Ando há uns tempos para escrever sobre estes dois livros (escritos respectivamente por um trotskista e um liberal) e tenho vindo a adiar porque não li as suas versões finais impressas.


Não li as suas versões finais impressas, mas li versões muito próximas das finais e achei que deveria recomendar estes dois livros a tempo de alguém se lembrar deles para o Natal.
O primeiro é de João Zilhão, que conheço desde o paleolítico e resume grande parte do conhecimento do João sobre o paleolítico em Portugal.
Como acontece a quem sabe muito (João Zilhão é um investigador de topo mundial no paleolítico e, por maioria de razão, provavelmente a pessoa que mais sabe sobre o paleolítico em Portugal) e sabe que está a escrever um livro de divulgação, o livro é muito claro, muito surpreendente em alguns aspectos e muito informativo sobre os processos de criação de conhecimento em épocas tão remotas.
Lê-se muitíssimo bem (e eu li-o sem os bonecos, em PDF e não em papel e antes dos acertos finais de redacção e mesmo assim li-o com muito prazer) e muitíssimo interessante.
É certo que tantos anos a ouvir o João (e muitos outros arqueólogos), talvez tenha tornado mais fácil para mim perceber o que está escrito e o que está implícito, até porque já muitas vezes tive oportunidade de fazer perguntas sobre mudanças de opinião do João sobre este ou aquele aspecto e as respostas sobre os caminhos que tinham levado a umas opiniões e a outras foram muito instrutivas para mim.
Ainda assim, insisto que é um livro fantástico para quem sabe que o mundo não foi criado ontem e tem curiosidade em saber como aqui chegámos.
O segundo livro, lido nas mesmas circunstâncias, é também interessante para sabermos como chegámos aqui, agora já não abrindo janelas sobre o paleolítico, mas sobre os últimos séculos que nos precederam.
Ao contrário de João Zilhão (já agora, que começou um curso de economia, de que desistiu cedo para se mudar para história), não conheço Nuno Palma assim há tanto tempo, nem tenho grande proximidade, encontrámo-nos fisicamente uma vez, se não me engano, mas vamos falando virtualmente, aqui e ali.
Começei a reparar no que escrevia no jornal ECO, essencialmente porque era mais um economista (Nuno Palma é economista de formação, mas é historiador de profissão, dedica-se à história económica) em quem me apoiar para reforçar o que me parecia ser a visão mais objectiva da evolução económica de Portugal ao longo do século XX, uma matéria naturalmente relacionada com a minha tese de doutoramento, sobre a evolução da paisagem rural ao longo do século XX.
E reparei que tinha uma grande virtude: escrevia desassombradamente, sem medo da patrulha ideológica que pretende policiar o que se pode dizer no espaço público.
Isso, naturalmente, reflecte-se agora na promoção do livro, que é evitada por alguns meios de comunicação social.
O trabalho de quantificação a que se dedica Nuno Palma é extraordinário (pode estar certo ou errado, isso eu não sei dizer, o que o torna extraordinário é ser feito e poder ser contestado por quem o queira fazer) e leva-o a visões muito interessantes sobre a evolução da economia portuguesa nos últimos séculos, sendo ridículo que boa parte dos que os que se lhe opõem não se concentrem em demonstrar os erros dos seus exercícios de quantificação, a partir dos quais se formam as suas conclusões, mas em críticas ideológicas sobre o branqueamento do Estado Novo e patetices semelhantes.
É difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro (a piada não é minha, mas é tão boa que a uso sempre que posso) mas neste caso arriscaria dizer que a história económica de Portugal irá cumprir escrupulosamente o princípio de Planck e avançará a um funeral de cada vez: à medida que os bonzos tradicionais da historiografia contemporânea forem morrendo, mais gente irá concordando com as teses de Nuno Palma, apenas porque crescerão convivendo com as suas conclusões.
