quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Sobre as vítimas

É mais ou menos consensual a ideia de que dizer, no actual contexto, que um acto terrorista não surgiu do nada, é manifestamente desadequado e só pode ser intrepretado como foi, quer pelos que criticaram a afirmação, como Israel, quer pelos que estão de acordo com a afirmação, no contexto em que foi feita, como o Irão.


Há, no entanto, outra ideia, que também está presente nesse discurso, que merece atenção, a ideia de que por mais atroz que tenha sido o ataque do Hamas, nada, nem isso, justifica uma punição colectiva dos palestinianos.


E merece atenção porque, à partida, muita gente subscreve a ideia de que não faz sentido haver punições colectivas atribuindo a grupos sociais maiores o que na verdade é da responsabilidade de pessoas concretas ou de organizações concretas.


Tinha começado por escrever que toda a gente subscreve a ideia da ilegitimidade da culpa colectiva, mas alterei por me ter lembrado das intensas campanhas dos neo-racistas, pretendendo imputar ao homem branco actual a responsabilidade por actos praticados por outros homens brancos há dezenas de anos atrás. E lembrei-me das desculpas variadas que agora é moda responsáveis políticos ocidentais apresentarem pela história dos seus povos (essa moda diz respeito a apenas alguns assuntos, nunca vi ninguém questionar o secretário-geral do partido comunista português sobre se tenciona apresentar desculpas aos descendentes das vítimas dos comunismo).


Voltando à punição do povo palestiniano, vale a pena discutir o que verdadeiramente está implíticito nessa ideia.


Comecemos pelo que é evidente e claro: a maioria das vítimas do conflito na Palestina são as pessoas comuns que, ou nos territórios palestinianos, ou nos países que os receberam como refugiados, estão limitados, quando não mesmo impedidos, de fazer escolhas, de ter a vida que decidirem ter.


O segundo ponto de partida é que em situações como a actual, o número de vítimas é maior e as provações que sofrem bem mais intensas, não faz o menor sentido negar a emergência humanitária que resulta do ataque do Hamas, seguido da resposta de Israel.


Questão diferente, e muito relevante, é a de saber se Israel está a responder militarmente a uma ameaça, tendo danos humanitários colaterais, ou se está a punir colectivamente os palestinianos, como pretende Guterres e muita gente com ele.


Dito que outra forma, os danos reais e observáveis sobre civis e as principais vítimas existem, mas não é indiferente serem o resultado pretendido por Israel ou serem um dano colateral de uma estratégia de defesa de Israel.


Bem sei que para quem morre, é irrelevante saber se a bala lhe era dirigida ou se lhe entrou na cabeça por engano, mas para os outros, para nós quase todos, essa distinção é fundamental e está bem caracterizada no processo judicial: não é indiferente, na aplicação da pena, eu matar o meu vizinho porque não gosto dele ou porque caiu da escadas abaixo por ter tropeçado em mim.


Ora, tanto quanto me parece, não há nada, absolutamente nada, na actuação de Israel, que permita pensar que o objectivo de Israel é punir os palestinianos colectivamente, e não neutralizar o Hamas (independentemente de haver sempre israelitas que quererão erradicar os árabes do mundo).


Dir-se-á que aconselhar as pessoas a dirigir-se para o Sul de Gaza, onde as condições de sobrevivência são precárias, é desumano.


Eu acho que desumano é o apelo do Hamas para que as pessoas não saiam de onde estão.


Dir-se-á que bombardear objectivos militares na zona Sul de Gaza é desumano.


Eu acho que desumano é o Hamas manter a sua estrutura militar embebida em contextos civis.


Dir-se-á que privar Gaza de alimentos, água, energia e medicamentos é desumano.


Eu diria que desumano é o Hamas manter a operacionalidade da sua estrutura militar parasitando a ajuda internacional às vítimas.


E poderia continuar por aqui fora, que na verdade estaria sempre a fazer a mesma pergunta: para além da cristianíssima atitude de dar a outra face, o que pode Israel fazer perante uma força militar que faz da sua população escudo para a sua actividade, quer para proteger essa estrutura militar, quer para poder usar qualquer acidente contra Israel, como fez no caso do hospital, fará com certeza nos inúmeros erros no lançamento de rockets (serão já centenas os rockets palestinianos que caíram na faixa de Gaza por engano, o do hospital foi o mais grave e mais mediatizado, mas há centenas de outros, provavelmente sem consequências na maioria, mas cujos efeitos serão sempre, sempre atribuídos aos bombardeamentos israelitas)?


Pode, na opinião das agências da ONU no terreno, e pelos vistos na opinião do seu secretário-geral, estabelecer um cessar-fogo para proteger as principais vítimas, mesmo que isso signifique o reforço, reorganização e reabastecimento do Hamas (que a ONU continua a recusar classificar como um grupo terrorista).


