Não, o post não é sobre o novo aeroporto, embora tenha como base a discussão sobre o novo aeroporto.
Para simplificar, cito João Miguel Tavares no Público de hoje.
""Se o advogado não vir acordo possível para a opção Alcochete e a ANA continuar a insistir na opção Montijo, o PSD deverá abandonar a ideia de Alcochete". Vale a pena sublinhar o que está aqui a ser dito: se no braço-de-ferro entre Estado e ANA o doutor Souza d'Alte achar que a ANA +e que deve decidir a localização do novo aeroporto, Alcochete vai pelo cano ... Conclusão: "O PSD não tem interesse em sobrepor-se ao concessionário"".
Já Rosário Partidário (declaração de interesses, conheço Rosário Partidário há muitos anos, cruzámos profissionalmente aqui e ali, raramente com opiniões coincidentes) tinha dito que os maiores riscos para Alcochete eram jurídicos e acrescentou que estamos nas mãos da ANA.
Há muita gente escandalizada com o peso que a ANA tem na decisão sobre a localização do aeroporto (como se os atrasos nessa decisão fossem da responsabolidade da ANA, já agora) e João Miguel Tavares, nesta crónica, até invoca as ligações ao poder de José Luis Arnaut, presidente da ANA, para fazer processos de intenções sobre eventuais trocas de favores entre a direcção do PSD e José Luís Arnaut, sabe-se lá a troco que quê, diz ele.
Não vou perder tempo a fazer notar que ninguém podia prever a situação política existente ao tempo da entrega do relatório da comissão do aeroporto, nem a realçar que, com certeza, a ANA saberá muito mais de gestão de aeroportos que Rosário Partidário e toda a comissão.
Não são esses os ângulos do assunto que me interessam.
O que me interessa é esta ideia de que os contratos com o Estado são uma coisa de cumprimento facultativo para o Estado.
De todas as privatizações de Passos Coelho, a da ANA é a que mais me incomoda porque preferia que os aeroportos tivessem sido privatizados um a um, criando concorrência entre eles, por mais que perceba que isso poderia significar que alguns aeroportos poderiam não ter interessados e, sobretudo, que o valor global que se conseguiria arrecadar com a privatização seria muito diferente.
Ou seja, veria com bons olhos que os milhares de milhões gastos na TAP tivessem antes sido usados a resgatar a concessão da ANA, se se entender que o contrato de concessão é desequilibrado a favor do concessionário (não faço ideia se é, não percebo nada do assunto).
O que não faz sentido é dizer que o Estado está nas mãos de um concessionário, o Estado está nas mãos de um contrato e é normal que as questões jurídicas decorrentes desse contrato sejam escrutinadas ao pormenor por juristas e, se necessário, dirimidas em tribunal, o que não faz sentido é o Estado estar a responsabilizar o concessionário pelos efeitos que decorrem de um contrato livremente assinado pelo Estado.
O que não faz sentido é uma comissão sobre este assunto não discutir, à cabeça, as questões decorrentes do contrato e dizer que o resgate da concessão custa X e isso deveria, ou não, ser feito para que fosse tomada uma melhor decisão ou, em alternativa, desenhar soluções que sejam aceitáveis pelo concessionário.
Quando em determinada altura aproveitei umas decisões do governo Sócrates para passar uns anos fora da administração pública, o que me permitiu pagar as minhas dívidas da vida inteira, antes de voltar à função pública, o Estado alterou unilateralmente essas condições umas quatro vezes, de uma forma que qualquer tribunal de trabalho teria decidido a meu favor se tudo se passasse na actividade privada.
Quando, irritado com essa prepotência, conversei com um dos meus irmãos, mais que habituado a avaliar essas prepotências (não só tinha sido procurador no tribunal do trabalho como trabalhou muitos anos na Provedoria de Justiça), ele não teve a menor dúvida em dizer que era evidentemente uma prepotência, se fosse na privada ganhava de caras qualquer processo no tribunal de trabalho mas, para ele, era evidente que ao Estado não se poderiam aplicar as mesmas regras porque alguém poderia aproveitar para aprovar coisas favoráveis aos amigos e depois quem arcava com as consequências eram os contribuintes. Não consegui convencê-lo de que era o Estado que tinha de encontrar maneiras de penalizar os seus funcionários que abusassem do seu poder, em vez de restringir os meus direitos ao ponto de me ser impossível contestar decisões unilaterais sobre um contrato que eu tinha com o Estado, e que se traduziam em reduzir em 50% o que recebia, de um momento para o outro.