Com tantos livros já vendidos, parece-me que no futuro muita gente estará habituada à ideia de que a história contemporânea que foi vendida à minha geração era feita com muita ideologia e pouca objectividade.
50 anos deitados ao lixo e desinteressei-me de ler sobre o presente onde quase tudo se baseia no
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ResponderEliminarperceber o que está escrito e o que está implícito
Questiono que tipo de coisas é que não estão escritas mas somente implícitas.
A mim parece-me que um livro não deve ter coisas implícitas, porque as pessoas não têm a obrigação de se pôr a adivinhar o que nele não está escrito.
Se eu escrever que hoje está Sol, está implícito que não está a chover, se escreveres um comentário como o que escreveste, está implícito que gostas é de desconversar
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ResponderEliminarO problema da história económica do Estado Novo é que os comunistas e os alentejanos tradicionalmente identificam repressão política com pobreza económica. Ou seja, para eles o Estado Novo era mau, tanto por ser repressivo (ditatorial), como porque nesse tempo as pessoas viviam em grande pobreza, e eles identificam uma caraterística com a outra, sem as conseguirem distinguir claramente.
Sobre Nuno Palma: o que não falta é História económica de Portugal. O mais antigo de que me recordo é Lúcio Azevedo. Do que li de entrevistas dadas por Nuno Palma, pouco me surpreende; excepto um ponto, se li bem. A estatura física dos portugueses. Tinha por assente que era mais questão de fenotipo. Fome houve em muito lado.
ResponderEliminarQuanto ao resto...
Visto e somado, há séculos e séculos que Portugal é uma economia extractiva: a presúria medieval, a escravatura (até japoneses andavam por Lisboa no século XVI, ao que li), a cana de açucar, o ouro e os diamantes do Brasil, as preferências coloniais, os fundos da CEE. Ninguém conseguiu até hoje desenvolver a indústria, pelo menos a níveis de outros países europeus. Foi assim no século XVII, foi assim com as companhias majestáticas de Pombal (começando pela ideia de monopólio), foi assim no século XIX. E também ninguém se interessou pelo ensino: basta olhar para os rankings de Coimbra e compará-los com Oxford, Cambridge, Lovaina, Leiden e por aí. Uma vergonha. Mas não, atiramos foguetes por estar entre as 500 melhores. No século XIX passou por cá um príncipe Lichnowsky. E que dizia ele? Que Coimbra estava atrasada nas ciências naturais. Pior ainda com o ensino primário e secundário. No fundo, para que é que um camponês de jorna de sol a sol precisava de aprender a ler e escrever? Nada. Era perder tempo.
Agora que a torneira da UE ameaça começar a pingar cada vez menos, com as universidades que temos e o tecido produtivo que temos, francamente, não vejo grande futuro. Há mais de uma década que ouvia dizer que Portugal se ia tornar no país mais pobre da UE - está quase. Por muito má aplicação dos fundos europeus.
Na Campanha Alegre Eça fala do que diziam os quatro partidos constitucionais do século XIX. Um dos pontos é que todos citavam a Bélgica como exemplo. Logo depois do 25 de Abril ouvi na rádio o Professor Borges de Macedo dizer que Portugal podia ser a Bélgica ou a Holanda. Cá estamos.
Vai ser difícil continuar a vender em Bruxelas que com mais uns dinheiros conseguimos dar a volta. Pelo contrário, vão olhar cada vez mais para nós como um outro mezzogiorno. Um buraco onde se apanha sol.
Repito o conselho que já lhe dei antes: leia primeiro, comente depois.
ResponderEliminarInverter a ordem, como acontece neste seu comentário, dá asneira.
Muito bem apanhado, sem ambiguidades ou mistificações explícitas.
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ResponderEliminarDizer que o atraso é culpa da esquerda é infantil.
A culpa é da maldição dos recursos (que não chegou à Noruega ou à Holanda).
Maldito ouro do Brasil e fundos europeus.
