domingo, 31 de dezembro de 2023

Sem esperança

Há perto de quinze anos escrevi este post sobre Sócrates (que, então, estava no auge do seu poder).


Ontem escrevi um post que é essencialmente igual, sobre António Costa e Luís Montenegro.


Tanto num caso como noutro, explicitamente escrevia que discutir se alguém é corrupto ou não é assunto que deixo para a polícia resolver (independentemente da opinião que eu tenha sobre cada pessoa, se há coisa que aprendi é que as pessoas não têm escrito na testa que são aldrabões ou ladrões e que os melhores aldrabões são exactamente os mais simpáticos, razoáveis e sensatos, porque sabem que o êxito das suas aldrabices dependem da confiança que conseguem criar nos outros).


Num caso como noutro, o que me interessava era a forma como se tomam decisões ou se reaje às circunstâncias.


A razão pela qual sou especialmente sensível à forma como se tomam decisões (ao ponto de mudar o meu voto natural nas próximas eleições por causa da forma como foram feitas as listas da IL em Lisboa) prende-se com o meu pessimismo antropológico: acho que somos todos mais ou menos iguais, todos mais ou menos permeáveis aos estímulos externos, em todos a carne é fraca e a natureza humana é o que é (não sendo grande coisa, sob muitos aspectos, permite-lhe tocar e cantar a Paixão Segundo São Mateus, de Bach, o que é notável).


Haverá santos, com certeza, mas são poucos, difíceis de distinguir dos melhores aldrabões e, frequentemente, a sua santidade reside na forma heróica como reagem a circunstâncias de um determinado momento, podendo ter sido do piorio o resto da vida.


Daí que discutir a superioridade moral do António e do Manuel seja matéria que não me interessa por aí além, o que me interessa é a discussão sobre a forma e o contexto em que se tomam decisões.


Por exemplo, pretender que fazer buscas à casa oficial do primeiro-ministro, diligência que é impossível executar em segredo, e não dar qualquer informação concreta sobre o que motiva essas buscas defende melhor o bom nome do primeiro-ministro que fazê-las acompanhadas da informação pública mínima que permita às pessoas fazer juízos sobre o que está em causa, é uma ideia que, para mim, não faz o menor sentido.


Andar com telefonemas e outras diligências não publicamente controláveis para tomar decisões admnistrativas que beneficiam pessoas ou organizações, em vez de reuniões formais com registo do que se passa nessas reuniões, é uma prática errada para mim e indiciadora de uma cultura política que favorece a corrupção e o tráfico de influências.


Discutir este tipo de regras em abstracto parece-me muito mais útil que andar a discutir se Montenegro me inspira confiança ou não, ou se ponho as mãos no fogo por ele ou não (não ponho por mim, quanto mais por terceiros).


Se quando faço um post, estritamente sobre a diferença de reacção de Costa e Montenegro face à notícia de um inquérito judicial em curso, há tantas reacções primárias de quem tem opinião definitiva sobre a substância dos factos que seria dispensável haver polícia e tribunais, é mesmo porque não temos grande apreço por regras gerais aplicáveis a todos, isto é, que a qualidade das nossas instituições é um assunto que não interessa a muita gente.


Eu sei que não deveria ter dúvidas sobre isto, de tal maneira foi fácil a António Costa livrar-se da sua mais que antiga e próxima ligação a Sócrates, com o argumento infantil de que não deu por nada.


Eu, que nunca trabalhei tão próximo de Sócrates como António Costa, que nunca o apoiei em coisa nenhuma, e a quem bastaram umas semanas a vê-lo actuar como secretário de estado num ministério em que eu era sub-director geral, fiquei rapidamente vacinado em relação aos seus métodos e António Costa nunca deu por nada?


Um dia, quando Sócrates era o Ministro do Ambiente e estava em Aveiro, entra no carro e diz ao motorista: tenho uma reunião em Lisboa daqui a uma hora e meia e quero chegar a horas. Entretanto vou dormir mas aviso já que não o autorizo a conduzir em excesso de velocidade.


Histórias destas ouvi às paletes e definem muito bem Sócrates, colocando um seu subordinado entre a espada e a parede, levando-o a não cumprir a tarefa que lhe é dada (estar a horas) ou não cumprir as regras, mas encontrando uma forma de responsabilizar totalmente o motorista pelo incumprimento das regras, se houvesse um problema.


Para mim, isto tem importância porque é um evidente abuso de poder exercido sobre quem não se pode defender e define uma pessoa.


Para António Costa deve ser uma boa história e uma boa solução criativa para resolver um problema.


Por isso fiquei vacinado com os métodos de Sócrates ao fim de algumas semanas de convívio distante e António Costa (tal como todo o PS) não viu nada durante anos de colaboração próxima.


Os posts são sobre isto, sobre formas decentes e indecentes de tomar decisões e de reagir a contextos.


