Tenho muito amigos que tratam qualquer manifestação de fé religiosa como crendice medieval (boa parte deles não sabe nada sobre a idade média, mas enfim, esqueçamos essa parte).
Alguns dos mais acérrimos inimigos da fé religiosa demonstram uma fé inabalável na ciência, na razão e na capacidade humana de compreender o mundo (e é exactamente por isso que são inimigos jurados de qualquer outro tipo de fé, o sectarismo, como a história demonstra, é uma coisa muito transversal).
Vários desses meus amigos sentem-se os herdeiros dos grandes homens da ciência que se impuseram à crendice religiosa através da razão e do estudo.
Vamos a factos.
Durante milhões de anos (sim, milhões, porque vai longa a evolução da nossa espécie), os homens e todas as outras espécies que antecederam a que agora é a nossa, acreditavam firmemente que era o Sol que andava à volta da Terra.
O consenso científico sobre isso era esmagador, a evidência empírica igualmente esmagadora, e com base nessa ideia aparentemente indiscutível fizeram-se prodígios inacreditáveis de engenho e conhecimento, desde calendários a cartas de marear.
Não estou, por isso, a falar de livros como a bíblia, a epopeia de Gilgamesh ou qualquer outra base mais ou menos lendária de religiões, estou a falar de factos: toda a gente pensava ser absolutamente inquestionável que o Sol andava à volta da terra, com base nisso fizeram-se avanços práticos extraordinários e, no entanto, a realidade era o que era e afinal era outra.
Num determinado momento, homens religiosos (por exemplo, quer Galileu, quer Copérnico eram homens religiosos), questionaram o conhecimento geral e indiscutível, e demonstraram que, contra toda a evidência empírica acessível às pessoas comuns, era a Terra que andava à volta do Sol.
Apesar desta evidência histórica (longe de ser a única, evidentemente), os meus amigos que se reclamam da absoluta racionalidade e do mais alto conhecimento, não admitem sequer que o seu enorme conhecimento, a sua base racional, possa estar errada nos seus fundamentos, como estava quando toda a gente construía conhecimento sobre o pressuposto, errado, de que era o Sol que andava à volta da Terra.
No fundo, eles não são os herdeiros dos que alargaram o nosso conhecimento a partir das suas dúvidas, no fundo eles são os herdeiros dos que ridicularizaram as novas hipóteses, radicalmente diferentes do esmagador consenso científico da altura.
Eu sei o que me vão responder, que não posso comparar o método científico actual, à prova de bala, com os métodos científicos medievais.
Talvez me tenha enganado, talvez seja mesmo de fazer notar que a maioria deles não sabem nada da idade média, e estão convencidos de que o que sabemos hoje descreve rigorosamente (ainda que não totalmente, mas lá chegaremos) a realidade.
São homens de uma fé inabalável.
Henrique, o argumento que usa é algo que repetidamente utilizo. No entanto, na maioria das vezes, percebo que a generalidade das pessoas não o entende. É como a alegoria da caverna, é muito difícil tirar alguém da escuridão quando essa pessoa está certa de que viva na luz.
ResponderEliminar"São homens de uma fé inabalável." ou dito de forma menos branda dogmáticos. Gostei da sua argumentação com base nos conhecimentos ancestrais e medievais.
ResponderEliminarA religião baseia-se na fé. A ciência baseia-se nos factos. Um bom cientista sabe que existe probabilidade de estar errado, ao contrário do religioso.
ResponderEliminarNão esquecer que o conhecimento acumula, hoje sabemos mais que há 1000 anos atrás, seremos uns ignorantes quando comparados com os humanos de 3027.
sem dúvida , partem do pressuposto de que tudo o que não podem observar não existe...antes do microscópico , micróbios não existiam -:)
ResponderEliminarUsei esse mesmo argumento num comentário de um post sobre o consenso científico em torno das alterações climáticas. O autor do post censurou o meu comentário por ser negacionista.
ResponderEliminarBom post. Fogos florestais e eucaliptos, terão dado perspectiva a HPS.
ResponderEliminarNisto, ganhei-a há longos anos graças a um professor - jesuíta - que me perguntou porque é que Copérnico, que foi o primeiro, nunca foi incomodado pela Igreja. Claro que não sabia responder e ele esclareceu-me que Copérnico não tinha, ou tinha poucos discípulos. Ao contrário, Galileu teve-os em maior número e alguns destes, daí concluiram e proclamaram que a Bíblia estava errada. Foi isto que "enfureceu" a Igreja e a levou aos excessos de que hoje já pediu desculpa.
ResponderEliminarFrancisco Almeida,
Galileu não foi perseguido pela inquisição romana. Foi, sim, incomodado por ser casmurro e vaidoso. Na época, a Sorbonne portou-se muito mal contra ele. O seu amigo astrónomo e cardeal
Não foi excomungado. Foi sepultado no solo do interior da Sé da sua terra.
cumprimenta
ResponderEliminarHá 3 maneiras de explicar o mundo: Religiosa, Politica, Cientifica e o Não Explicável. Quem só usa uma delas e também recusa o não explicável tende a ser um fanático.
As pessoas foram convencidas por constante repetição que se pode saber tudo o que importa para a acção politica bastando ir à universidade e ler jornais " de referência".
O caso mais emblemático é o "Aquecimento Global" como se fosse possível provar as razões do aquecimento hoje sem provar as de 1540...ou como qualquer tampestade, seca, cheia da antiguidade se fosse hoje seria atribuida ao dito...
Muito bom. HPdS continue a murmurar os seus "Eppur si muove", em termos actualizados. "Que nunca lhe doam os dedos" e muita paciência nomeadamente para com esta fé no "man made" aquecimento/arrefecimento global.
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