sábado, 13 de janeiro de 2024

Os mediadores

publico pib 2013.jpg


Quando na apresentação do seu livro "A religião dos livros", o meu sobrinho Carlos (o tal da Crítica XXI), acho que foi ele, referiu que não era verdade que se lesse cada vez menos, pelo contrário, hoje lê-se muito mais que noutra altura qualquer da história, fiquei a pensar na confusão entre a ideia de que publicar livros (ou jornais) é hoje um negócio mais difícil do que já foi ou a ideia de que haver menos livrarias e quiosques menos prósperos (os donos do quiosque onde compro o jornal, e da papelaria próxima, explicam-me que o principal negócio das papelarias, hoje, é vender jogo) é equivalente a menos leitura.


Já agora, a ideia de que há hoje menos edição não poderia estar mais errada, também, hoje publicam-se muito mais títulos do que se publicava no auge do negócio da edição de literatura e afins, eu, por exemplo, tenho quatro livros publicados que dificilmente seriam publicados nesses tempos áureos.


Publicar um livro era muito caro, para um mercado com dinheiro para pagar livros caros, logo, um mercado muito limitado, que era mediado pelo acesso a alguém disposto a arriscar o seu dinheiro na sua publicação e que, por isso, tinha um poder central no mundo da edição, que hoje está largamente diluído.


O que se tem vindo a chamar crise do jornalismo é sobretudo a crise dos mediadores históricos, os jornalistas e editores dos jornais.


Eu não tenho a menor dúvida de que a generalidade das pessoas prefere crónicas de Ana Cristina Leonardo ou António Araújo às de Carmo Afonso ou Clara Não, mas os mediadores que detêm o poder nos jornais remetem Ana Cristina Leonardo para os fundilhos de uma revista cultural ("e não se pode extingui-las?") ao mesmo tempo que entregam, dia sim, dia não, espaço nobre do jornal à indigência intelectual de Carmo Afonso (e nem vou falar da presença de António Araújo e de Clara Não no Expresso).


Depois queixam-se de que os jornais são um mau negócio e as pessoas preferem o lixo das redes sociais porque não querem pagar produto de qualidade.


Durante o tempo da troica, eu, que não sou economista, mas gosto de ter informação que me permita pensar pela minha cabeça, mesmo reconhecendo que é pouco inteligente confiar excessivamente em mim, usava a informação dos jornais para saber que tinha saído este ou aquele relatório, ou que o governo ou a oposição tinham feito isto ou aquilo, para depois ir à procura de informação em que pudesse confiar, porque no que os jornais diziam dos relatórios ou do que tinha sido feito, seguramente eu não podia confiar.


O blog de Pedro Romano, "Desvio colossal", ou a consulta ao site do INE, era-me muito mais útil que o dizia o jornalismo de economia sobre a situação do país.


Publico, regularmente, a cópia da capa do Público que ilustra este post, como lembrança de um tempo em que um jornal faz a manchete que faz, absurda, e em que a resposta da jornalista responsável pela peça, com quem falei na altura e a quem demonstrei que a manchete era aburda, foi a resposta habitual de que o relatório do FMI permitia aquela interpretação, como se a sua função não fosse transmitir, o mais fielmente possível, a substância do relatório, mas encontrar a interpretação mais original que o relatório permitisse (nem sequer permitia essa interpretação, mas mesmo que permitisse, a obrigação era realçar que era uma das interpretações possíveis e não o que o relatório dizia).


Já agora, para quem tem curiosidade, a queda do PIB em 2013 foi de 1,4%, metade da previsão que o Público (falsamente) dizia ser o limite inferior das previsões do FMI. Um pormenor delicioso, apesar do resultado muito melhor do que os próprios jornalistas diziam que eram as previsões do FMI, isso não os demovia de escrever, depois, em conclusão "No entanto, 2013 foi, ainda assim, um ano muito duro para a actividade económica. A recessão de 1,4% só foi ultrapassada por três vezes desde 1960, quando começa a série do INE. Apenas foi mais negativo logo a seguir à Revolução, em 1975 (-5,1%), em 2009 (-2,9%) e em 2012 (-3,2%)".


E o mesmo para a política, a conversa do ir além da troica, dos convites à emigração, a ideia de que Passos Coelho enganou os portugueses porque durante a campanha eleitoral porque disse que não ia haver austeridade e mais uma data de coisas, são criações mediáticas desmentidas em toda a linha pela audição das afirmações originais em que se baseiam.


É, aliás, toda a cortina de fumo mediática que existiu durante a intervenção da troica que permite, ainda hoje, que a estratégia do PS seja eficaz.


Ainda hoje o PS nega a responsabilidades na situação de aflição financeira em que entregou o país a Passos Coelho e atribui todas as dificuldades posteriores durante governo do PS à herança que Passos Coelho lhe deixou.


