quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

A mais pérfida

O título deste post parte desta frase que li por aí: "como se constata, poucas organizações são mais esmeradamente pérfidas q a icar".


Esta frase entronca numa linha de pensamento que também li por aí: "um universo de proibições, que transforma quase todas as práticas sexuais em transgressões capitais, não elimina instintos sexuais e consegue, isso sim, instituir a perversidade".


Apesar da inquietação que sinto por ver gente qualificada, incluindo gente treinada no direito, a aceitar e promover a ideia de que existe culpa colectiva - dizer que há criminalidade em comunidades ciganas e concluir pela culpa dos ciganos ou da cultura cigana é exactamente o mesmo que verificar que existe criminalidade na igreja ou entre o grupo social dos padres e concluir pela culpa da igreja, num caso, ou pela culpa dos padres, no outro - não quero fazer um post sobre essa regressão civilizacional.


A primeira frase ainda se pode atribuir à cegueira normal do sectarismo, a segunda frase é extraordinária de ignorância sobre a natureza humana e sobre os problemas associados ao abuso e crimes sexuais.


O facto de estas frases serem correntes na actual discussão à volta dos abusos sexuais na igreja católica, sem que suscitem, de maneira geral, reacções minimamente informadas sobre o problema, parece-me muito triste.


E parece-me triste pelo que revela de alienação em relação ao problema sério do abuso sexual, impedindo-nos de procurar soluções melhores para a protecção das vítimas potenciais e para a paz de espírito das vítimas passadas.


Não vou pôr aqui ligações para os estudos que existem, são muitos e não apenas centrados na igreja católica.


O que me interessa é fazer notar que quase todos os estudos comparativos que conheço, com a excepção de um estudo para a austrália, não identificam a situação da igreja católica como especialmente diferente de quaisquer outras organizações que lidam com crianças e jovens.


Bem sei que os estes estudos que li são ocidentais e sobre o ocidente, portanto sei muito pouco do que se passa nos mosteiros budistas, nas madrassas islâmicas, nas organizações de juventude de partidos de regimes totalitários (e outros, mas não gostaria de sair de situações bem caracterizadas de organizações de poder que lidam com crianças e jovens).


Li também que em Inglaterra já vão no 15º relatório sobre este assunto (não confirmei a informação, mas lembro-me de ter visto que havia relatórios dirigidos a diferentes tipos de organizações que lidam com crianças e jovens, incluindo as igrejas católica e anglicana, claro, mas também outras organizações relacionadas com desporto, escuteiros, etc.), numa demonstração de que é levada a sério a ideia de que a natureza humana é muito mais complexa do que deixam entender as duas frases que cito no princípio do post.


É o reconhecimento dessa natureza humana que permite às organizações adoptar práticas que permitam limitar os efeitos da perversidade, para citar a segunda frase lá de cima (a ideia de que a perversidade se resolve com educação é bem o exemplo de uma ideia completamente estúpida que, apesar disso, se mantém viva pela tranquilidade de espírito que dá aos que a subscrevem, evitando-se o desconforto de sabermos que todos nós somos da mesma massa e não conseguimos saber até onde iremos, no bem e no mal, dependendo das circunstâncias).


Quando procurava saber se a igreja católica é das organizações mais esmeradamente pérfidas que existem (limitando a minha procura de informação aos abusos sexuais), li um estudo feito com base em entrevistas a predadores presos por crimes sexuais. O que me impressionou (cito de memória e a minha memória é muito má) foi o tempo que habitualmente medeava entre os primeiros zunzuns e a prisão, qualquer coisa como 16 anos.


O padrão era mais ou menos semelhante em todos os casos, independentemente da pessoa concreta e das organizações pelas quais tinha passado.


Os predadores sexuais escolhem as suas vítimas, boa parte das vezes pela sua fragilidade e dependência. Quase sempre existe uma relação de proximidade (um parente, um amigo, um professor, um treinador, um confidente, um chefe de grupo, um padre, alguém que providencia orientação espiritual, qualquer coisa desse tipo) e prolongada no tempo, que cria relação de confiança, não apenas entre predador e vítima, mas entre predador e colegas e outras pessoas próximas dos dois.


Numa primeira fase as pessoas à volta desvalorizam os sinais (eu devo ter percebido mal), depois reconhecem alguns sinais, mas desvalorizam o seu significado (isto não é adequado, mas foi um deslize), depois não conseguem acreditar que aquele tipo (a esmagadora maioria dos predadores sexuais são homens) com quem bebem café, jogam à bola, discutem política ou pintura, seja verdadeiramente um predador, é só alguém que tem uma relação menos comum com alguém e quando a organização finalmente se convence de que o assunto é mais sério, de maneira geral considera o que se passou como um mau passo, e não como um traço de carácter, procurando por um lado redimir o predador e, por outro, proteger a organização de eventuais danos reputacionais.


