quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Desfasamento

"Habitação, saúde e o Estado Social, com as pensões de reforma na primeira linha, a par do risco de ingovernabilidade, são sem dúvida os principais problemas que enfrentamos e que gostaríamos de ver o futuro Governo a encontrar soluções".


É com este parágrafo que começa o artigo de hoje de Helena Garrido, no Observador, uma jornalista moderada, mais ou menos dentro do grande centrão do sistema, com alguma especialização em temas de economia e de quem gosto.


Chamou-me a atenção por me parecer bem ilustrativo do desfasamento entre o mainstream do jornalismo, em que manifestamente Helena Garrido se encaixa, e muitos grupos sociais cuja preocupações quotidianas dificilmente entram no tal mainstream jornalístico.


O assunto da ingovernabilidade parece-me a mim que não interessa a quase ninguém, suspeito que as pessoas comuns olhem para esse assunto com muita distância, achando que são elas que têm de resolver os seus problemas porque se estiverem à espera do governo, seja ele qual for, ficam apeadas.


O assunto da habitação é um assunto relevante para algumas pessoas de menos de 40 anos que querem viver no centro de Lisboa e do Porto, mas é um assunto que não tira o sono a nenhuma velhinha de oitenta anos a quem a neta se esqueça de dizer que não se preocupe, mesmo aos oitenta e cinco anos, se a renda aumentar bruscamente, é o Estado a pagar a diferença (era, em rigor, estas regras foram alteradas, mas eram as regras que existiam quando Perpétua Mortágua (não fui eu que inventei este nome fictício à avó de Mariana, mas é uma piada fabulosa) terá recebido uma carta do senhorio). Ou seja, ao contrário do que pensa Helena Garrido, estará longe de ser um problema generalizado que leve alguém a votar neste ou naquele.


A generalidade dos pensionistas sabe bem que as perturbações nas suas pensões afectaram sobretudo a pequena minoria com pensões mais altas e que isso decorreu do facto de o Estado ter ficado sem dinheiro.


Sabem também que há um problema de longo prazo no financiamento das pensões, mas que esse problema existe independentemente do governo ser de este ou de aquele, portanto acompanham o que se diz sobre a sustentabilidade da segurança social, mas sabem perfeitamente que ninguém tem soluções mágicas.


Reconhecem, com excepção de Rosário da APRE!, que todos estão a fazer tudo o que podem e sabem para assegurar o mínimo de perturbações no pagamento das pensões e que o importante é o Estado não se pôr a gastar o dinheiro do contribuinte em fantasias arriscadas.


O que mais ou menos toda a gente reconhecerá, mas não Helena Garrido, que se esqueceu desse pequeno problema na enunciação dos problemas com que estamos confrontados no momento de decidir em quem votar, é que sem uma economia que funcione melhor, os níveis de rendimento não sobem por aí além e, portanto, no centro dos motivos para votar em A ou B, está o que cada um pensa que será o futuro da sua carteira.


Há grupos específicos, que podem ser ultraminoritários, como o meu, para quem a questão central está na qualidade das instituições e nos mecanismos de decisão das políticas públicas. Representamos eleitorados marginais, grande parte dele concentrado nos 5 a 7% da Iniciativa Liberal (embora eu vá votar na AD exactamente porque a Iniciativa Liberal resolveu funcionar internamente em evidente contradição com esta questão central, a da qualidade das instituições).


Há grupos específicos, também ultra-minoritários, para quem a questão central é a apropriação colectiva dos meios de produção (seja pela propriedade directa, seja pela ideia de que diminuir os impostos empresariais sobre os lucros é o mesmo que borlas fiscais, porque os lucros são, por definição, do Estado) e estão dispersos pelos 5% do BE, os 2 ou 3% do Livre e do PC e ainda mais uma fatia no PS.


Há outros grupos para quem a imigração é um problema, mas são grupos mínimos, aliás, o mais interessante do debate ontem entre Mariana Mortágua e André Ventura foi a absoluta coincidência dos seus pontos de vista sobre imigração: os dois defenderam, explicitamente, a imigração, com regras que não diferiam substancialmente.


O que verdadeiramente define a esmagadora maioria do eleitorado é o facto de quase toda a gente se perguntar: se o governo for do Zé ou do João, tenho mais probabilidade de me safar e ter uma vida melhor, ou não?


Os que não vêem em si próprios condições e possibilidades de melhorar com o seu esforço, tentam ver de onde caem mais migalhas para a sua mesa, os que acham que desde que os deixem, conseguem safar-se, tentam ver quem os prejudica menos.


O resto é só o resto.


Infelizmente o jornalismo perde demasiado tempo a discutir, em circuito fechado, a governabilidade e inutilidades que tais, em vez de ir para a rua tentar compreender como é que as pessoas vêem que cada partido as pode prejudicar ou beneficiar.


Se um dia se vier a verificar a hipótese, possível mas não plausível, do Chega ultrapassar a votação do PS, deixando-o como  terceira força política no parlamento, a esmagadora maioria dos jornalistas vai explicar de forma absolutamente lógica, como afinal já tinham previsto que isto poderia acontecer e é inacreditável como os políticos não conseguiram perceber o que estava para vir.


Já agora, se estão preocupados com as votações do Chega com André Ventura, esperem até ver o Chega com Rita Matias à frente.

20 comentários:


  1. se estão preocupados com as votações do Chega com André Ventura, esperem até ver o Chega com Rita Matias à frente


    Que tem Rita Matias de tão atraente?