Ainda no fim de semana passado Pedro Nuno Santos, ao fim de quase dez anos de governo, pretendia atribuir a responsabilidade pelos problemas na habitação aos quatro anos de Passos Coelho, valeu na altura uma jornalista farta de tanta aldrabice, embora se tenha esquecido de perguntar a Pedro Nuno Santos em que critérios se baseia para dizer que o que PS diz que vai fazer no futuro, em matéria de habitação pública, é mesmo maior que o PER de Cavaco Silva.


No que me diz respeito, não acredito que a degradação do papel mediador do jornalismo é responsabilidade das alterações no mundo.


Há de facto alterações na sociedade relevantes sobre o acesso à informação que levantam problemas muito complicados ao negócio do jornalismo.


Independentemente da visão paternalista que nos quer convencer de que sem mediação somos uns carneiros desvalidos, o facto é que a desvalorização da posição mediadora dos jornalistas é, em grande medida, responsabilidade dos jornalistas que passam a vida a abusar dessa posição, pretendendo usá-la para mudar o mundo, em vez de o descrever o mais rigorosamente, como era seu dever.

19 comentários:

  1. a maior parte dos livros, revistas e jornais é lixo que nem o caixote ou a lixeira aceitam de bom grado.
    o partido único ficou com o PPC entalado no gargalo, porque procura esquecer:
    TRÊS BANCAROTAS, 2 das quais no tempo de Soares e do vidraceiro 'monami' 


    tudo preparado para nova absolutíssima

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  2. Os jornalistas nem as redes sociais conseguem perceber e escrutinar, quanto mais o impacto daquelas no seu "negócio".
    Pior para eles ficará quando a geração pré-redes se extinguir.

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  3. A internet veio dar uma (falsa) sensação de informação às pessoas. O acesso global aos dados e informação criou um batalhão de auto-didactas, que por "lerem" se acham automaticamente informados, ou mesmo peritos. O equivalente ao senhor que era muito intelectual porque tinha um armário repleto de livros (ainda vale, basta olhar para os fundos das videochamadas), embora não soubéssemos se ele realmente sabia o que estava lá escrito. 
    Agora o debate é "citar" e puxar de links, remeter para artigos cuja fiabilidade depende do que nós pensamos ser real e credível, o método científico de pesquisa foi subsídio pelo método da bolha.
    E os jornalistas? Bem, podiam e deviam ser diferenciados, como se diz agora, mas são exactamente do mesmo material que tanto criticam. Mal por mal antes as borlas do face, assistir a missas não obrigado, polígrafos a martelo antes os do dr. Musk que sempre é um tipo entretido.
    Para quê ver ou ler pessoas ignorantes, e pagar por isso, quando tenho um universo delas na ponta do dedo? E se acham que a coisa está mal, desenganem-se, vem aí uma geração que procura conteúdos, recusa-se a recebê-los; não vê tv, nao lê jornais, mesmo digitais, não ouve rádio. 

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  4. Mesmo na faculdade lia jornais diariamente. Por vezes comprava, mas quase sempre lia os que encontrava na biblioteca. Já a trabalhar, comprava diariamente o JN, e intervalava o Expresso com o Independente. Fostava destes jornais pela sua diversidade de opiniões. Quando esta desapareceu, deixei de vomprar jornais. Há mais de 10 anos que deixei de os comprar  embora leia alguns ( digitalmente) e ainda compre um ou outro quando algo me interessa. A diversidade de opiniões diminuiu, e a qualidade jornalística também. São publicados textos sem informação, ou mesmo com desinformação. Os erros ortográficos e os brasileirismos abundam. Não sei as razões, porém tenho pena que tenha acontecido.
    O jornalismo deve ser factual.
    Cumprimentos,
    Catarina Silva 

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  5. Quando os jornalistas profissionais não passam de militantes de realidades alternativas, abre-se espaço aos ditos autodidactas. 
    No fim do dia, é sempre preferível um bom autodidacta, que um mau jornalista, ainda que encartado ... 

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  6. Na Universidade até o Avante lia. E não fiquei contaminado.
    Hoje, também fruto da mentalidade de bolha e da vaga woke, só se é permitido ler aquilo e aqueles com cujas opiniões concordamos. A new age religiosa liquidou o que de melhor se criou na sociedade europeia, a tolerância. 
    No jornalismo noticioso pouco a dizer, desde a opinião encapotada ou explícita à falta de qualidade intelectual e/ou de escrita (que vai desde o c/p descarado ao brasileirismo, fechando em linguagem juvenil que nem numa composição do 7⁰ ano passava), a caça à visualização (alerta cm! Alerta cm) e a sensacionalização da notícia. A informação mistura-se com o entretenimento. E a procura incessante do momento "aha!" e de dar as respostas imediatas, de preferência de acordo com as ideias pré-definidas dos espeCtadores. Bons exemplos são a cobertura ao Chega, e o descartar dos peritos chamados durante o covid que se recusavam a fazer previsões pois não possuiam dados. 

