sábado, 24 de setembro de 2022

A capital

O meu post anterior, repetindo uma ideia, que não é minha, mas que carrego comigo há mais de trinta anos - mudar a capital de Portugal para Castelo Branco - teve muito mais reacções do que esperaria, umas a dizer que não pode ser porque faz muito calor em Castelo Branco, outras a dizer que Coimbra é a capital de Portugal e fantasias que tais, outras centradas na afirmação de que a minha terra é que é, umas vezes com argumentos, outras vezes nem isso, e ainda uma ou outra reacção sobre o fundo da questão: a capitalidade prejudica Lisboa, pode ser usada para contrariar tendências que não são favoráveis à gestão do território e é uma decisão estritamente política.


Primeiro ponto: mudar a capital é, antes de mais, uma questão simbólica, e os países foram encontrando soluções que pareciam boas e equilibradas em cada momento. Dessas soluções constam a criação de capitais novas praticamente do nada (Madrid, por exemplo), constam a sua localização em cidades intermédias, diferentes dos centros económicos, sociais, culturais do país ou mesmo soluções menos usuais, como a dos Países Baixos, que têm uma capital política e outra capital administrativa.


Por mim, se quiserem continuar a ter Lisboa como capital política, não é o que defenderia, mas enfim, não é o essencial, o que me interessa é a capital administrativa.


Segundo ponto: as minhas razões para escolher Castelo Branco são bastante simples: está mais ou menos a meio do país no sentido Norte/ Sul (Guarda fica a uma hora mais de Faro que Castelo Branco, só para responder à hipótese da Guarda), está desequilibrada para o interior, o que me parece melhor para atingir os objectivos que se pretendem, que é levar emprego para onde faz falta, e tem boas condições fisiográficas para a sua expansão urbana (o que não acontece, por exemplo, nem com a Guarda, nem com a Covilhã, nem com Abrantes).


Ou seja, é uma solução simples, baseada em razões de paisagem simples, daí que não me interesse nada a discussão sobre se é melhor esta ou aquela localização.


Também não percebo o argumento da mudança de capital, versus o argumento da descentralização: Lisboa é capital há um ror de anos e não há descentralização nenhuma de jeito, mais, quando a Administração Pública decide lançar um programa de estágios - estágios são oportunidades de formação para pessoas, não são mecanismos de resolução das dificuldades de contratação de pessoas - são criadas mais oportunidades para as pessoas de Lisboa que no resto de todo o país, no seu conjunto, e isso, aparentemente, não escadaliza quase ninguém.


Para mim, parece-me claro que mudar a capital para fora de Lisboa facilita a tomada de decisões relacionadas com a descentralização, não se lhes opõe.


Vejamos, a bazuca tinha lá pelo meio uns valentes milhões para a descarbonificação.


Havia duas opções muito claras (uma manifestamente mais fácil, a outra mais complexa): usar o dinheiro para gerir a sério o problema dos fogos e a utilização do solo como sumidouro de carbono, ou usar o dinheiro para transportes públicos nas grandes cidades (sobretudo Lisboa, e um bocadinho no resto para não ser demasiado acintoso).


Estas duas opções têm efeitos diferentes no país, independentemente da bondade intrínseca de cada uma das soluções, matéria que nem chegou a ser discutida: no primeiro caso leva economia para a parte do país que não tem gente, não tem economia, não tem dinamismo social, no segundo caso acentua a tendência de concentrar economia onde há gente, oportunidades, criação de riqueza, libertação de meios de investimento.


Se a capital não fosse Lisboa, a mim parecer-me-ia mais fácil forçar a discussão das vantagens e desvantagens de cada opção, assim, continuamos sempre na mesma lógica: Lisboa é que tem gente, portanto temos de dar resposta às pessoas, logo investimos o dinheiro de todos (note-se que não estou a falar do dinheiro dos lisboetas, esse acho muito bem que seja gasto em transportes públicos) a resolver os problemas das pessoas, e portanto fazemos residências para estudantes, transportes públicos, escolas, etc., tudo em Lisboa.


Por cada um desses investimentos, aumenta a macrocefalia do país porque a cada um desses investimentos há um reforço da diferença económica de Lisboa em relação ao resto do país, como se uma espécie de buraco negro atraísse todos os recursos, a começar pelo capital humano, para Lisboa.


Se me disserem que não se podem deslocar as cadeias para longe das pessoas, por razões sociais relacionadas com a visitação e a reintegração dos presos, de acordo, é uma argumento que percebo, mas qual é o problema de pôr a Presidência da República em Castelo Branco?


Ou a Assembleia da República?


Ou os estágios da Administração Pública?


Devemos pôr o dinheiro dos contribuintes a resolver o problema da escassez de habitação nas grandes cidades, ou devemos reservá-lo, pelo menos em parte, para a criação de emprego nas cidades em que a habitação não é um problema de maior?


Esta é a discussão a fazer, o resto, se faz calor em Castelo Branco, ou se Abrantes está mais perto do centro geométrico do país, ou se a Guarda tem mais estradas a passar por lá, e coisas que tais, não tem interesse nenhum.


