Rui Ramos começa hoje a sua crónica com uma frase batida: "Em Portugal, a vida da oposição nunca foi fácil".
Não estou de acordo.
A vida da oposição no tempo de Cavaco (antes disso não havia propriamente situação e oposição, porque todos eram tudo ao mesmo tempo) não foi fácil, é verdade, porque se estava no segundo maior período de crescimento e convergência com os países mais desenvolvidos do século XX (o primeiro foi entre a adesão à EFTA e o primeiro choque petrolífero, em 1973) e é sempre difícil ser oposição a um governo que governa numa altura em que há uma melhoria de vida generalizada.
Mas daí para a frente, a vida da oposição de direita nunca foi fácil, mas a vida da oposição de esquerda foi sempre facílima, basta ver a quantidade de vezes em que há títulos de jornal como "BE quer" isto e aquilo, sem que ninguém se pergunte realmente o que significam as suas propostas e se avaliem os resultados práticos das políticas que defende.
Um bom exemplo é o da posição dos políticos sobre a Palestina: é facílimo dizer que se é a favor de uma Palestina livre, sem que um único jornalista pergunte, como devia, se isso quer dizer que o Estado de Israel deve ser varrido do mapa, ou como se espera que os direitos do judeus sejam garantidos num Estado de maioria árabe muçulmana que venha a existir.
A vida da oposição no tempo de Passos Coelho era tão fácil que praticamente ninguém perdeu tempo a perguntar aos então oposicionistas o que pensavam sobre o memorando de entendimento com a troica que o PS tinha negociado.
A oposição a Passos Coelho era tão fácil, que facilmente se fala do enorme aumento de impostos de Vítor Gaspar sem o ligar à estranha decisão do Tribunal Constitucional que, ao arrepio do que tinha decidido no tempo de Sócrates sobre cortes na função pública, resolveu defender os funcionários públicos à custa de toda a gente, obrigando à solução de recurso de aumentar os impostos, para garantir o cumprimento dos objectivos estabelecidos no memorando de entendimento que o PS tinha negociado com a troica.
A vida da oposição de direita e liberal é de facto difícil, mas a vida da oposição da esquerda tem sido um mar de rosas, quase nem havendo registo do facto de Mariana Mortágua achar que nem os 600 milhões previstos na privatização iriam ser conseguidos, e hoje dizer que os 900 milhões pelos quais os CTT foram vendidos foi uma venda ao desbarato.
Não, não é a vida da oposição que é sempre difícil em Portugal, é a imprensa (deveria dizer, a esmagadora maioria das redacções dos jornais, como se pode ver pelo Observador, cuja redacção pede meças ao Público na sua inclinação sentimental pela esquerda e o wokismo) que escolheu um lado, em vez de cumprir o seu papel de produtor independente de informação (veja-se o editorial do Público de hoje, se houver dúvidas).
Estranhei o teor ambiguo da crónica. À direita tudo a remar para o mesmo lado, ou seja para baixo. Enfim...
ResponderEliminarEngraçado, só se preocupam com a existência do Estado Israelita...os cristãos árabes esses não interessam!!! Esses e mesmo para serem extintos com as políticas de Israel para a região...triste Ocidente!!!
ResponderEliminarNão percebi o comentário.
ResponderEliminarSe se está a discutir a Palestina, é normal que a questão esteja relacionada com os judeus.
Se se estivesse a discutir o Líbano, é natural que a questão dos cristãos fosse mais relevante.
ResponderEliminarcomo se espera que os direitos do judeus sejam garantidos num Estado de maioria árabe muçulmana que venha a existir
Ao longo da história muitas vezes os judeus viveram em Estados de maioria árabe muçulmana, e nalguns outros de maioria muçulmana não-árabe, com os seus direitos garantidos (embora geralmente esses direitos fossem menores do que os dos muçulmanos, mas também tinham a vantagem de não terem que ir à tropa).
Ainda hoje judeus vivem pacificamente em Marrocos, na Tunísia e no Irão.
ResponderEliminarCavaco, Palestina, wokes... tudo no saco.
A vida da Oposição é facilitada pela comunicação social, a que ia fazer reportagens para o Aeroporto a filmar as mães chorosas dos filhos que emigrados à força. Fenómeno que terminou abruptamente.
