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É um assunto recorrente, à falta de melhor, alguma personalidade pública vir à praça pôr em causa os símbolos nacionais. Desta vez foi o cantor luso-cabo-verdiano Dino D’Santiago que, numa certamente bem frequentada conferência por causa dos 50 anos do Expresso, contestou o hino nacional português que reclama ser demasiado bélico. O tema, que em tempos tinha sido levantado com a mesma sofisticação teórica pelo maestro Vitorino de Almeida, pegou como fogo em palha seca nas redes sociais, donde nos últimos dias emerge um irresistível debate que venho seguindo com interesse. No Facebook alguém reclamava que o nosso hino não era grande coisa, que os mais bonitos eram o americano e a Marselhesa. Eu confesso que, mesmo gostando muito de música, os hinos não me atraem grandemente. Detentor duma relativamente numerosa discoteca, só sou feliz possuidor de dois hinos: o brasileiro, inserido numas Variações de Louis Moreau Gottschal (Grande Fantasia Triunfal) e uma impressão de 1906 ou 1907 em ebonite 78 rpm de "A Portuguesa", uma “canção de intervenção” adoptada pelos republicanos em 1891 como na sequência do ultimato britânico, quando eles se pretendiam fazer ao mar para heroicamente enfrentarem a armada britânica. Pena que não o tenham feito, todos juntos dentro cruzador Adamastor, adquirido pelos próprios através da “grande subscrição” patriótica. Não se tinha perdido grande coisa.
Na empolgante discussão sobre os deméritos de “A Portuguesa”, não foram poucos os que assumiram preferir o hino da Maria da Fonte, que os republicamos terão certamente ligado aos miguelistas. O facto é que hinos e marchas não entusiasmam a minha veia melómana, mas evidentemente prefiro qualquer um à Marselhesa, um descarado exemplo de xenofobia e belicismo. Os hinos soviético e americano são musicalmente interessantes, mas essa afeição talvez esteja relacionada com o número de vezes que os ouvi na infância e juventude a ver os Jogos Olímpicos na TV. Na verdade, os “símbolos nacionais” são uma invenção da sanguinária Revolução Francesa, na ânsia da consolidação do Estado Moderno como religião laica. Mesmo havendo quem afiance que “A Portuguesa” teria sido inicialmente dedicado por Alfredo Keil ao Príncipe Dom Miguel exilado na Austria, a verdade é que foram os republicanos de 1910 que o aproveitaram para primeiro hino nacional, na forma como entendemos actualmente o conceito. O Himno da Carta, era apenas o Hino da Carta, como o Hino da Restauração ou o Hino da Maria da Fonte. O pior a moda dos “símbolos nacionais” foi a bandeira verde-rubra com que nos castigaram os revolucionários numa exibição de extremo mau gosto, e em cuja genealogia encontramos os símbolos da bandeira dos terroristas carbonários. A ela se referiu assim Fernando Pessoa: “contrária à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se”. Valham-nos as armas reais, mesmo decapitadas lá no meio, que se foram impondo pelos nossos reis ao longo dos séculos, e cuja versão actual procede das armas de Dom João II com a Esfera Armilar de D. Manuel I.
Não me incomoda grandemente que se discutam os "símbolos nacionais”, pois não foi com “símbolos nacionais” que se construiu a nossa pátria. Portugal foi-se constituindo como Estado Nação ao longo da história numa adesão espontânea, de dentro para fora - aqui e ali com a ajuda dos ingleses, é certo. Para isso não foi preciso o rei aparecer periodicamente na televisão, nem bandeiras às janelas, ou hinos antes dos eventos internacionais. A nossa unidade política foi sendo construída desde o início à volta do rei, da cruz de Cristo, e duma língua, como um milagre espantoso; uma "improbabilidade" histórica como escreveu D. Manuel Clemente. Na verdade, estou convencido de que Portugal, ainda hoje é dos países do mundo que menos necessita da sacralização dos "símbolos nacionais", exacerbados sempre por países em formação ou nacionalidades pouco consolidadas. Aqui chegados, nós os portugueses há muito que nos habituámos a viver como habitualmente, e, de revolução em revolução, a aceitar um medíocre destino. O hino de Portugal decididamente não é o pior que nos impingiram e até homenageia os nossos egrégios avós. Agora aquela bandeira...
E mais um que pensa que a planta não deve ser alimentada.
ResponderEliminarA História foge do vácuo.
O hino brasileiro é dos melhores e as variações do Louis Moreau Gottschalk são muitíssimo boas. Tenho um disco DECCA com a pianista Cristina Ortiz. Quanto à feíssima bandeira verde-rubra, tem toda a razão. Mas não sou adepto de se mexer no que não precisa de ser mexido. Apesar de a azul e branca ser magnífica e tão próxima da nossa cultura
ResponderEliminarAh, as redes sociais. Essa comunidade.