Do que tenho a certeza é que se a capital fosse em Castelo Branco, a ligação ferroviária entre as linhas da Beira Baixa e da Beira Alta seria levada muito mais a sério, com benefícios para todos, incluindo os lisboetas.

15 comentários:

  1. Nos Países Baixos (ou será Neerlândia?) a capital oficial é uma cidade e a capital política é outra cidade, ainda que sejam de facto cidades muito grandes e portanto a comparação com estas sugestões não seja a melhor.


    Uma das melhores cidades para viver em Portugal é Viseu e só teve caminho-de-ferro de "interface" que foi encerrado em 1990.

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  2. O problema não é administrativo. A capital pode ser Lisboa, Porto, Vila Real ou Funchal, não há necessidade é de todos os serviços estatais (ministérios, secretarias de estado, observatórios, etc) estarem na capital.
    Depois investe-se na Capital, quanto menos estruturas no resto do país, mais desertificado este fica. As empresas não querem ir "para o meio do nada", sem empresas não há pessoas, mas sem pessoas também não há empresas.
    Investir a sério em ferrovia seria um modo de rapidamente espalhar pessoas pelo país, o Governo faria a sua parte colocando os "infarmeds" fora dos grsndes centros. Também podem ir vender o resto do país não como um mero destino turístico mas como espaço para empresas, com rh bem formados.

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  3. Não podia estar mais de acordo com a sua ideia "revolucionária" de transferir a capital para outra localidade. Não só pelas razões fisiográficas que aponta, como também a da descentralização de facto. Tocou ainda noutro ponto com os melhores argumentos a que sou sensível : que não é justa a aplicação dos dinheiros de  os contribuintes para resolver  problemas que beneficiam exclusivamente algumas regiões de maior concentração populacional, incluindo a capital (onde estão os votos!). 
    E o resto da população fica a ver navios ao longe por um canudo (permita-me o termo popular).

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  4. Eu acho que é bem importante que faça calor em Castelo Branco. As  pessoas querem viver lá onde o clima seja agradável; aliás, é por esse motivo que muitos estrangeiros se instalam em Portugal. E o ar condicionado é caro e gasta muita energia. Uma excelente razão para em Portugal as pessoas preferirem o litoral é que no interior o clima é deveras agressivo.

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  5. Eu acho que deviam fechar a porta da adega.

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  6. O conceito é basicamente interessante. Há duas formas, polares , de levar a cabo esse tipo de política.

    Ou, tipo Brasília, em que se aproveitou (negocia-se) vasta área disponível, arquitectou-se e construi-se tudo a partir do nada. Os brasileiros que digam se gostaram.

    Ou, gradualmente -lembremo-nos que os terrenos em Castelo Branco têm dono- arquitecta-se e constroi-se um elefante branco tipo aero-moscas de Beja. O socialismo adora essas megalómanas formas de financiar o seu partido. 



    Outra forma mais simples e comprovadamente eficáz é política. Funcionou e funciona, devagarinho, na ilha da Madeira e na dos Açores. Consiste em dar completa autonomia fiscal, económica/financeira a uma região e deixar a populações locais -e as eventualmente atraídas- prosperar com as mais diversas actividades económicas que consiga atrair.
    Depois deixem-as votar nos seus políticos, locais, não nos que Lisboa lhes designa.

    Descentralização política, fiscal.... Simples.

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  7. « Lesboa é Portugal, o resto é paisagem »


    há anos que desejo que esta cidade se afunde 

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  8. Castelo Branco?
    A solução teria de passar por uma localidade do "Médio Tejo" ,
    Santa Margarida tem uma "Brasília" já construída, com pista de aterragem de aviões e tudo (pesquise no Google), ligação ferroviária e rio (Tejo) quase navegável.
    Uma ponte a ligar a margem sul e norte do Tejo e teríamos a capital ideal quase construída, seria um investimento mínimo.

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  9. Sugiro uma daquelas vilas na Serra da Estrela, pois a ministra coisa e tal disse que a Serra ia ficar bem melhor do que antes em abrantes. 

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  10. ponha os óculos para ver o riacho Tejo

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  11. O HPS é um bem intencionado que ainda crê que isto tem alguma solução. Então não vê que andamos a ser governados por alforrecas em vez de por homens?!
     Eu estou mais como o Eça. 

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  12. Já não, caro entulho.
    Já está bem composto, não é ainda uma "Tejada" a ameaçar cheias, também, já não é, o riacho que foi em Junho/Julho.

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  13. Contrariamente ao que geralmente se ouve dizer, as diferenças entre a região de Lisboa e o resto do país têm vindo a esbater-se, não a acentuar-se.


    Ver por exemplo aqui:
    https://www.pordata.pt/municipios/poder+de+compra+per+capita-118

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  14. Li ontem o seguinte: das dez maiores cidades de Espanha, somente duas (Madrid e Saragoça) se encontram longe do litoral. Apesar de a Espanha ser enorme, a quase totalidade das cidades do seu interior são deveras pequenas. E 50% da população espanhola vive na faixa litoral.
    Ou seja, isto não é um defeito de Portugal, é mesmo uma caraterística da Península Ibérica.

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  15. Pois, só que isso não impediu a mudança de capital de Sevilha para Madrid

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