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  7. Continuam a fazer spin na caixa de comentários. Quando não gostam não publicam. É cá e é lá fora. O vício é mais forte que eles.
    Tem um bom exemplo recente: Costa presidente do conselho europeu. A Santa Mãe da Propaganda governamental, a Lusa, deitou um artigo cá para fora para dizer que António Costa estava na linha da frente. Artigo cozinhado, nitidamente. Todos reproduziram, ou quase.
    Ontem, no Sol, outro artigo sobre o tema. Mas como não consta que o Sol goste de Costa - é pensar nos accionistas - o nome dele nem sequer é mencionado.
    São assim os nossos jornalistas. Acham que nos podem vender o peixe como eles o cozinham. Esquecem-se que com o google é fácil chegar a outras fontes de informação e que o avanço no conhecimento da língua inglesa por cá é tanto que até os gatos já sabem miar yes.

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  8. As soluções para o claro desaparecer do jornal diário em papel envolve vários perfis de afectados: os proprietários, todos com rendimentos directos (e não só os jornalistas propriamente ditos), toda a cadeia economico/financeira associada, a montante e a juzante, inclusivé os partidos políticos na sua nobre acção de formatar favoravelmente a opinião pública.

    Consta que a indústria do papel de jornal diverseficou-se facilmente para o ramo do papel higiénico, por exemplo. Outras actividades, pessoais ou colectivas terão igualmente que se diverseficar. Alguns jornalistas terão fácil adaptação, a continuidade do labor panfletário, nos seus respectivos afectos partidos. C'est la vie.  

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  9. hoje lê-se muito mais que noutra altura qualquer da história


    Basta ver que o que nós estamos aqui a fazer, a olhar para um écran, é ler.


    Ler um post ou um comentário num blogue é ler.

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  10. a ideia de que há hoje menos edição não poderia estar mais errada


    Claro que está. Basta frequentar regularmente livrarias, como eu faço, para nos apercebermos de que cada vez há mais livros editados. A quantidade de títulos editados em Portugal cresce de ano para ano.

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  11. A manchete é, em minha opinião, absurda, porque não se refere a algo que se tenha passado, ou seja, a um qualquer facto incontroverso e real, mas simplesmente a uma previsão.


    Ora, previsões não são factos e, embora mereçam eventualmente e muito ocasionalmente publicação num jornal, nunca deveriam ser manchetes.


    As pessoas têm que ter consciência de que previsões não passam disso mesmo, e a maior parte das vezes falham redondamente, pelo que de facto não se lhes deve ligar nada.


    O facto de a previsão ter sido feita pelo FMI e não pela astróloga Maia não deve fazer com que ela mereça publicação num jornal.

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  12. Dois apontamentos, alusivo ao jornal acima, e à atualidade policias.
    a) Com artigo para o Expresso, ali sem espaço:

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  13. Dois apontamentos, alusivo ao jornal acima, e à atualidade policias.
    a) Com artigo para o Expresso, ali sem espaço:

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  14. Lê-se menos e publica-se menos livros, jornais, e revistas, do que no tempo do Estado Novo.

    O que hoje se publica em Portugal é lixo, a comunicação social Portuguesa (ou médias) é controlada pelos liberais/maçonaria, são meios de propaganda que não diferem em nada entre si, não existe diversidade na informação e conteúdos, nem princípios, nem valores ou ideologias, vigora o pensamento único, o silenciamento, e a cultura do cancelamento, um cenário impensável e que nunca existiu durante o Estado Novo.

    Voltámos ao tempo da tirania liberal/maçónica que foi imposta a Portugal e aos Portugueses pelo golpe de Estado de 1820.
    Os únicos jornais que ainda vale a pena comprar e ler são O Diabo (https://jornaldiabo.com/) e o Tal & Qual (https://talequal.pt/), embora sejam um bocado caros para as poucas páginas que trazem.

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  15. É absurda sim, o FMI nunca fez esta previsão, esta é uma previsão feita pelo jornal com base numa alteração que o FMI fez no cálculo dos efeitos de uma acção qualquer.

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  16. Olhar para letras não é exactamente ler.

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  17. Ó Lavoura, tu decide-te pá.

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  18. Mesmo que o FMI tivesse feito aquela previsão, ela dificilmente mereceria ser publicada. Previsões não são realidades, não são notícias. Um jornal deve noticiar coisas que aconteceram realmente, não os palpites que pessoas fazem sobre o futuro.

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  19. Os tempos verbais usado em notícias deviam ser caso de estudo. Mas como pouco se lê, as palavras simplesmente adaptam-se ao que pensamos.

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