ResponderEliminarNuno Palma defende que foi no século 18, com a entrada em massa de ouro brasileiro, que a economia portuguesa começou a entortar. Ele diz que o ouro brasileiro teve dois efeitos deletérios:
(1) A nível político, tornou Portugal mais autoritário e menos democrático.
(2) A nível económico, fez aumentar o preço dos bens não-transacionáveis.
Eu tenho duas "objeções".
(1) Portugal desenvolveu-se muito no século 20 sob um regime autoritário. (Tal como, aliás, muitos outros países, desde a Coreia do Sul e a União Soviética até ao Chile, prosperaram sob regimes autoritários.) Portanto, o facto de no século 18 o regime português ter evoluído no sentido autoritário não é, em princípio, uma causa para o atraso português. Nuno Palma não pode argumentar que é pelo facto de o marquês de Pombal ter sido um ditador que o país se atrasou economicamente.
(2) As remessas dos emigrantes têm basicamente o mesmo impacto do que o ouro do Brasil. Será que, então, todos os países que têm muitos emigrantes a enviar-lhes remessas estão sob um efeito deletério similar àquele que Portugal teve no século 18?
Carradas de carisma
ResponderEliminarhttps://velhomundo111.blogs.sapo.pt/carradas-de-carismao-grande-candidato-17460
Pois acabei de ouvir o que a criatura disse em 2021 no Movimento Europa e Liberdade. Muito pouco de História - tipo estoriador e não historiador, como Nuno Palma diz de Irene Pimentel - mas muito, mesmo muito de política e política de comício. Percebo que o Observador queira levar no andor este "intelectual", mas ele tem pés de barro.
ResponderEliminarMas continua ser ler o livro que vai comentando, sem ler, com base em intervenções políticas.
ResponderEliminarEle falou na expulsão dos jesuítas como factor de divergência para com o resto dos impérios europeus, pelo impacto ns educação.
ResponderEliminarPelas palvras dele, acha que a obtenção de recursos "fáceis " (no nosso caso o ouro Brasileiro e os fundos europeus) são uma maldição e não uma benção.
No período anterior ao Estado Novo a abastança era tal que......................
ResponderEliminar44% dos portugueses vivem na miséria ao fim de 50 anos de social fascismo.
ResponderEliminarnasci no estado velho e vivo do meu trabalho de 12h/dia
Ah ! O eterno fado do "Marrocos de Cima"...
ResponderEliminarNão acatámos a sugestão de António José Saraiva - manter o território mas substituír os nativos por suíços...
Juromenha
provavelmente é só o leitor que está desenquadrado, mas o autor parece-me excessivamente crente, achando que o Palma será unico, eterno.
ResponderEliminarE a sua repugnancia relativamente á ideologia, talvez até esteja na moda, como os doce sem açucar.
ResponderEliminara obtenção de recursos "fáceis " (no nosso caso o ouro Brasileiro e os fundos europeus)
Há ainda um terceiro "recurso fácil": as remessas dos emigrantes.
Tal e qual como o ouro do Brasil, essas remessas constituem um proveito sobretudo para privados (isto é, para as pessoas individuais, que as recebem), que vem do estrangeiro, e que é investido sobretudo em bens não-transacionáveis (propriedades imobiliárias, isto é, construção ou aquisição de casas e terrenos), fazendo aumentar o preço relativo desses bens.
Temos portanto que, segundo a lógica de Nuno Palma, as remessas de emigrantes constituem um fator de atraso do país que as recebe.
Calculo que, tal como Nuno Palma faz, fizeste as contas ao peso que a entrada de ouro do Brasil representou (em dimensão e tempo) para a economia nacional, comparaste com o peso que as remessas de emigrantes representaram (em dimensão e tempo), chegaste à conclusão de que estamos a falar de factores semelhantes na substância e dimensão, tendo por fim concluído que Nuno Palma está errado.
ResponderEliminarAssim sendo, podes dar-me indicação de onde publicaste essas contas?