Compreendo que sendo essa a alternativa, Israel não esteja interessado nela, não porque queira punir colectivamente os palestinianos, mas porque não vê como possa combater eficazmente o Hamas sem ter danos colaterais em vítimas inocentes (cuja dimensão não sabemos, os números que existem, mesmo os veiculados pelas Nações Unidas, têm como única fonte o Hamas, o mesmo que disse o que disse sobre o erro do bombardeamento do hospital, que rapidamente foi adoptado pelas agências da ONU como uma descrição factual do que tinha acontecido, até que as enormes incongruências da história tornassem impossível subscrever a propaganda do Hamas).


E, mais ainda, compreendo os israelitas que se mandam ao ar com todo este charivari sobre a actuação de Israel (que, com certeza, terá erros, abusos, etc.) que é simultâneo com o silêncio sobre a inacreditável política de financiamento, apoio, organização e armamente do terrorismo seguido pelo Estado iraniano.


Sim, as pessoas comuns da Palestina são as principais vítimas disto tudo, mas, neste momento, o principal agressor é o Irão, não é Israel.

14 comentários:

  1. guterres, tal como a vida, as civilizações, os países « surgiu do nada »

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  2. Recordo umas certas analogias (acho que naquela altura ainda não existia whataboutism) aquando do 9/11. Uns quantos ousaram dizer que as vidas civis perdidas naquele ataque eram uma fracção das contabilizadas nos chamados danos colaterais.
    As pessoas comuns da Palestina são as vítimas, tais como as de Israel. Não deram para o peditório, mas levam fogo à peça na mesma. É a magia da guerra, normalmente os que pedem demonstrações de força não estão ao alcance de uma boa retaliação.


    Duvido que o Hamas se financie parasitando a ajuda internacional. Provas não tenho, é uma suposição. Tal como a afirmação do texto (o SG da ONU já disse algo sobre isto?).

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  3. Já os Pântanos não surgem do nada. Mas o que incomoda mais (aparentemente, a ver pela capa da Time com o sr Pantanal com a água pelos joelhos) é a prevista subida do nível do mar.

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  4. atual conflito Israel-Hamas pode criar um “risco enorme” (https://executivedigest.sapo.pt/noticias/conflito-israel-hamas-comissaria-europeia-alerta-para-enorme-risco-de-ameaca-terrorista-aumentar-na-ue)

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  5. Sim, quando será que todos os árabes de aquela região vão perceber que estão a ser joguetes -carne para canhão- da teocracia persa (xiita)?.
    Os cléricos persas e as suas hostes apenas pretendem substitui-se aos "ex-ocupantes" turcos e chegar ao Mediterrâneo.
    Israel é um "pequeno" (ou grande) obstáculo à expansão persa.
    Na realidade Israel/EUA é um trunfo a ser bem jogado por todos os povos árabes de aquela região. Gaza já é persa. O Líbano já é persa. A Síria oscila, fortemente. A Jordânia sozinha desaparece. O Egipto já percebeu, só está a ver para que lado cai a moeda. Entretanto.
    "...as pessoas comuns da Palestina são as principais vítimas disto tudo...".
    As pessoas comuns de Gaza, os "civis" gazeanos, são as prinicipais vítimas disto tudo, actualmente. "Palestinianos" há muitos, de todas as "duplas" nacionalidades possíveis e bem longe dali. As manifestações, por esse mundo fora, são pagas e os figurantes são os usuais idiotas úteis.
    (É demasiado subtil a diferença entre população civil de Gaza e os arregimentados Hamases. Muitos jóvens em Gaza que não foram arregimentados querem fugir de lá. Estão numa "prisão a céu aberto", mas os carcereiros são tão gazeanos, como eles).

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  6. "(...) quer para poder usar qualquer acidente contra Israel, como fez no caso do hospital (...)." (HPS)


    Mais uma vez a presumir algo de que não tem provas. Nem uma única para além do que a propaganda o levou a supor. Mas teorias, conjecturas e consensos não constituem evidência factual.


    Ao contrário do tweet posteriormente apagado, mas do qual há na net imagens (p.e. aqui: https://sonar21.com/israeli-bombing-of-baptist-hospital-intelligence-failure-or-deliberate/), onde Hananya Naftali, secretário de imprensa do PM Israelita, 23 minutos após a explosão escrevia:


    "Breaking: Isareli Air Force struck a Hamas terrorist base inside a hospital in Gaza. A multiple number of terrorists are dead (...)".


    Tweet esse que Naftali posteriormente confirma que existiu, ao escrever noutro tweet que se tinha enganado, que tinha confiado numa notícia da Reuters que mais ninguém viu e da qual não fornece link (vd. 

    https://en.wikipedia.org/wiki/Joint_Direct_Attack_Munition).

    Sobre "punição colectiva", um esclarecimento merecido: 


    "Collective punishment is a war crime prohibited by treaty in both international and non-international armed conflicts, more specifically Common Article 33 of the Geneva Conventions and Article 6 of the Additional Protocol II."



