Esta peça do jornal "Mensagem", de Lisboa, é bastante interessante e vale a leitura.
Mas isso não significa que seja rigorosa, bem pelo contrário, liga-se mais aos mitos que à realidade e é muito interessante ler essa peça a partir desse ponto de vista.
Não falo das pequenas dúvidas sobre histórias orais que circulam há décadas, como a que diz respeito ao chumbo do exame de condução de Ribeiro Telles, que a jornalista conta desta forma: "Era um observador tão atento da natureza que, no seu primeiro exame de condução, falhou um sinal vermelho porque ficou a admirar as bonitas buganvílias no caminho".
A história, tal como me foi contada há muitos anos, era semelhante na ideia, mas diferente nos pormenores: ao chegar ao Rato, vindo da Alexandre Herculano, o examinador, com aquela manha frequente neste tipo de funcionários, diz a Ribeiro Telles virar para a direita, para subir a São Filipe de Néry (estamos a falar de uma Lisboa com muito poucos carros, hoje nenhum examinador faria isso, evidentemente, dado o risco real de provocar um acidente), que tinha apenas trânsito descendente.
Ribeiro Telles, com a sua lendária distracção, vira de facto para a São Filipe de Néry, em que entra em contra-mão, e o examinador pergunta-lhe se não viu uma coisa encarnada no princípio da rua, referindo-se ao sinal de trânsito proibido. E é aí que Ribeiro Telles, com o seu também lendário entusiasmo, pensa ter descoberto uma alma gémea no examinador, manifestando-lhe o seu contentamento por também o examinador ter reparado naquela buganvília.
Chumbou, naturalmente, e nunca mais tirou a carta.
Se foi de uma maneira ou de outra é bastante irrelevante e essas pequenas discrepânceas da história oral são normais, inevitáveis e nunca me fariam escrever um post.
Já a tese da peça, que o título proclama, de que o projecto da Avenida da Liberdade de Caldeira Cabral e Ribeiro Telles correspondia a transformar a Avenida da Liberdade num jardim, fazendo uma ponte para as actuais discussões sobre o espaço dedicado aos peões e aos carros na cidade, não faz o menor sentido, como aliás reconhece a peça, de raspão, ao deixar bem claro que esse projecto aumentava a área da avenida da Liberdade dedicada ao trânsito automóvel.
Nessa altura não havia nenhuma discussão sobre "libertar espaço para os peões", havia sim, discussões acesas sobre a melhor forma de tratar o espaço público, optimizando o seu valor social, era uma discussão entre conservadores que olhavam para os jardins ainda com o olhos do século XIX, princípios do século XX, e um pequeno grupo de técnicos que olhava para os jardins a partir da escola prussiana, e depois alemã, da arte dos jardins, temperada com o modernismo da carta de Atenas.
É natural que assim fosse, nos anos 50 a discussão não era entre entregar mais espaço aos carros ou aos peões, esse problema não existia, nem Ribeiro Telles era, como às vezes se pretende fazer crer, um visionário do futuro que adivinhava problemas que ainda não existiam, bem pelo contrário, uma das suas grandes qualidades era ser um homem com os pés bem assentes na terra e muito pragmático (a história da aprovação da legislação da Reserva Ecológica Nacional, conhecida há anos, é descrita nesta peça de uma forma deliciosa e bastante rigorosa, que caracteriza muito bem o pragmatismo (e a lucidez) de Ribeiro Telles: "“Oh pai, conseguiu!”, disse-lhe o filho Francisco. O pai respondeu-lhe: “Oh filho, eles nem sabiam o que estavam a aprovar”)."
O projecto da avenida da Liberdade, de Ribeiro Telles e Caldeira Cabral, desenvolve um estudo anterior coordenado por Caldeira Cabral, e é um dos vários episódios de tensão entre o modelo tradicional do jardim formal francês e o modelo orgânico que hoje se associa aos grandes parques ingleses, que chega a Portugal essencialmente pela escola alemã: um modelo de intervenção orgânico e que procura tirar partido das características naturais dos sítios, modelando a natureza, em vez de se impôr a ela.
Caldeira Cabral, ele próprio, tinha sentido na pele as dificuldades em impor a nova forma de olhar para o espaço público na guerra, que em grande parte ganhou, mas com custos profissionais e pessoais futuros muito elevados, no primeiro grande projecto em que se envolve depois de chegar da Alemanha, o Estádio Nacional, que consegue deslocar do fundo do vale onde estava previsto, para a encosta.
Viana Barreto descreve bem as dificuldades em impor a sua solução para a envolvente da Torre de Belém, por volta de 1953, em detrimento de uma alameda clássica cheia de estatuária de navegadores portugueses como tinha previsto Cotinelli Telmo.
Este tipo de tensão nunca deixou de existir e manifesta-se ainda hoje, nomeadamente nas opções sobre a utilização de vegetação, em que o uso de plantas autóctones e bem adptadas é contestado pelas populações porque o resultado final não é o que consideram um jardim (recentemente a minha mulher lembrou-me a situação do arranjo da envolvente da igreja de Mira D'Aire, que projectou há bastantes anos, em que alguns canteiros foram semeados com nabos, por alguém, como forma de protesto pelo uso de mato nos canteiros do jardim).
Ainda hoje, em soluções como as do canal de drenagem do novo jardim da Praça de Espanha, que é revestido com vegetação mais ou menos espontânea, não gerida, nem regada, há quem veja jardins mal cuidados e desleixo, uma situação que está longe de ser pontual.
Há uma forte tendência para a diminuição da intensidade de gestão dos jardins, porque há muito mais área de jardins, porque há questões de sustentabilidade ligadas à gestão da água, dos fertilizantes, de combustíveis fósseis, de conservação dos polinizadores, sendo hoje frequentes as opções que implicam o não corte, ou o retardamento do corte, de áreas de herbáceas que boa parte do público tende a considerar que deveriam ser relvados.