Caro Henrique, claro que o Lavouras não estudou nada e não calculou nada. Por isso nada tem para publicar. A diferença entre Nuno Palama e os "académicos" locais, é que este consubstancia as suas conclusões em estudo e cálculos demonstráveis e transparentes. Ao contrário da academia nacional que só destila ideologia e preconceito...
ResponderEliminarQuanto ao Lavouras, é apenas mais um ogre avençado sem mais nada para fazer que não seja andar pelos blogues a debitar alarvidades ditadas pela madrassa...
O paradoxo da maldição dos recursos naturais tem outras causas que não apenas a económica . É fácil aplicar o conceito a África, esquecendo que de base eram sistemas corruptos.
ResponderEliminarPaíses europeus conseguiram gerir bem a maldição...
De um certo modo, o turismo actual entra no conceito, é dinheiro externo a entrar, sem acrescentar valor ou criar emprego qualificado. A forma como os preços são geridos pode ser comparada ao desbarato do ouro e dos fundos EU, tenta sacar-se o máximo possível esquecendo o longo prazo.
ResponderEliminartendo por fim concluído que Nuno Palma está errado
Eu não concluo que Palma esteja errado! Só pretendo dizer que, se ele tem razão, então as remessas de emigrantes são, também elas, um fator de atraso para a economia portuguesa (e para muitas outras economias atuais, onde ainda há muitas mais remessas do que em Portugal).
fizeste as contas ao peso que a entrada de ouro do Brasil representou
Nuno Palma dá uma estimativa (dele) no livro. Se bem me recordo, ele diz que o ouro brasileiro chegou a representar 10% do PIB português.
Atualmente as remessas de emigrantes para Portugal são razoavelmente pequenas. Mas por volta de 1980, se bem me recordo, elas eram precisamente desta mesma ordem de grandeza: 10% do PIB. Mas posso estar enganado.
Mais interessante é olhar para outros países, atuais, em que as remessas dos emigrantes constituem, de facto, uma parcela enorme do PIB. Quero eu dizer que a teoria de Palma pode, potencialmente, ser testada na atualidade.
ResponderEliminaro Lavouras não estudou nada [... p]or isso nada tem para publicar
Este ano já publiquei três artigos na minha especialidade. Que não é a mesma de Nuno Palma.
ResponderEliminarA culpa é da maldição dos recursos (que não chegou à Noruega ou à Holanda).
Esses casos são diferentes.
Conforme Nuno Palma explica, o ouro do Brasil afluiu sobretudo a particulares (pessoas privadas) portugueses. As pessoas iam para o Brasil garimpar ouro, e depois remetiam-no aos seus familiares em Portugal. As pessoas usavam o ouro que recebiam do Brasil para comprar diversas coisas.
Nos casos da Noruega e da Holanda, o dinheiro resultante dos hidrocarbonetos entra sobretudo para os cofres do Estado. É totalmente diferente de o dinheiro afluir a particulares, como aconteceu no caso do ouro brasileiro.
ResponderEliminarfizeste as contas
Não fiz, mas ontem estive a ler mais um pouco do livro de Palma e vi lá uns números.
O ouro do Brasil correspondeu, durante cerca de 20 anos, a 4% a 6% do PIB português, tendo num certo ano chegado perto dos 10%. Após esses 20 anos melhores, decaiu.
Os fundos europeus correspondem a 2% a 3% do PIB português, desde há quase 40 anos. As remessas dos emigrantes são 1,5% atualmente, diz Palma. Mas, no passado não tão longínquo, foram muito mais, suspeito eu.
Palma acusa os fundos europeus por terem um efeito deletério. Está bem, mas parece-me que não deveria escamotear as remessas dos emigrantes, que são também substanciais. E que têm a caraterística certa de servirem quase todas para comprar bens não transacionáveis.
Então, se não é a sua especialidade, porque vem para aqui dar opiniões de "especialista" com tamanha autoridade e certeza, numa matéria que não estudou? Avença oblige?
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