    Mas talvez o que consta da notícia seguinte, para mentes iluminadas, não configure "punição colectiva" e tenha sido mais um acidente com um rocket:


    ((https://www.straitstimes.com/world/middle-east/israeli-defence-chief-says-troops-will-soon-see-gaza-from-inside)


    A finalizar, o seu último parágrafo é mais uma vez pura presunção. Leu algures e reproduz aquilo que a propaganda neo-conservadora americana dissemina. Como eu já tinha escrito anteriormente em comentário: «A invasão também proporciona o pretexto perfeito para o abandono do "projecto Ucrânia", ao mesmo tempo que semeia o 
    14/10/2023, https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/ja-metem-a-cabecinha-de-fora-8043661?thread=40035981#t40035981).

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  7. Uma sugestão: talvez devesse ler na íntegra a intervenção do SG da ONU e nosso compatriota. Não concordando com ele na generalidade dos assuntos, acho esta intervenção especialmente ponderada e certeira. Reproduzo um excerto dos mais representativos.

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  8. Outra vez um texto da maior razoabilidade e lucidez. Isto sim é não instrumentalizar a leitura da realidade, vendo-a na sua complexidade, mas, ainda assim, sabendo bem discernir quem faz o quê. 


    Os meus renovados parabéns e agradecimento.

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  9. Penso que sabes que o dinheiro é fungível. 
    Se um Hospital é equipado com dinheiro externo - a UE por exemplo financia os Palestinanos em 700 milhões de dólares ano - então o Hamas pode gastar parte desse dinheiro em mais equipamento militar.


    Durante esta ultima guerra foi roubado material da UNRWA. E nem vou entrar nos membros do Hamas que trabalham para a ONG e UN que simplesmente tiram ou usam equipamento.

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  10. Resumindo, o seu comentários reduz-se a uma frase: a culpa é do Bibi.

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  11. Bom resumo. Sendo o Hamas o que é - um grupo terrorista fanático e niilista, não é uma variável na equação - a culpa é do Bibi, um político num regime democrático - ou seja, uma variável na equação - que ganhou e manteve o poder convencendo uma maioria relativa do eleitorado (e, com tempo, uma maioria dos seus opositores) de que a causa dos atentados terroristas eram as cedências nas negociações com os palestinianos com que se consegue negociar, e que o fim dessas cedências e das negociações, e a redução ao ridículo desses palestinianos (emasculados face ao Hamas), e simultâneo incremento nas medidas de segurança e polícia (a começar pelo emblemático Muro da Cisjordânia) eram o caminho para a segurança de Israel. Neste caso, ao contrário do 11/09 (que, não por acaso, é muito usado por que não quer que se olhe para os últimos 20 anos de política israelita) não se está a lidar com um inimigo que persegue abstracções de índole religiosa, mas com uma entidade bem concreta: um conjunto de pessoas que tem um conjunto de objectivos bem concreto, a soberania sobre um determinado território, que podem ser satisfeitas por negociação (e serão, mais tarde ou mais cedo, diz-nos a história, a não ser que Israel se vá alguma vez equivaler ao movimento que está a combater, o que, optimista que sou, não creio que vá suceder), pelo que a atrocidade que aconteceu foi o produto de uma opção estratégica errada dos políticos e eleitores de Israel, tendo-se o Hamas limitado a ser o Hamas e a actuar em conformidade com a sua execrável natureza.

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  12. Corolário da sua argumentação: não havia problemas antes de Bibi, vai deixar de haver problemas depois de Bibi.
    Só me resta uma dúvida: Bibi surgiu do vácuo?

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  13. Corolário abusivo. Havia "problemas" antes de Bibi, tanto que israelitas já eram assassinados por terroristas palestinianos desde que existe Israel e sem (que eu saiba) qualquer ano de intervalo. Só que houve uma liderança política em Israel, responsável e com visão, que percebeu que os "problemas" só poderiam cessar com uma solução estrutural: a dos dois Estados. E houve um terrorista, Arafat, que correspondeu a essa liderança, renunciando a várias premissas básicas da sua organização. Depois houve radicais dos dois lados que inviabilizaram esse solução, o Hamas, e os extremistas religiosos e colonos da Cisjordânia (alguns destes tão milenaristas e selvagens como o Hamas, como o "heróico" Baruch Goldstein) - que, agindo de modo simbiótico, minaram, com recurso à violência, o processo negocial. E, sim, houve um oportunista que viu aí a sua chance, e construiu a sua carreira política de sucesso através da cedência aos radicais, da demonização e  reversão do trabalho dos seus antecessores e da destruição de uma solução estratégical para os "problemas", à custa de uma série de aparentes vitórias tácticas. No fundo, a história de Passos Coelho e António Costa mas com milhares de mortos em vez de milhares de milhões de euros. Não vai deixar de haver "problemas" depois de Bibi, mas pode ser que haja condições para os resolver. Bibi não "surgiu do vácuo" nasceu do medo, da cobiça e do ressentimento, fraquezas humanas que são comuns a judeus e árabes.

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  14. A judeus, a árabes e a papuas e portugueses (se era essa a sua dúvida), como atesta a votação que o PS teve, em 2011, nas mesas de voto da próspera e "laranjíssima" Portela de Sacavém.

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