    No partido unipessoal que o Chega é, tenho-a visto (ocasionalmente, na televisão) nas ações de campanha, mas sem protagonismo nenhum.


    Onde se observa o seu brilhantismo como dirigente política?

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  2. Quando se é pobre, a prioridade e preocupação é meter comida na mesa. Pode parecer redutor, e decerto a elite intelectual concorda, mas é o que é. Tal como democracia e liberdade são muito bonitos, mas de barriga vazia não funcionam.
    Quando os partidos ditos tradicionais se viram para outras causas, mais etéreas, os chamados populistas vão buscar esta gente. Tem sido um problema democrata nos USA, por cá o PS ainda tem noção de que os cabazes e os subsídios são essenciais à sua manutenção no poder.
    Os partidos de "causas" como PAN e BE chegam a uma franja que prioriza a saúde do canito e o acesso à broca, ou o casamento entre o mesmo sexo, quando chega a altura de ir além disso, ficam sem votantes. 
    Mas em boa verdade, os votantes não querem saber das grandes questões, mas os políticos também não têm capacidade para as discutir, até porque para muitos o conhecimento do país termina naquela placa que diz A1 Norte.

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  3. Percebo o comentário, mas está profundamente errado.
    Uma das principais razões do meu voto na IL prende-se com o facto de ser intrínseco ao liberalismo o reforço das instituições.
    A partir do momento em que a direcção da IL demonstra, internamente, que essa é uma questão marginal para si, esse factor distintivo deixa de existir, o que significa que outros factores podem pesar mais no meu voto (incluindo remover o pessoal político que há trinta anos ocupa, e mal, as instituições, enfraquecendo-as todos os dias).

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  4. O desfasamento entre a realidade e a percepção da realidade do autor do post a manifestar-se mais uma vez.


    "O que verdadeiramente define a esmagadora maioria do eleitorado é o facto de quase toda a gente se perguntar: se o governo for do Zé ou do João, tenho mais probabilidade de me safar e ter uma vida melhor, ou não?" (autor do post)Completamente desfasado da realidade. Nem vale a pena perguntar se a abstenção é um indicador da saúde da democracia.

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  5. Tem razão no facto de que teria sido mais rigoroso escrever votantes que eleitorado.

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  6. Henrique, colocar a imigração como o foco do chega é para rir (mas percebe-se a intenção de menorização, estamos habituados). Colocando esse foco como tendo pontos de vista coincidentes com o bloco é de ir às lágrimas. Tirar então isso do debate de ontem, onde mais uma vez o que se faz é discutir o programa do chega, é mirabolante. Achar que é na AD que está o cuidado com a qualidade das instituições e nos mecanismos de decisão já me parece estranho.
    Em tudo o resto, na mouche como habitual. Um abraço.

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  7. Desculpe Henrique, um acrescento: tudo o resto na mouche não, a questão da Rita Matias não dá para perceber. Pronto. Agora sim. Um abraço e vamos todos votar.

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  8. Nem o post é sobre o Chega, nem eu falei no foco do Chega, portanto não percebo.

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  9. Exemplos:
    O PSD quando esteve no Governo deu ainda mais poderes à fiscalidade ao arrepio do Limite de poderes criando a Autoridade Tributária em 2012.

    Temos dívidas a empresas privadas sendo cobradas pelo estado= exemplo Autoestradas.


    Temos os Estado a cobrar e consignar taxas a entidades privadas  - associações de direitos de autor por exemplo. Começado pelo Governo PSD.


    Temo que vá sair despontado de um governo AD em vez de um Governo onde a IL tenha impacto, até porque para ser parceiro de um governo AD a IL teria de se distinguir pelo seu Liberalismo.

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  10. Parece-me que o problema da habitação é bem maior do que o Henrique diz. Sendo verdade que ele afecta especilmente os jovens que querem constituir família e/ou os que queram ir trabalhar para longe da casa dos pais, o certo é que essa aflição passa dos jovens para os seus pais e para os seus avós e outros parentes, todos eles eleitores... e votantes ou não votantes.

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  11. Concedo que não é sobre o Chega, nem eu disse que o post é sobre o Chega, embora acabe com um "no próximo episódio..." na Rita Matias que não dá de todo para perceber.
    Contudo, quando menciona que há grupos minoritários, onde inclui a IL, (embora o Henrique vá votar AD) 

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  12. e/ou os que queram ir trabalhar para longe da casa dos pais


    Exatamente. A começar pelos médicos e professores oriundos da "província" ou "do Norte" que poderiam ser colocados em Lisboa ou no Algarve, mas rejeitam essas zonas porque sabem que nelas não conseguem arranjar casa que possam pagar com o seu salário de médico ou professor. Com a consequência de nessas zonas (Lisboa e Algarve) haver imensas pessoas sem médico de família e sem professores para os seus filhos.

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  13. Os votantes dos 61% escolhem o que lhes dá mais a curto prazo (falhando em discernir que escolher o que dá mais a curto prazo muitas vezes implica ficarem com menos no futuro). 


    PS: a imigração preocupa mais pessoas do que nós pensamos, não subestimemos esse assunto

    PS2: ´"O Ventura é isto e aquilo mas é o único que diz as verdades": tornou-se um cliché mas é incrível a quantidade de pessoas que já ouvi dizerem isto!  

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  14. (cont.)
    e agora temos um Pedro Nuno Santos:



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