sexta-feira, 7 de abril de 2023

Dessacralização

Tenho visto vários católicos incomodados com o facto de ter sido marcado um jogo de futebol para Sexta-feira Santa, tal como acredito que muitos outros se incomodarão com o facto da Fox movies ter programado para hoje, Sexta-feira Santa, uma maratona de filmes de Charlie Chaplin, tal como são recorrentes os lamentos sobre a redução do Natal a um período de consumo e festa social.


A dessacralização do espaço público é um processo com raízes antigas no liberalismo e na laicização dos estados. Não me parece que valha a pena discutir o assunto a partir das emoções de cada um, tanto mais que corresponde ao abandono da prática religiosa que se verifica mais ou menos em todo o mundo.


A diminuição da prática religiosa é um assunto diferente do enfraquecimento do sentimento religioso, parece-me que o sentimento religioso é uma questão irredutivelmente pessoal, que deve ser respeitada, a questão da prática religiosa parece-me uma questão essencialmente comunitária.


O que queria fazer notar é que essa "libertação", na opinião de uns, "degradação cultural" na opinião de outros, do espaço público e da prática religiosa está muito longe de ser uniforme, achando-se, por exemplo, razoável discutir se os jogos de futebol durante o Ramadão não deverão ocorrer apenas depois do pôr do sol, para proteger os atletas muçulmanos, ao mesmo tempo que ninguém se atreve a pôr a hipótese de suspender as competições desportivas na Quaresma.


Um dia destes li um comentário de uma senhora muito indignada com uma exposição da Universidade de Coimbra e chamou-me especialmente a atenção esta parte: "Já vários especialistas se manifestaram quanto à forma como este Gabinete de Curiosidades viola as regras internacionais de exposição e conservação de objetos sensíveis, nomeadamente restos humanos e objetos sagrados, que só podem ser expostos “levando em consideração, quando conhecidos, os interesses e as crenças dos membros da comunidade, grupos religiosos ou étnicos de origem, com o maior tato e respeito à dignidade humana de todos os povos.” (Código de Ética do ICOM).".


Chamou-me a atenção exactamente porque imaginei o barulho, o rasgar de vestes e etc., que haveria se alguém resolvesse apoiar-se nesta recomendação ética do ICOM (International Council of Museums) para questionar a forma como são tratados os objectos sagrados da cultura ocidental de base cristã, sobretudo se adoptasse as práticas de contestação agora em moda, com invasões, boicotes, pichagens, destruição (mesmo que simbólica) dos contextos em que fossem usados os tais objectos sagrados para os cristãos.


E o mesmo para as datas sagradas.


Não nos enganemos, o que está errado não é o mundo fazer o que entender sem ter em atenção o que cada comunidade acha sagrado - esperando-se que entenda ter respeito pelos outros, claro - o que está errado é um grupo social, qualquer grupo social, entender que tem o direito a exigir que os outros, todos os outros, sejam condicionados, contra a sua vontade, pelo o seu sentimento do sagrado.

19 comentários:

  1. Em tese concordo contigo, e como certamente terás reparado o meu poste em baixo limita-se a uma constatação de factos que lamento. Tanto mais que não podemos simplificar a questão reduzindo-a a uma competição entre comunidades. Imagino que hajam muitos benfiquistas e portistas católicos e católicos que se estão a marimbar para o futebol. Facto que justifica mais a minha apreensão - este conflito de interesses não pesou nada para a decisão da marcação do jogo.

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  2. Obrigado Henrique, fui já para o Fox Movies! :)

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  3. Estamos de acordo, se houvesse jogadores com práticas islâmicas mais ortodoxas, provavelmente ter-se-ia discutido se faria sentido fazer o jogo numa determinada hora e dia em que se sabia que os jogadores islâmicos estariam em jejum desde o nascer do Sol, mas aparentemente ninguém avalia se não haverá jogadores cristãos para quem jogar numa Sexta-feira Santa seja inaceitável.
    A duplicidade de critérios parece-me evidente e, como tu, estou apenas a constatar um facto.
    Questão diferente é a de saber qual é a probabilidade de um cristão jogador de futebol profissional se recusar a jogar numa Sexta-feira Santa.
    O meu post apenas constata que a sociedade portuguesa (e isso parece-me poder ser generalizável ao Ocidente do hemisfério Norte), embora enraizada na cultura cristã, já reconhece pouco essas raízes enquanto tal.

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  4. A ciência das religiões, como disciplina autônoma, tendo por objeto a análise dos elementos comuns das diversas religiões afim de decifrar-lhes as leis de evolução e, sobretudo, precisar a origem e a forma primeira da religião, é uma ciência muito recente (data do século XIX), e sua fundação quase coincidiu com a da ciência da linguagem. Max Müller impôs a expressão “ciência das religiões” ou “ciência comparada das religiões” ao utilizá-la no prefácio do primeiro volume de sua obra Chips from a German Worshop (Londres, 1867). É certo que o termo fora empregado esporadicamente antes (em 1852, pelo padre Prosper Leblanc; em 1858 por F. Stie felhagen etc.), mas não no sentido rigoroso que Max Müller lhe deu e que, desde então, passou a ser amplamente adotado

    Mircea Eliade in O Sagrado e o Profano

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  5. E qual a razão da duplicidade de critérios?


    Marxismo e a sua desconstrução da Civilização Ocidental para poder tomar o poder.

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  6. É tudo muito triste, mais cada um sabe das suas prioridades.
    Uma curiosidade, corra o catálogo de documentários da RTP Play e depois diga alguma coisa.