O Estado e a sociedade acham tão normal que o Estado tenha um entendimento especial do cumprimento dos contratos que assina, que até tem um tribunal privativo, o tribunal administrativo, em que as regras são diferentes das que se aplicam a quaisquer outras duas partes em conflito.
E é por isso que a ANA vai buscar José Luís Arnaut, ou qualquer outro "influencer", para seu presidente, porque sabe que em Portugal os mecanismos informais de decisão são pelo menos tão importantes como os contratos que o Estado assina e em que não se pode confiar (Neeleman, a esta hora, já percebeu isso, deveria ter contratado Pedro Nuno Santos para presidente não executivo da TAP, logo que tomou conta da empresa).
Só que o problema não está nos concessionários e afins que têm de lidar com o Estado, o problema está num Estado anti-social que considera que os contratos que assina podem ser sistematicamente contestados, não com argumentos jurídicos, mas com tretas como o desequilíbrio de contratos de concessão a favor do concessionário, como se fossem os concessionários a impor os contratos ao concedente.
Em Portugal, basta um governante, um comissário, um jornalista, um comentador, dizer que o Estado não pode estar nas mãos dos concessionários para obter um aplauso generalizado, sem que alguém faça notar que o Estado não está nas mãos das pessoas ou instituições com quem estabelece contratos, está nas mãos dos contratos e das leis que os regem, e é bom que assim seja, o respeito pelos contratos é uma marca de água da solidez social das comunidades em que são estabelecidos.
Só Estados anti-sociais, como o nosso, passam o tempo todo a romper contratos com argumentos não jurídicos de treta.
os contribuintes estão sempre na mão do estado, principalmente do atual social fascismo
ResponderEliminaro estado nunca será pessoa de bem porque a lógica da burocracia se baseia «em que posso atrapalhar!»
Muito rapidamente.
ResponderEliminarPara quando, e de uma vez por todas se passa a dizer Benavente quando se fala num aeroporto na margem sul num terreno de um campo de tiro, que por mero acaso se chama Alcochete. Curiosamente, nem a porta de armas está no concelho de Alcochete, quanto mais andarem ouvir permanentemente o seu presidente de Câmara, e nunca o presidente da Câmara de Benavente.
Portugal é um típico país de terceiro mundo, que por acaso, fica na Europa...
ResponderEliminarTambém se pode falar em captura do Estado por interesses privados.
ResponderEliminarPara Arnaut vir "oferecer" à Nação um aeroporto, assim, à borla, diz muito da galinha dos ovos de ouro que a Portela é.
Só que se pode falar de um problema maior nas privatizações das chamadas utilities: quem fica com elas é arredio a investimentos. Vão roendo o osso até dar. Lendo a imprensa britânica, é o que por lá não falta. Isto de substituir monopólios públicos por monopólios privados não parece ser grande coisa.
ResponderEliminarHá razões legais para anular contratos, nomeadamente clausulas abusivas.
A razão pela qual muita/alguma gente desconfia destes contratos e acha que o Estado está nas mãos dos privados vem do facto dos negociadores por parte do Estado não só serem pouco hábeis como, ironia do destino, estarem passados uns tempos a trabalhar do outro lado da barricada.
Quanto ao destino local geográfico do novo aeroporto, não chocará que a ANA, empresa do ramo da aviação, tenha opinião sobre o assunto, e que inclusivamente tenha mais capacidade técnica para analisar e decidir do que 99,99% dos políticos e politólogos.
ResponderEliminarTambém podemo ler ao contrário.
Se os contratos de trabalho com particulares perante o Estado podem ser violados impunemente - e afirmar-se que não há verba para os pagar chega para justificar os seu não cumprimento - porque terão os outros contratos de ser cumpridos religiosamente?Será que os professores, os militares, os pensionistas e os restantes funcionários, sem esquecer os trabalhadores em geral a quem foram surripiados feriados e horas extroardinárias, só porque era preciso, têm menos valor que os "Arnault" deste mundo?
