terça-feira, 5 de março de 2024

E o ambiente?

Volta não volta, aparece alguém indignado porque o ambiente não aparece na campanha.


Claro que todos os partidos têm coisas sobre ambiente nos seus programas eleitorais, de maneira geral declarações de sinalização de virtude, asneiras e coisas sensatas.


Se não aparece na campanha é simplesmente porque não é matéria relevante para a formação do voto da maioria das pessoas (ou, pelo menos, não é entendida assim pelas pessoas que decidem dar importância a esta ou aquela matéria na actividade política).


Não vale a pena argumentar que isso é criminoso e estamos à beira de uma catástrofe ambiental, o facto é que as pessoas comuns não têm essa opinião ou, mesmo que a tenham, não é por causa disso que votam neste ou naquele. Ou melhor, não é sobretudo por causa disso que votam assim ou assado.


É bem possível que as intervenções de Greta Thundberg e seus seguidores, quer os mais institucionais, como António Guterres, quer os mais histéricos, como a Climáximo, tenham um efeito negativo na forma como as pessoas comuns olham para a questão ambiental (há muita gente farta de ruído que não entende), ao contrário da convicção corrente de que contribuiu para aumentar a visibilidade do problema. Não sei se será assim, não sei eu, nem sabe ninguém, o facto é que não se nota qualquer efeito positivo na sociedade que obrigue os agentes políticos a dedicar ao assunto mais que palavras de circunstância.


A Montis, uma associação de conservação de que fui co-fundador e que está a dias de fazer dez anos, vai lançar uma subscrição pública para a compra de terrenos para conservação da natureza, dentro de dias, veremos se ao fim de dez anos consegue ser mais mobilizadora do que foi no seu início, mas o que me parece é que o trabalho de formiguinha destas associações é bem mais relevante, do ponto de vista social, que a vozearia climáxica.


Ainda assim, insuficiente para que o assunto tenha um papel central na campanha para uma eleição.


Eu, que tenho o meu ordenado dependente das políticas ambientais, que ajudei a fundar organizações de conservação, que profissionalmente me dedico ao assunto há dezenas de anos, nem sequer olho para os programas ambientais dos partidos (abri uma excepção para o programa da Iniciativa Liberal, para avaliar as diferenças deste programa para aqueles em que participei, em eleições anteriores, mas por mera curiosidade).


E não é apenas, ou sobretudo, por entender que o maior problema ambiental, o que está na base de todos os outros, é a pobreza, é mesmo porque acho que na nossa vida colectiva há coisas mais relevantes a tratar politicamente neste momento: a qualidade das instituições, a transparência da acção pública, a eficácia da administração pública, a liberdade individual, incluindo das liberdades económicas, a contenção da voragem estatista, só para dar alguns exemplos, são assuntos que podem influenciar mais o meu voto que as questões ambientais.


Isso é desvalorizar as questões ambientais?


Acho que não, no fundo, no fundo, tirando os lunáticos que acham que tudo se resolve destruindo o capitalismo, a verdade é que todos os partidos tenderão a ter uma política ambiental, e a distinção entre os diferentes partidos nessa matéria não será tanto na orientação dessa política, mas na qualidade da sua execução, isto é, transparência, participação e respeito pela realidade, o que inclui a consciência da complexidade do problema.


Não é o ambiente que é um ausente da campanha, somos nós que estamos preocupados com outras coisas, e isso diz mais sobre a qualidade de intervenção dos agentes das políticas ambientais (o que me inclui), privadas ou públicas, que outra coisa qualquer: as generalidade das organizações privadas e públicas na área do ambiente está mais focada em saber onde vai buscar os recursos para as actividades que os seus dirigentes acham úteis, que em trazer as questões ambientais para a vida quotidiana das comunidades em que vivemos.

13 comentários:

  1. Os temas que interessam aos políticos são aqueles que trazem votos...

    ResponderEliminar
  2. Sim, realmente os temas que importam aos portugueses são ambiente (até porque é a pegada ecológica de Portugal que faz toda a diferença), agricultura, política externa ou defesa.

    ResponderEliminar
  3. as grandes zonas urbanas, onde se vive ou passa férias, são o pior desastre ambiental: lixos, ruído, ondas de tele móveis, uso de pcs, etc.

    ResponderEliminar




  4. Isto é a modos que uma confusão, que aliás é habitual fazer-se, entre ambiente e conservação da natureza.


    Uma coisa é conservação da natureza, por exemplo ter os campos cobertos de carvalhos - coisa que interessa a relativamente pouca gente.


    Outra coisa muito diferente é o ambiente, por exemplo ter os rios com água em que nos possamos banhar. Isso interessa, apesar de tudo, a muito mais gente.

    ResponderEliminar
  5. o maior perigo ambiental é a pobreza , sim , mas de espírito  


    vive-se perfeitamente bem , com conforto , sem nos faltar nada , com uns 20 % do que consumimos actualmente.   pelo menos eu consigo.


    criaram um sistema económico esquizofrénico que só sobrevive com o hiper consumo  , o problema está aí.

    ResponderEliminar
  6. Eles são mesmo maus, a criar coisas inúteis que ninguém quer, não se faz

    ResponderEliminar
  7. ó pá , não seja assim  -:)  
    criam imensas necessidades através da pub , enchem as pessoas de inutilidades . basta ver a treta da banca e as dezenas de serviços e carões e apps  pagos caríssimos : não há nada mais simples que pagar em dinheiro vivo , sem dar um chavo a intermediação inútil , mas a malta , tadinha , acha o máximo da modernidade pagar com o telemóvel  -:) e lá andam para todo o lado com um tijolo no bolso e a dar milhões a chulos.


    mas há esperança  : vinted e  mais sites de roupa e outras coisas em 2ª mão. claro que empresas como a zara ou o modelo começaram logo a querer abarbatar para eles a troca entre particulares...está mal.

    ResponderEliminar
  8. O ciclo de vida dos produtos foi reduzido. Como o mercado é finito, e o crescimento eterno uma impossibilidade matemática, resta comprar, usar e deitar fora.

    ResponderEliminar
  9. Na vinted paga-se em dinheiro ou dá-se de comer aos chulos?


    Nós temos é roupa a mais... não advogo que basta uma camisa e um par de calças, mas quando existe no roupeiro algo que não é usado há um ano, algo está mal...

    ResponderEliminar
  10. aí tem razão , nesse caso intermediação dos chulos é necessária , logo não é chulice -:)

    ResponderEliminar

  11. Mas afinal, quem procede mal?
    Eu não tenho problema algum em entrar numa grande superfície e sair sem comprar nada!

    ResponderEliminar
  12. Separar o Guterres dos histéricos é estar mesmo ali no fio da navalha eheheheh para a próxima ele tira uma fotografia com a água pelos cintura.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...