Responsabilizar o Ministério Público pelos efeitos de uma decisão própria é uma forma indecente de lidar com a notícia de um inquérito judicial que tem como efeito a erosão das instituições.


Realçar que o Ministério Público está a fazer o seu trabalho e se discute no fim quem tem razão é uma forma decente de lidar com a notícia de um inquérito judicial que tem como efeito o reforço das instituições.


Se Montenegro é corrupto, se houve tráfico de influências e essas coisas todas, não sei, não faço ideia e espero que a polícia e o Ministério Público façam competentemente o seu trabalho.

10 comentários:


  1. Um dos problemas é esse, o Homem é falível, mas há quem apregoe o oposto. É a tendência woke, de matriz religiosa, da virtude e do caminho dos justos, sem desviar para qualquer vício ou pecado.
    Um exemplo é o Ventura, mais um misto de Padeira e Sebastião, quem vem limpar isto, mas o psd instituição já enveredou antes pelo caminho da rectidão, com a questão dos compromissos de honra...
    Isto também porque ideias ou competência não há, resta apresentar a agenda moral.


    O Socrates era um fura vidas, mais um que sobe com esquemas e expedientes, a questão também passa por saber quantos portugueses odeiam o dito por razões éticas,  e quanto o odeiam por inveja de não conseguir fazer igual.


    Já Costa, é um "político ". Daqueles por quem os politólogos babam, e que decerto terá direito a biografia escrita por um qualquer ícone da esquerda intelectual. Toda uma carreira de oportunismo, de facas nas costas e de saber fazer a manobra certa (para ele) no momento exacto. É um habilidoso. Conta com um país passivo e dependente, que acredita ou finge acreditar (já o presidente do Glorioso também de nada sabia, embora fosse vice do Arguido) na bondade e ignorância. Ajuda uma comunicação social amiga, conivente para com sorrisos e tiradas cómicas após incêndios com vítimas mortais, e zero vontade e/ou capacidade investigadora. 


    Ps: o termo pretender soa tão mal...

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  2. Afasta afasta afasta a minha agulha,achega chega chega o meu dedal....lá lá lá não sejas trafulha,vem coser o avental...

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  3. Ninguém critica o Ministério Público (MP) por investigar. O que se critica no MP é o facto de este divulgar o que investiga e sobre que pessoas e que tipos de crime tem suspeitas. Porque, ao fazer isso, o MP está efetivamente a caluniar pessoas - é uma calúnia divulgar suspeitas sobre uma pessoa quando não se tem quaisquer provas contra ele.
    O MP tem o direito de investigar, de facto tem o dever de o fazer. O que não tem, é o direito de caluniar pessoas, isto é, de divulgar sobre elas suspeitas que não se encontram fundamentadas em provas.
    Eu também investigo, de facto o meu dever é investigar (noutro campo), mas só divulgo os resultados das minhas investigações no final delas, se esses resultados forem positivos. Não ando a badalar em público o que estou a investigar e que resultados espero obter, antes de os ter obtido.

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  4. O Ministério Público, durante quatro anos, investiga um assunto, sem que disso haja a menor informação pública.
    Ao fim de quatro anos de investigação, precisa de fazer buscas em vários sítios, incluindo a casa oficial do Primeiro-Ministro.
    A tua tese de que seria possível fazer buscas à casa oficial do Primeiro-Ministro em segredo, e de que publicar informação mínima sobre o contexto dessas buscas é caluniar o Primeiro-Ministro, e outras pessoas, é simplesmente ridícula.

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  5. Não é possível fazer buscas à casa do Primeiro-Ministro em segredo, tal como não é possível fazer fazer buscas em segredo a Câmaras Municipais, clubes de futebol, etc. Tais buscas são repetidamente feitas, não são secretas, aliás os próprios clubes de futebol e Câmaras Municipais objeto das buscas confirmam que elas foram feitas e que prestaram toda a colaboração aos executantes das buscas.
    A minha tese, nada ridícula, é que, tal como acontece nos casos acima mencionados, o Ministério Público pode e deve efetuar as buscas, mas não pode informar ninguém sobre aquilo que procurava nessas buscas, qual o facto ou suspeita que era objeto da busca, e que ou quais pessoas são suspeitas de qualquer delito.
    Buscas sim; explicações sobre o objetivo delas, não.
    O Ministério Público não pode continuar a comportar-se como um caluniador, que lança o opróbrio sobre pessoas que podem muito bem estar inocentes, sem ter quaisquer dados factuais que comprovem as suas acusações.
    Já inúmeras pessoas neste país viram as suas promissoras carreiras arruinadas por calúnias do Ministério Público. É altura de parar com isto!

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  6. O que é ridículo é a tua tese de que fazer buscas na residência oficial do primeiro ministro, que forçosamente serão públicas, sem dar qualquer informação, defende melhor o nome dos visados que dar informação mínima do que está em causa.

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