ResponderEliminarEsse microssistema que pensa reflectir as ideologias e vontades dominantes, mas que não passa disso, de uma amostra da sociedade. Onde o "nós ", "eles" e "vocês " (vós) é usado no discurso individual, como se o twiteiro representasse algo mais que ele mesmo.
os símbolos nacionais de todos os países não me dizem nada.
ResponderEliminarAlfredo Keil perseguido depois do golpe no estado em 5.10 fugiu para a Alemanha e nunca mais se soube dele.
lopes graça queria fabricar outro hino.
Maria da Fonte 'tem uma espada à cintura para matar os Cabrais'
até os 'partidos' possuem hinos
Penso que demolindo o Padrão dos Descobrimentos, alterando o hino e eliminando de Sao Bento aquelas pinturas colonialistas Portugal ficaria livre das amarras que impedem o seu desenvolvimento social e económico.
ResponderEliminarOra aí está um ideia brilhante! O hino nacional seria o hino do partido que ganhasse as eleições.
ResponderEliminarA bandeira é um horror, de facto - ao nível (muito mau) de uma Bulgária ou Bielorrússia, falando apenas da Europa). Mas adequa-se muito mais ao que somos do que a antiga - infelizmente...
ResponderEliminarOs hinos incomodam mas a realidade actual https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/varios-feridos-em-ataque-com-faca-na-estacao-gare-du-nord-em-paris (a propósito, parece que há bandeiras que têm como simbolo catanas e coisas assim do género).
ResponderEliminarAlfredo Keil morreu, sim, na Alemanha (concretamente, em Hamburgo), mas em 1907, três anos antes do golpe republicano em Portugal.
ResponderEliminarMuito bem visto e ponderado!
ResponderEliminarEstou de acordo, e acho-a até, uma bandeira bastante kitch. Além de tudo, não faz qualquer sentido que a nossa bandeira seja esta. Porque esta era a bandeira de um só partido: o Partido Republicano. Quando a Monarquia foi substituída pela República, defendia-se que, ao inaugurar-se uma nova Era, Portugal devia ter uma , para assinalar a mudança de regime_ o que se compreende e até tem lógica. Só que tal não aconteceu, não criaram uma Bandeira Nacional nova adequada à implantação do novo regime. Limitaram-se a impor ao País, como um símbolo colectivo e Nacional, (pasme-se!).... uma conhecida bandeira, já existente, que pertencia a um só partido! Em suma: esta nossa bandeira "nacional" é a do extinto partido republicano!!!.
ResponderEliminarIsto é tão absurdo como se agora viessem impor aos portugueses que, doravante, a Bandeira Nacional de Portugal teria de adoptar as insígnias, símbolos e as cores do Partido Socialista todo-poderoso e cada vez mais hegemónico a tal ponto que se confunde (cada vez mais) com o Estado!
(Provavelmente já faltou mais... e como o povo é "sereno", dos portugueses tudo se pode esperar, pois «habituam-se» a tudo "sem truz nem muz").
não consta das notas da Respeitável Loja Cosmopolita do GOLU a que pertenceu
ResponderEliminarAdorei a sua ironia
ResponderEliminarCatana ,grande catana, que destino incompleto o teu !
ResponderEliminarTanto rancoroso por aqui, mesmo à espera que lho cortem !
A eles, o pescoço !
Não é por não constar dessas notas que Alfredo Keil deixou de morrer em Hamburgo a 4 de Outubro de 1907.
ResponderEliminarCosmopolita por ser a "Gomes Freire"?
ResponderEliminarNão deixa de humoroso o snr. Claudino adoptar Santiago como apelido artístico. Homenagem à terra natal, dirão. Pois ... Então o padroeiro dos exércitos de Portugal e Castela, conhecido como o apóstolo Mata-Mouros, não carrega um simbólico passado belicoso e sangrento?
vários Obreiros desta Respeitável Loja Cosmopolita ao Vale de Lisboa tentaram em vão contacta-lo
ResponderEliminardurante os 5 anos em que vivi só no Estoril em moradia junto ao Casino compilei 3 grossos volumes das 30 Potências Maçónicas portuguesas.
como me roubaram o manuscrito entreguei aos reservados da BNP os milhares de fotocópias em que me serviram de base e ofereci 1000 livros, 100 dos quais sobre Maçonaria
nunca falei ou escrevi sobre o que não conheci
A loja que melhor me servia (e,suponho,a metade da população) era a dos Trezentos (e não me refiro aos Trezentos anunciados,entre outros ,por F Pessoa) que já não existe desde há muito.
ResponderEliminarFaz mais sentido actualmente um Padrão aos Encobrimentos..
ResponderEliminarO seu comentário não é nada pertinente, nem vou comentar. Ah ah ah
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