Reconhecer que este é o problema é o primeiro passo para as organizações olharem para os seus procedimentos e abandonar uma certa flexibilidade em relação aos primeiros sinais e, por outro, reforçarem os mecanismos de apoio às vítimas que, frequentemente, só se reconhecem como vítimas muito mais tarde. E abandonarem definitivamente o medo tóxico dos danos reputacionais para a organização.


O que a igreja católica fez, deste ponto de vista, ao criar uma comissão para se olhar ao espelho, é notável.


Basta pensar nos resultados que seriam de esperar se o Estado resolvesse, com a mesma comissão, os mesmos membros, os mesmos métodos, olhar para os últimos setenta anos das suas instituições de acolhimento de menores, se os escuteiros fizessem o mesmo, se as federações desportivas fizessem o mesmo, se o sistema de ensino fizesse o mesmo (será mesmo verdade que nunca se ouviram comentários sobre o colégio militar, só para dar um exemplo).


O que estou a fazer não é desvalorizar o que se passou na igreja católica - que os católicos esperem da sua igreja que ela seja perfeita na caridade, não me espanta, que os não católicos exijam da igreja padrões morais mais elevados que os das outras organizações, só posso considerar como uma extraordinária vitória da igreja católica, mas à qual eu sou imune, eu espero que a igreja católica se comporte como qualquer outra organização humana - é apenas a dizer que se nos focarmos nas vítimas passadas e nas potenciais vítimas do futuro, é pouco, muito poucochinho, clamar contra a igreja católica pelo que fez, em vez de olhar para as portas que abriu em relação a um problema grave e transversal com que temos de conviver.


De preferência, melhor que no passado e com mais atenção às vítimas potenciais e reais.

16 comentários:

  1. Só uma questão.  Dos 4mil e tal abusos que a Comissão refere terem apurado, o número refere se a 4mil e tal vitimas ou a 550 aproximadamente que foram abusadas mais que uma vez ? Desde 1940 ? Destes cerca de 25% foram abusos praticados sobre seminaristas , certo. Os restantes fora do seminário. É importante compreender os números.  Tal como é importante perceber a alteração ao codigo penal feito no rescaldo do escândalo da Casa Pia, em que mudaram a lei para que cada abusador não pudesse ser condenado cumulativamente pelo número de abusos cometidos mas apenas pou um , se bem me lembro.

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  2. A Igreja Católica enquanto instituição é tão corporativa quanto os juízes, jornalistas ou árbitros de futebol. São humanos, afinal, e o sentido de auto-preservação é inerente ao animal, mesmo sendo um de fé.

    Há a ironia de falarmos de uma instituição moralmente superiora, em teoria, rápida a apontar os pecados de terceiros, mas tão célere na absolvição dos próprios.
    Salve a este Papa, parece empenhado em "limpar a casa". Vamos ver se o deixam, e até que ponto ele quer ir.

    Culpas colectivas também existem, mas não há nada como a responsabilização individual. Antes de discutir o "papel da Igreja" nestes casos, gostaria de ver os envolvidos irem perante a justiça dos Homens, sendo absolvidos ou punidos consoante caso.

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  3. existe culpa colectiva - [...] a culpa [...] da cultura cigana


    Culpar uma cultura não é propriamente o mesmo que assacar uma culpa coletiva.


    Uma certa cultura pode ser propícia ao cometimento de certos delitos. O que não é o mesmo que culpar coletivamente toda a gente que transporta essa cultura.


    Num exemplo simples: a cultura portuguesa é propícia a que se exagere nos consumos de sal e de álcool. Dizer estas verdades - que em boa parte decorrem de Portugal, pelas suas condições climáticas e de solos, ter sempre sido um grande produtor de sal e de vinho - não equivale a condenar coletivamente todos os portugueses, muitos dos quais não exageram nem no sal nem no álcool.

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  4. Tenho pena de não ter conseguido explicar a complexidade social deste tipo de crimes

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  5. Todos os crimes têm complexidade, social e pessoal.
    Não fosse o ser humano complexo, não faria sentido um tipo que já é rico roubar, ou o marido de uma top model andar pendurado em senhoras a pagar.


