segunda-feira, 10 de abril de 2023

Ainda os lares

No Domingo de Páscoa, 9 de Abril, o Público dedica umas páginas largas ao problema dos lares, bastante à volta da ideia de que são precisas mais vagas nos lares das IPSS (mais de 50 mil, pelo menos).


Essencialmente, há várias pessoas a defender que o Estado deve aumentar o valor da comparticipação que paga às IPSS para receber pessoas.


"o custo real de uma vaga ronda os 1300, 1400 euros ... o valor suportado, em média, por cada utente ronda "os 400 e poucos euros" ... se a Segurança Social só me dá 500 eu tenho de ir buscar o resto à família e ao idoso ... com estes valores, a mensalidade paga na instituição ronda os 890 euros, a que se junta a comparticipação estatal".


Este espaço que o Público dedicou ao assunto (que incluem pelo menos duas páginas de testemunhos de quatro pessoas em lares, mas apenas lares muito caros, que não são o padrão que existe no país) não deve ser desligado de uma notícia no interior do Público do dia seguinte, sobre o facto do Ministério Público ter centralizado a investigação de maus tratos em lares "denúncias que incidem sobre "as condições indignas e cruéis de tratamento" de "pessoas particularmente indefesas" e o facto de estarem a dar entrada "em número crescente"".


Aparentemente (os números são um bocado confusos), haverá umas 150 mil pessoas em lares, das quais umas 102 mil em lares legais, das quais umas 73 mil em IPSS, havendo extensas listas de esperas em muitos lares.


Tal como na saúde, tal como na educação, tal como na segurança, também na velhice temos crescentemente dois países que não se encontram: o país dos pobres, que não podem escolher e se sujeitam ao que há, de maneira geral de qualidade mais que duvidosa, e o país dos ricos e remediados que consegue arranjar dinheiro para pagar um módico de qualidade para ter saúde, educação, segurança e velhice com os padrões mínimos que essas pessoas escolhem, dentro do que podem pagar.


Não admira que os lares ilegais proliferem, não admira que na sua maioria prestem serviços abaixo do mínimo exigível e não admira que sejam crescentes as denúncias de tratamento indigno no Ministério Público.


Tudo isto foi bastante exposto durante a covid (escrevi sobre isso em tempo) mas o problema é estrutural e tem duas componentes muito claras: 1) globalmente o sistema está sub-financiado porque as pessoas que têm dinheiro para pagar são relativamente poucas e com relativamente poucos recursos; 2) o modelo de prestação deste serviço, para os não ricos, assenta em instituições em que há mais boa vontade que competência, sendo certo que não só muitas vezes a boa vontade não chega para resolver a falta de competência de gestão, como ainda falta boa vontade em muitos lados, sem que isso melhore a competência.


Daí que não veja muita alternativa a aumentar o esforço financeiro do Estado para dar acesso a apoio na velhice aos que não têm recursos, ao mesmo tempo que se desloca o foco do problema do financiamento das IPSS para o utilizador, permitindo que, dentro dos limites do apoio, diferentes organizações possam competir entre si pela captação dos que procuram uma forma digna de viver os seus anos de velhice.

11 comentários:

  1. o principal problema é a falta de criação de riqueza por um sistema que não se desenvolve há quase 50 anos

    ResponderEliminar
  2. E que tem piorado bastante nas últimas 2 a 3 décadas onde a estagnação tem sido a palavra de ordem já para não falar da bancarrota do camarada Sócrates. 

    ResponderEliminar
  3. Basilio El Xuxalhote11 de abril de 2023 às 04:08

    Boa vontade...qual boa vontade? Alguns lares foram fechados por questões mesquinhas porque até nem eram muito maus e os utentes até se sentiam lá bem como o de Moscavide. É claro que não são lares de luxo como ou associados a entidades da treta que só aceitam e ajudam ricaços como Santas Casas das Misericordias, Cruzes Vermelhas, Caritas ou para onde vão os idosos reformados do Ministerio Publico etc... , como é que os pobres podem pagar para irem para estes luxos? Se não fossem as burocratices de merda e taxas absurdas seriam criados muitos mais lares escapatórios acessiveis aos pobres. Santas casas , cruzes vermelhas , caritas , ministerios publicos , clero , etc...tudo treta social que nao ajudam ninguem e nem sequer respondem a pedidos de auxilio urgente! Esta terreola é uma mentira e podridão total ! Desculpem lá a gramatica isso custa-me megabites.é o socialismo podre pessoal...
    Ass:Basilio el xuxalhote!

