Obrigado pelo esclarecimento.


    Quanto ter origem no distrito, não estou certo, mas a contestação da IL local leva-me a crer que não.


    Não tenho conhecimento de tal contestação. Se ela existir, acho que deveria ter sido tida em conta, embora não possa ser determinante.


    Há pessoas que têm alguma ligação aos distritos, embora não seja forte. Eu, por exemplo, tenho casa e propriedades no distrito de Aveiro, embora só raramente lá vá.

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  35. A lei serve para preservar a ordem geral da sociedade, não para afirmar conceitos filosóficos


    Já agora, outro exemplo disto:


    Quando (e se) a lei diz que as meninas devem ser tratadas como tal na escola, não está a afirmar que todas elas têm dois cromossomas X em cada uma das suas células. Quando (e se) a lei diz que as meninas que porventura tenham um pénis não são autorizadas a utilizar a casa de banho das outras meninas, a lei está apenas a assegurar a segurança e ordem geral da sociedade, não a dizer que essas meninas deixaram de o ser ou que o sejam menos que as outras.

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  36. O Balio está sempre a desconversar, e assim fica difícil.
    Obviamente que a lei serve para preservar a ordem geral. Mas quando interfere com valores fundamentais da sociedade que pretende servir, deve alinhar-se com o código de valores dessa sociedade. Quando isso não acontece (como no caso da proibição do uso do véu no Irão, nos tempos do Xá) acaba por resultar no recuo. 
    O problema do aborto não se põe no Afeganistão onde os pais podem matar os filhas quando elas os “desonram”. Põe-se nas sociedades que subscrevem a carta dos direitos humanos (em particular os artigos 3 e 6) ao mesmo tempo que negam a qualidade de ser humano a um embrião ou um feto. Porque é que o aborto não é permitido até ao nascimento? Porque a grande maioria das pessoas reconhece a humanidade de um feto com esse tempo de gestação, e acharia desumano fazer um aborto nessa altura. Acontece que não há uma linha a partir da qual não seja desumano fazê-lo. Daí a importância dos princípios éticos neste caso. 

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  37. Não quero com isto dizer que o aborto deve ser penalizado. O que não deve é ser tratado com esta leviandade. O que não deve é ser encorajado e considerado um direito da mulher, porque isso claramente não é.

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  38. A lei do aborto não interfere com quaisquer valores fundamentais da nossa sociedade, tal como se vê pelos factos de ter sido aprovada em referendo e de ser diariamente aplicada na prática sem que se registem protestos generalizados.


    Porque é que o aborto não é permitido até ao nascimento?


    Porque todas as leis têm limites. Da mesma forma, a polícia pode atirar a matar sobre um indivíduo, mas só em certas circunstâncias. E um soldado pode matar um soldado inimigo, também só em certas circunstâncias. E um touro pode ser morto, mas não na arena.






    Não fazem tal. Simplesmente, e tal como expliquei nos meus comentários anteriores (que a Susana poderá querer reler), aceitam que a lei que proíbe matar não se aplica a todos os seres humanos nem a todas as circunstâncias. Como é óbvio. Essa lei tem exceções bem conhecidas. Mesmo em relação ao embrião ou feto, se uma pessoa causar a sua morte contra a vontade da mãe, essa pessoa será condenada.

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  39. É um direito. Tudo aquilo que é permitido pela lei é, automaticamente, um direito.


    E é claro que é um direito da mulher. Não é nem desejável nem exequível na prática que haja uma qualquer autoridade (um médico, um juiz, um comité, um grupo de jurados) a avaliar caso a caso as circunstâncias de uma qualquer mulher e a obrigá-la a ter um filho que ela não deseja.


    Não é encorajado. O facto de a lei permitir que se faça algo não o encoraja.

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  40. O comentador balio tem toda a razão.

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