Com ou sem vida boa, e tivemos, enfim, "tivemos", que este país é e sempre foi miserável, há sempre coisas a apontar, basta querer. A onda de criminalidade na altura do Fernando Gomes (também extinta por um qualquer milagre), um idoso que morre numa maca, um incèndio, uma cheia, etc. Quando se escolhe dar mais ênfase ao tipo que morre na ambulância do que a um incêndio de Pedrogão sim, a vida de quem governa fica mais ou menos facilitada.
Claro que depois há o factor vergonha. Na cara. Costa tem zero. É uma espécie de Trump, menos alaranjado. Ri-se das desgraças alheias, e ainda goza o prato.
Por fim, vamos admitir... a oposição de Direita, sendo que alguma faria igual ao PS, não é propriamente um poço de qualidade intelectual e estratégica.
ResponderEliminarMuito bom. Entretanto parece que se está a ir num bom caminho. Os micro-egos que dividiam a direita eleitoral em micro-partidos está a organisar-se, eleitoralmente. O actual sistema implantado, desde Abril, resultou num destrutivo comunismo / socialismo, sempre caricatamente apregoado, em capanha eleitoral, como social-democracia!.
Em eleições existem só 3 tipos de eleitores: os de esquerda, os de direita e os absentistas.
A lírica, ou deliberada, divisão dos eleitorados em múltiplos micro-partidos / micro-egos, é na verdade uma, consciente ou não, 5ª coluna. Soma-se o sagaz método de D'Hondt e boletins de votos não uninominais (apenas por partidos) e as eleições, ditas em democracia, são tudo menos um homem um voto. Resulta uma AR de funcionários -mesmo que impolutos e "brilhantes"- representantes dos partidos.
As consequências para todo País ao fim de meio século estão bem à vista.
E que conclusão se deve tirar do facto de, mesmo quando se funda um jornal para um público-alvo de direita, não se consegue constituir uma redacção sem "i"? Não será a de que estamos velhos e já não existem pessoas entre os 25 e os 35 anos sem "i"? (ou que acham que têm de manifestar essa "inclinação sentimental" se querem ter amigos e carreira)
ResponderEliminarMuito bem resumido. É isto mesmo.
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ResponderEliminarA ida á missa hoje é o telejornal, os jornalistas são os padres contemporâneos, são eles que dizem o que é a virtude e o pecado pois a Politica substituiu a Religião como Fé contemporânea.
ResponderEliminarOs jornalistas são assim os padres da politica.
E no entanto (sem desmentir a tirada que diz ser a redacção do Observador de pendor esquerdista) há que dizer que não vejo em mais lado nenhum (nos média nacionais) os artigos que vejo e leio com agrado no Observador (de pendor tradicional direita) além de programas no rádio Observador com a mesma tendência (contra corrente etc etc).
ResponderEliminarParece-me igualmente evidente que o jornal O Nascer do Sol é também uma outra excepção na tendência esquerdista dos média regimentais nacionais.
ResponderEliminarPor isso assino o jornal. Mas é inegável que a redacção não se distingue muito da do Público (que, há uma dúzia de anos, deixei de comprar, mas vou lendo, para me horrorizar). Parte será efeito do "corta/cola" de despachos da Lusa (onde a percentagem de eleitores do PCP será superior à de Avis), a outra admito que já possa ser um viés geracional, espontâneo ou por pressão social.
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ResponderEliminarExcelente questão, excelente comentário.
Diria que há vários para quem essa crítica da "moralidade" é totalmente injusta, designadamente a trupe com que o PS controla a RTP (televisão e rádio) - vários deles contratados para aliviar o orçamento da Impresa dos seus "activos" mais caros (o Nicolau, o Teixeira, a Lourenço, o Adão e Silva - excluo a Cândida Pinto desse grupo, apesar de a sua "transferência" também ter ajudado à restruturação do Dr. Balsemão). São todos impagáveis (no sentido figurado, infelizmente), tal como a senhora que é prima do PM e o entrevistou e aquelas duas mentes brilhantes (por falta de coberto capilar) subitamente promovidos a "tudólogos" de topo, os senhores Ricardo Jorge Pinto e Pedro Sousa Carvalho, Dito isto, nesta categoria, a minha preferida é a autora do clássico "Sócrates: o menino de outro do PS", que me despertou no outro dia com um programa sobre os perigos da desinformação e das "fake news" - assunto acerca do qual ela, obviamente, percebe com poucos.
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