    Já quanto à questão da instituição (que é um conceito fictício, existem é pessoas) esconder os crimes de modo a proteger-se... pouco tem a ver com a complexidade do crime, mas sim com auto-preservação. E esse instinto é muito básico.

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  6. Abusos na Igreja portuguesa. Comissão validou 512 testemunhos, mas pode haver quase 5000 vítimas. Foram enviadas 25 queixas para o MP" . Da página de actualidade do sapo.pt  .

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  7. a instituição (que é um conceito fictício, existem é pessoas)


    Isto faz lembrar as teses de Yuval Noah Harari.

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  8. muito bem. só faltou falar da família , onde ocorrem a maioria dos abusos , e que é um dado referido em todos os estudos sobre abusos.

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  9. Exatamente.
    E não são somente abusos sexuais. É também violência física. Estou em crer, pelas histórias de pessoas minhas conhecidas, que muitos adultos de hoje têm um trauma recalcado das sovas que o pai, ou a mãe, lhes deram na infância.

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  10. Creio que os estudos estatísticos mais abrangentes foram nos EUA. Lembro-me de ler um artigo em que a pedofilia por religiosos (que incluía os em funções docentes) era muito menor do que nas escolas (em que se destacavam as actividades desportivas) e muitíssimo menor do que em ambiente familiar (incluía relações de vizinhança e visitas habituais).
    O meu primeiro comentário é que, não sendo o celibato obrigatório para professores, parentes e vizinhos, não tem qualquer lógica atribuir ao celibato dos padres a origem da pedofilia.
    Crime, pecado, desvio o que quiserem ou tudo isso e mais, parece evidente ser um fenómeno transversal. Por isso gostaria que a Comissão tivesse números mais detalhados. Quantos padres nesses 70 anos e em que universo total de padres. Pessoalmente acho muito grave que a Comissão não o tenha feito. Presidida por um psicólogo e tendo pelo menos, um jurista experimentado (director do CEJ, ministro da justiça, etc.) não podia ignorar que as extrapolações sem enquadramento estatístico (sendo o comparativo impossível para já) deveriam saber que o resultado provocaria sempre uma resposta emocional, a tal culpa colectiva e o denegrir de uma Instituição que não se esgota nos seus abusos, evidentemente deploráveis. Se era isso o que pretendiam, então estiveram bem. Foram eficazes.
    Também me incomodam os bispos acusados de encobrimento sem destacar os que nada fizeram - espero que poucos - dos que, não divulgando, tomaram medidas para evitar a continuação ou a repetição. É que os segundos terão entendido que a protecção da reputação da Igreja era mais importante do que a divulgação da verdade. Tal qual chefias militares que ocultaram excessos no terreno. E essa era a prática habitual, a cultura pode dizer-se. Só com Bento XVI isso foi invertido, e os bispos que ocultassem perderiam a sua Sé, Assim nem a lei canónica nem a lei penal os obrigava à denúncia. Mais uma vez parece-me profundamente injusto misturar pessoas que tiveram um erro de julgamento ou que apenas seguiram o costume, misturadas com outros que podem ser considerados coniventes.
    Por fim uma última palavra para as vítimas. Para o número incomensuravelmente maior de vítimas fora da Igreja, que se sentirão mais infelizes e amarguradas por comparação com as que receberam reconhecimento, um pedido de desculpas, quiçá uma indemnização. Muito especialmente aquelas que se encontravam do difícil percurso do esquecimento ou da superação e que agora se viram agredidas por uma realidade impossível de ignorar.

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  11. Ricardo Miguel Sebastião16 de fevereiro de 2023 às 11:50

    Acabei de ler que apenas houve 34 testemunhos cara a cara (presenciais ou por zoom) e os restantes foram 512 formulários anónimos enviados pela net; que credibilidade oferece um formulário enviado anonimamente pela net?

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  12. Apontou vários exemplos e distribuiu-os correctamente segundo um enquadramento específico: 
    -os que ocultaram para proteger a instituição (o caso das chefias militares);

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  13. Miguel Raposo Magalhães17 de fevereiro de 2023 às 11:51

    Muito bom, vou partilhar

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  14. Predadores e vítimas, os crimes, as circunstâncias, as eventuais causas, as instituições / lugares / contextos propícios, os estudos, os números, os danos, os sinais, os alertas e a prevenção ... Tudo bem. Mas não há crime sem castigo.
    E sobre as punições? Tratamento compulsivo? Prisão? Ostracismo? Castração? A obrigatoriedade de usarem vestes em público que os identifiquem (por ex. um barrete de 3 bicos com chocalhos)? Eu defendo esta última.

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