    ResponderEliminar

  4. Entretanto, Vital Moreira refere hoje no seu blogue (Causa Nossa) que os pensionistas auferem pensões que estão indexadas à inflação, por força da lei que rege o aumento das pensões.
    Quer isto dizer que, enquanto os trabalhadores vêem os seus rendimentos não acompanhar o custo de vida, os pensionistas estão a rir-se, auferindo pensões que acompanham esse custo.
    E agora quer o Henrique que, ademais, também se lhes pague o custo cada vez mais alto dos lares.
    Não seria mais curial, em vez, disso, aumentar os salários dos trabalhadores de acordo com a inflação, em vez de estar a criar mais uma classe de privilegiados que não sentem a inflação?

    ResponderEliminar

  5. Realmente, num país pobre, qualquer coisa é cara... o lar, a casa, o peixe, a electricidade.


    Um lar com mensalidade de 1000€ é "gama baixa", não parece haver muita gente capaz de pagar tal valor; ou poupou durante o seu tempo de "contribuinte", ou batatas.

    ResponderEliminar
  6. O Estado é o partido PS. 
    O partido PS é governo, logo, é poder.
    O PS é a fusão indistinta entre partido-governo- Estado. Desapareceu a separação de poderes.
    O Estado foi capturado pelo governo. 
    O governo invadiu o Estado, alapou-se no Estado e instrumentalizou as instituições do Estado. 
    O PS governa o país como coisa própria 
    pois...
    o dinheiro do Estado é do PS. (onde é que ouvimos isto?)
    E o PS governa. E governa-se. E cada PS "traz um amigo também!". Mas são pródigos: também pode ser um tio, a mulher, o primo... tanto faz!


    E o país do PS desgoverna-se...
    e estremece... e esmorece... ao som de suaves cantilenas que  embalam o "cidadão" e despertam nele ... um "eleitor"!


    E todos os meios (para o PS) são válidos para captar eleitores. Usar os eleitores; Fidelizar os eleitores;
    Dito de outra maneira: vale tudo para o PS se manter governo e ser poder; vale tudo _  mentir!_ para assaltar o Estado e ser poder e...ser governo.


    É fácil antever o que vai acontecer: 
    O dinheiro que é do Estado, logo do PS, será distribuído, "como", "quando" e "se" aprouver ao PS e se o PS achar que lhe traz conveniência, i.e., mais «eleitores». 


    Passando ao que interessa verdadeiramente ao PS: num país envelhecido, onde o número de idosos tende a crescer, «é só fazer as contas»: calculam o número-base, multiplicam pelo número de familiares (descontentes), diga-se eleitores . "Em princípio" é capaz de dar uma conta romana! Assim sendo podemos estar descansados. Talvez venha



    ResponderEliminar

  7. Um lar com mensalidade de 1000€ é "gama baixa", não parece haver muita gente capaz de pagar tal valor


    A maior parte dos portugueses possui um bem com um valor apreciável: a sua própria casa.


    Quando uma pessoa vai viver para um lar, já não precisa da casa. Pode vendê-la. Se auferir na venda uns 120 mil euros, já depois de impostos, fica com dinheiro para pagar a estadia no lar durante dez anos.


    Se a pessoa argumenta que não tem dinheiro para pagar o lar, mas tem uma casa, então está a mentir.

    ResponderEliminar
  8. Obrigado pela explicação.

    ResponderEliminar
  9. Agora não se diz "pobres".

    ResponderEliminar

A responsabilidade política de Fernando Alexandre

 Houve quem visse na minha recusa total da ideia infantil que Fernando Alexandre optou pela sua ambição contra o interesse dos alunos uma te...