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  7. Henrique Pereira dos Santos,
    Tentei enviar-lhe umas ideias que creio serem importantes. O sapo ensarilha-me tudo. Hei-de dar a volta.


    Abraço

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  8. Marxista era a tua mãe, lucklucky.

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  9. Religião e futebol não se discute com o barbeiro,  já diziam.
    A questão da Religião é que parte de uma verdade absoluta  (crença ou não) de ambas as partes, portanto não está aberto a debate ou a dúvidas. E nos extremos junta-se a virtude do seu, e o degredo moral do outro.
    Verdade é que no século xxi poucos são os temas que não são religiosos, sejam economia, aquecimento global, o trump, os trans, o racismo, ou o mala ciao.

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  10. A escumalha de extrema-direita parece estranhamente obcecada por "os trans".

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  11. A dessacralização do espaço público e a laicização das sociedades é o lado mais visível, mas superficial.  São o resultado de algo bastante mais complexo e laboriosamente planeado, que terá começado muito antes da data que apontou, o liberalismo. A origem desta persistente "descristianização" das sociedades ocidentais é verdadeiramente outra, e remonta a outro tempo, segundo alguns estudiosos :


     Segundo se crê, há uma outra espécie de religião (secreta) e também ela ritualizada, mas de sinal contrário, "criada" para se opor ao cristianismo/catolicismo e que tem como principal objectivo travá-lo, bani-lo e expurgá-lo dos seus símbolos no espaço público, até precipitar o seu desaparecimento, ou seja, a "Queda" desse Deus. Seria, pois, o corolário do Anjo Caído, outrora o Anjo da Luz, de quem acredita essa seita ser descendente, e cuja expulsão pretendem vingar. E reabilitar? (será, talvez, uma explicação possível para se autodenominarem Filhos da Luz).
    Este "exército" perseverantemente tem vindo a planear  vingar também a morte de um outro seu ascendente, Hiram, o Arquitecto que comandava um imenso e poderoso exército de pedreiros contrutores do Templo de Salomão (atente-se na bem conhecida simbologia). Vejamos a genealogia deste Hiram: era descendente de Tubalcaim filho de Zilá, que significa a perversão, a escuridão, o Mal. E era, por sua vez, segundo esta "religião", descendente de Caim, o 1º assassino e aquele que recusou curvar-se diante Deus por ser filho de Eva (e não de Adão) e de Eblis (a Serpente amaldiçoada, prefiguração do Anjo Caído). Serão por isso também chamados de Filhos da Viúva?

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  12. Toda a gente concorda que é preciso que os jogos de futebol sejam calendarizados por forma a proteger os atletas. É por isso que em Portugal, por exemplo, é proibido uma equipa jogar duas vezes seguidas com menos de 72 horas de intervalo.


    Uma coisa é proteger os atletas, outra muito diferente é proteger tradições religiosas.

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  13. Não é mais proibido trabalhar na Sexta Feira Santa do que em qualquer domingo. Que eu saiba, a lei católica mandar "guardar os domingos e os dias feriados". Ora, todos os futebolistas, católicos ou não, jogam frequentemente ao domingo. Jogar à Sexta Feira Santa é, do ponto de vista católico, exatamente o mesmo. (E um futebolista, mesmo nos dias em que não joga, não está de folga: tem dois treinos diários.)


    Para um muçulmano, não há qualquer dia em que seja interdito trabalhar. Um muçulmano não está proibido de trabalhar no Ramadão, a qualquer hora do dia ou da noite. Logo, não há comparação possível entre o islamismo e o cristianismo neste ponto: um muçulmano pode trabalhar em qualquer dia do ano, um cristão está proibido de trabalhar em pelo menos um em cada sete dias.

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  14. Maximilien Robespierre10 de abril de 2023 às 14:39

    Até que enfim que escreves alguma coisa de jeito, Henrique.

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  15. Curiosamente, cá em Portugal sempre se jogou futebol aos domingos. O que é contrário à lei cristã.
    Na Alemanha, pelo contrário, o futebol é (ou era, até há alguns anos) sempre ao sábado, para que os futebolistas possam guardar o domingo (sem treinar nem jogar nesse dia), como qualquer bom cristão deve fazer.
    Agora levanta-se um sururu por se ter jogado futebol em Portugal num dia supostamente santo, quando sempre se jogou futebol aos domingos, contrariamente à lei cristã.
    Acresce que a Sexta Feira Santa nem sequer é um feriado católico imposto pela Santa Sé. A Sexta Feira Santa não é um feriado imposto pela Concordata, ela somente foi decretada feriado, ainda no tempo da Outra Senhora, para as pessoas terem tempo de viajar para as suas terras pela Páscoa.
    Enfim, um disparate de todo o tamanho.

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  16. A programação do Domingo de Páscoa não foi inteiramente dessacralizada: na RTP2 passou o documentário sobre a Maçonaria “O Pesadelo dos Ditadores”, que estou a ver agora, e, de facto, pede meças ao 70x7. 

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  17. Errado! Um muçulmano não trabalha à sexta-feira. Julgo que só não segue essa prática se viver num país  muçulmano, por razões óbvias, já que é comum no mundo ocidental tudo fechar ao domingo. Julgo que para um muçulmano que mantivesse a tradição de não trabalhar à sexta ( juntando-lhe mais o domingo), representaria perdas significativas nos seus proventos _ assim como de oportunidades de trabalho.  
    Da mesma forma, sei de fonte segura que os ocidentais, cristãos ou não, a viver em países muçulmanos trabalham ao domingo, mas não à sexta-feira. O fim de semana no mundo muçulmano é sexta e sábado. O domingo é o 1º dia duma semana normal de trabalho, correspondente à nossa segunda-feira.

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