As reclamações pelo desleixo e incúria na gestão de espaços verdes, resultantes destas opções, são constantes. Duarte Mata tem insistido na opção de deixar claro que não se trata de abandono ou incúria, mas de uma opção de não gestão, seja pela colocação de placas informativas, seja pelo corte e manutenção de uma faixa junto aos caminhos, que contrasta com a área menos gerida, como forma de comunicação com o público, o que parece bastante sensato.
O projecto da avenida da Liberdade e as suas vicissitudes, começou a ser executado, por fases, havendo fotografias muito interessantes das duas soluções lado a lado, a antiga e a moderna.
Aconselho a leitura do livro "Espaço Público de Lisboa", de Teresa Bettencourt da Câmara, a quem se interessar pela a forma como esta nova forma de projectar o espaço público se foi impondo, até ser hoje claramente dominante.
Acontece que três anos passados sobre a execução parcial do projecto da avenida, a contestação à solução acabou por levar a melhor e a situação foi revertida.
A destruição de um projecto já construído foi um duríssimo golpe, quer para Caldeira Cabral, quer para Ribeiro Telles, que era funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, fazendo com que Ribeiro Telles batesse com a porta e se fosse embora da Câmara.
Com um resultado inesperado e muito positivo: por essa altura, Viana Barreto tinha ganho o concurso para a sede da Fundação Calouste Gulbenkian e precisava de avançar com o projecto em prazos muito curtos, trazendo Ribeiro Telles para a equipa, na única situação em que Viana Barreto e Ribeiro Telles fazem um projecto conjunto, com os resultados que todos conhecemos.
Para mim, que conheci os dois e conheço razoavelmente o trabalho dos dois, é uma pena que não tenham trabalhado mais em conjunto, embora perceba a dificuldade, dadas as diferenças de métodos de trabalho e de abordagem do espaço dos dois, apesar da sólida base conceptual comum, fortemente partilhada, e a amizade de toda a vida (e, já agora, as diferenças de personalidade, embora qualquer dos dois fosse um espírito livre que lhes permitia, aos dois, lidar com a diferença de opiniões de forma muito aberta).
Do que também tenho pena é da sistemática utilização de Ribeiro Telles para caucionar as opiniões de terceiros: se alguém quer transformar a Avenida da Liberdade num jardim, que o faça e o defenda por sua conta, escusa de procurar arrimo num projecto em que o espaço dos peões correspondia a uma ruptura com o modelo dominante de jardim na altura, mas que diminuía o espaço para os peões (o espaço poderia ser melhor e servir melhor os peões, mas dedicava-lhes menos área que na solução que existia e que voltou a existir depois).
Ribeiro Telles merece ser estudado e homenageado pelo que fez e disse, mas não merece o sistemático abuso do seu nome (que ele sempre permitiu, diga-se de passagem, mas esse é um direito dele, a nós cabe-nos respeitar o que ele foi, e não o que cada um de nós gostaria que ele tivesse sido).
Numa visita recente a Montemor o Novo, verifiquei que muitos jardins e pequenos canteiros nessa vila (ou cidade, não sei) estão plantados com catos e outras plantas similares, de flora decididamente não autótone e não particularmente aprazível, mas que deve poupar imensa água (e mão de obra) à Câmara Municipal. Achei bem.
ResponderEliminar
ResponderEliminarHá uma forte tendência para a diminuição da intensidade de gestão dos jardins
Dada a falta de pessoal, nesse setor como em quase todos, é forçoso diminuir a intensidade de gestão. Muita gestão dos jardins exige muitos jardineiros, e isso é coisa que cada vez menos há.
admiro-me do Parque Eduardo VII e do Campo Grande ainda não terem sido vendidos para construção civil dada a falta de casas.
ResponderEliminarmeu Avô conta que há 110 anos um ricaço ao tirar a carta de condução gabava-se de ter subido a Av. da Liberdade em marcha atrás
e de Badaró ao atravessar na passadeira do Marquês, ao ver abrir o sinal verde dos Restauradores, ter gritado «corre que já nos viram!»
Meh, tem uma geração inteira de lisboetas privados da Feira Popular - o sítio em Entrecampos está ermo há duas décadas, decerto à espera do chorudo negócio.
ResponderEliminarE claro que a sua versão do chumbo de Ribeiro Telles é muito mais próxima da verdade (não digo exacta apenas porque a minha base é a memória e já não posso assegurar certezas). De qualquer forma, assim ou muito parecido, foi-me contada pelo próprio a quem servi de motorista quase exclusivo na primeira campanha eleitoral (eu era candidato e estava dispensado do emprego para esse efeito).
ResponderEliminar
ResponderEliminarRibeiro Telles merece ser estudado e homenageado pelo que fez e disse
Tenho a impressão que terá dito muitos disparates.
Eu somente uma vez o ouvi. Fui com um colega, alemão mas que residia em Portugal e falava português, a uma palestra proferida por ele. Ribeiro Telles a determinada altura disse que "numa agricultura de montanha como, por exemplo, a da Baviera". Eu entreolhei-me e olhei para o meu colega, que confirmou: calinada monumental. A (riquíssima) agricultura da Baviera é a da planície aluvial do Danúbio, porque somente uma muito pequena e marginal parte da Baviera são montanhas, as quais são muito pouco cultivadas.
ResponderEliminarmuito bem.
ResponderEliminarMas será que para os cidadaos em geral nao bastará o que o visado dizia, disse, enquanto ministro ?
Ok, o post é sobre arquitetura, mas quanto ao homem politico, nao bastará a sua-dele passagem pelo governo ?