Num mundo carregado de más intenções há pessoas que dizem que há marosca quando se faz um contrato com uma empresa a 50 anos e esta recupera o dinheiro investido em 10. Empresa essa que sendo uma SA concessinária de um serviço público não publicita as suas contas.
Fazem falta aqui umas escutas do MP para tirar isto a limpo, mas parece que isto não cheirou a esturro a ninguém.
ResponderEliminarEu a priori também preferiria, mas de facto não creio que fosse fazer grande diferença. Não creio que possa haver muita real concorrência entre os aeroportos de Lisboa, Porto e Faro. Voos de ligação são sempre uma grande trapalhada, e dificilmente uma pessoa voará para uma cidade para depois ir para outra.
Em geral, a ideia da concorrência no capitalismo é muito boa, mas na prática a concorrência é frequentemente muito limitada por fatores geográficos. Um negócio localizado num certo local beneficia quase sempre de um monopólio na sua proximidade geográfica. Um aeroporto localizado em Lisboa dificilmente atrairá clientes do Porto.
Não foi o que o autor do texto escreveu aqui?
ResponderEliminarOs aeroportos deviam servir o país, não apenas a região. Tal como os seus interesses devem estar integrados com ferrovia, rodovia, etc.
ResponderEliminarCompetir entre eles... preferia cooperar. Adiante.
ResponderEliminarDe um lado está uma empresa privada interessada nos resultados de exploração, tudo dentro do contratado.
Do outro um estado socialista/comunista que -nada de novo- é um desastre com gestor de aviação civil, como aliás em tudo (TAP, SNS/hospitais, ensino, economia/indústria...). Um desatre.
Aparentemente o povinho eleitor gosta disto, pois continua a votar nestas suas líricas esquerdas de estimação.
Entretanto a UE e o mundo passam....
Portugal é um país que pertence à Europa mas que por razões de abandalhamento político e social se tornou demasiado parecido a um país do terceiro mundo.
ResponderEliminarTalvez esteja enganado porque não acompanhei o assunto a fundo e apenas uso a memória (que sei ser falível) mas creio lembrar-me que a opção Portela mais Montijo foi a que tinha sido escolhida no governo Passos/Portas. O que confere um certo peso à posição da ANA.
ResponderEliminarDe qualquer forma será o próximo governo a decidir e acredito que, com António Costa, nenhuma decisão teria sido tomada. O interesse dele era a gestão dos apoios e, se decidisse, alienava alguns deles.
O que a legislação vigente sobre luta contra a corrupção, lobbying, portas-giratórias e outras coisas que tais muito ajudará a facilitar. Quanto ao contrato de concessão da ANA, é caso para perguntar se não terá cláusulas leoninas. De resto, não seria má ideia que os contratos celebrados pelo Estado fossem sempre públicos: Creio que no caso das PPP o que não faltam são cláusulas de confidencialidade com que depois Estado e empresas justificam a opacidade.
ResponderEliminarObviamente que uma empresa como a ANA tem o direito de defender os seus interesses e apresentar os pareceres; o que não significa que as suas preferências correspondam ao interesse nacional. Está apenas a defender o seu, o que é legítimo.Quanto aos 99,9% de políticos e politólogos, talvez esteja aí o problema: foram os políticos que privatizaram a ANA e foi um deles que marchou logo para o cadeirão da empresa.
O Observador de hoje tem um artigo de João Machado Lima e um extenso comentário de Joaquim Rodrigues - que acabei de ler - com diferentes conclusões. Ambos muito bem informados.
ResponderEliminarMas estou 100% de acordo com HPS, o Estado não deve desrespeitar os contratos que assinou e, em caso contrário, o governo deve justificar e quantificar os custos envolvidos. O caso da ex-CEO da TAP são trocos comparados com os valores envolvidos no contrato com a ANA e Rosário Partidário, sem clarificar estes custos, não dá todos os elementos para uma decisão. Dizer que o problema é jurídico, não parece que possa chegar.