Nestes dias, a propósito da alegação de racismo nuns cartazes, feita por António Costa, ouvi muita gente, muito diferente, a argumentar que quem define o que é racismo é a vítima, se alguém de uma minoria étnica (vou passar por cima da piada de considerar António Costa como pertencendo a uma minoria étnica) diz que alguma coisa é racismo, só nos resta aceitar que é racismo.
Traduzindo o argumento, se eu for mulato, e não gostar do preço das maçãs, posso alegar que é racismo, aos outros não cabe verificar se o merceeiro me fez um preço diferente por ser mulato (isso sim, seria racismo) ou se o preço foi igualmente alto para todos, porque é a vítima que define se sente a acção como racista.
A legislação portuguesa, na verdade, tanto quanto vi, não define racismo, visto que se dirige à discriminação, é a discriminação em função da raça, nacionalidade, etnia, etc., que pretende ser sancionada.
Tanto quanto vi, também não define raça, o que se compreende, visto não haver qualquer definição minimamente consistente de raça e ser hoje consensual que não existem raças de humanos.
Nacionalidade é fácil de definir, mas raça ou etnia é bem mais difícil, o que nos coloca numa situação estranha de considerarmos crime a discriminação racial (em algumas circunstâncias, noutras é uma contra-ordenação), que a generalidade das pessoas entende como sendo o racismo um crime (ou pelo menos uma contra-ordenação, depende das circunstâncias) ao mesmo tempo que entendemos que é a vítima que define se há, ou não, racismo, apesar de serem os tribunais que definem se há ou não crime (os as autoridades administrativas sobre se há ou não contra-ordenação), condição básica de um estado de direito.
Continuai por este caminho, parece-me que tem um enorme potencial.
Aliás, potencial é curto, é já uma realidade, o que não faltaram foram críticas ao estado de direito a propósito de um julgamento em que Mário Machado acusava Mamadou Ba de difamação, com alguma gente a escrever no jornais que era absurdo que os tribunais julgassem a questão porque era pôr os tribunais a legitimar o racismo, julgando o anti-racismo.
Dessa vez foram só os profissionais do racismo que vieram dizer que era absurdo que houvesse sequer esse julgamento, mas desta vez, na acusação de racismo feita por António Costa, foi muito mais gente, de um espectro muito mais alargado, que veio defender que se alguém considera o preço das maçãs como um acto racista contra si, não há nada a discutir, é racismo, porque é a vítima que pertence a uma minoria étnica (não se deixem distrair com a piada de achar que António Costa é um membro de uma minoria étnica discriminada, a piada é velha, já foi usada com a Kamala Harris) que tem o direito a dizer se é racismo ou não, os outros, comem e calam.
Nos EUA a experiência "antiracista" faz tocar alguns alarmes
ResponderEliminarConvém no entanto dizer que mesmo nos EUA ainda não se lembraram (digo eu) de usar como mais uma causa antiracista o uso de cartoons com cabeças de suíno no espaço público.
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ResponderEliminarConcordo com este post.
Ainda na quarta feira passada ouvi na rádio Lucy Pepper a defender essa teoria de que quem define racismo é quem é de raça diferente, e abri a boca de espanto, eu até tinha Lucy Pepper em alguma consideração, desceu muitos pontos nela.
O que deve ser superada é a discriminação e, para isso, a única via é a cultura. Raça não terá um critério científico, mas funcionava em termos práticos e não me parece que a supressão/eliminação de raça como critério ou sequer como vocábulo utilizável melhore seja no que for a questão da discriminação.
ResponderEliminarAdmitir que uma raça é superior a outra é, por definição racismo, mas esse facto, esse sentimento, esse preconceito, não desaparece se não se falar em raça mas apenas, para citar o exemplo mais corrente, em caucasianos e afro-americanos.
Nos states estão bastante mais avançados na insanidade,mas por cá faz-se o caminho
ResponderEliminarhttps://observador.pt/opiniao/criticar-o-governo-de-antonio-costa-passou-a-ser-racismo/
A espécie humana (Homo sapiens sapiens) tem um índice de heterozigosidade de 0,75 e um índice de fixação (Fst) máximo a rondar 0,33, sendo estes os critérios genéticos mensuráveis para efeitos taxonómicos. Se, nos gorilas, um Fst de 0,33 dá origem não a raças, mas a espécies diferentes, aplicado-se a mesma métrica à espécie humana torna-se evidente que existem, pelo menos, raças. Os factos genéticos são incontornáveis.
ResponderEliminarOs programas de GWAS (Genome-Wide Association Studies) que exploram as bases de dados genéticos conseguem associar características humanas importantes a raças, pese embora o facto desse tipo de investigação ter vindo a ser institucionalmente dificultado - e mesmo cancelado - e as pessoas que a ele se dedicam difamadas e perseguidas, tal como acontece noutras áreas, nomeadamente na Climatologia, desde que não se repita a cartilha dogmática "politicamente correcta" do momento, por mais anti-científica que ela seja.
Deste modo, reconheço com naturalidade que "Before the 2004 Athens Games, 494 of the top 500 times for the 100 m were held by sprinters who were of West African descent. (...) As the Olympic competition began to attract wider international participation, athletes with African heritage began to reach and eventually dominate the 100 m Olympic podium, particularly African-Americans and Afro-Caribbeans." (https://en.wikipedia.org/wiki/Race_and_sports).
Assim como reconheço com naturalidade que, no que refere a quociente de inteligência por país, os asiáticos apareçam nos primeiros lugares, seguidos dos europeus e os africanos figurem nos últimos lugares.
Por estranho que pareça, são raros os anti-racistas que olham "simplesmente" para a pessoa, para o ser humano. sabemos que muitos são os primeiros a observar a cor da pele e a avaliar o teor de melanina nela existente. Feita essa "avaliação", decretam seguidamente se a pessoa é ou não "racializada". (Ora, todos sabemos que designação tem esta forma preconceituosa de olhar o Outro, definindo-o exclusivamente pelo tom da pele. Mas adiante...).
ResponderEliminarPor outro lado, não percebo como a pessoa racializada (soi disant) tolera ou permite que se faça de si própria esta catalogação e esta apreciação tão redutora e simplista. É uma perversidade achar-se que a cor é o elemento primordial/central e definidor da pessoa, como se mais nada sobressaísse nela para além do seu tom de pele e fossem bem calafetados todos os outros traços da sua humanidade e assim se apagassem os elementos que fazem parte da natureza complexa e multifacetada de todo o ser humano.
Não é de facto fácil definir o "racismo".
Mas "simplificação" que decorre da racialização, considero a forma mais vil e ofensiva de alguém à sua «expressão mais simples». É uma "diminuição" do ser humano e portanto uma forma de : ele está à parte, com destaque para as suas diferenças, carregando-se nas cores (literalmente). Bastava simplesmente que as pessoas fossem olhadas no seu todo e apenas se considerasse que todos nascemos iguais e na plenitude de todos os direitos.
Há a Lei e há os Tribunais.